"Somos bandidos classe A"

Memória policial: A história dos irmãos Campos, que compunham uma das mais violentas quadrilhas a atuarem em Passo Fundo

Por
· 3 min de leitura
Crédito:

Notamos que você gosta de ler nossas matérias.

Você já leu várias nas últimas horas, para continuar lendo gratuitamente, crie sua conta.

Ter uma Conta ON te da várias vantagens como:

  • Ler matérias sem limite;
  • Marcar matérias como lida;
  • Conteúdo inteligente.
Criar contaAcessar
Você prefere ouvir essa matéria?

No início dos anos 1990, o município de Passo Fundo foi adotado como sede de um dos mais violentos grupos criminosos da história recente do município. A cidade, que já sofrera com a atuação do bando de Jorge Cabeludo nos anos 1970 e recebera a alcunha nada lisonjeira de Chicago dos Pampas, era agora assolada por uma onda de crimes perpetrados por quatro irmãos oriundos do Estado do Paraná. Os irmãos Campos se destacavam pela audácia e violência com que agiam e por aproximadamente três anos trouxeram uma onda de horror à cidade. Jair Roberto Ribeiro de Campos, Rui Renato Ribeiro de Campos, Moacir Ribeiro de Campos e Luiz Carlos Ribeiro de Campos, respectivamente conhecidos como Zoiúdo, Rambo, Rico e Cartucho reinavam absolutos na criminalidade, mobilizando um grande contingente de policiais, tanto civis quanto militares, mas, por serem extremamente organizados e experientes, conseguiam se livrar das investidas das autoridades, até maio de 1994 quando três deles foram mortos em confrontos com a polícia em Passo Fundo e um foi morto também por policiais, no Paraná. 

Procurados em diversos estados, extraoficialmente, os irmãos Campos seriam responsáveis por pelo menos 50 homicídios, em Passo Fundo foram quatro.

As origens
Além dos pais, a família era composta por outros cinco irmãos além dos quadrilheiros. Pelo menos dois deles também tiveram envolvimento com o crime. À época da morte dos irmãos em Passo Fundo, o irmão mais velho, cumpria pena por assalto no Paraná e atualmente não há informações sobre seu paradeiro. Após o ingresso na criminalidade os irmãos percorreram vários Estados, tanto que quando foram mortos eram procurados em pelo menos sete, e tinham mandados de prisão emitidos no Paraná, Rondônia, Minas Gerais e Santa Catarina, sempre deixando um rastro de violência por onde passavam.
.
Registros
O registro mais antigo de crimes cometidos pelos irmãos data de 1987, quando Luiz Carlos e Rui participaram do sequestro de uma adolescente em Ariquemes (RO). É do mesmo ano o registro de um assalto a uma agência do Banco Bamerindus em Jaru, também em Rondônia, também realizado pelos irmãos. Estes processos foram extintos em 1999 em função das mortes dos acusados.

Quadrilha adotou Passo Fundo como sede
Rambo e Rico foram os primeiros do bando a agir em Passo Fundo. A princípio, ficaram hospedados em uma propriedade rural até que se mudassem para a cidade. Segundo Luiz Galbari da Silva, à época delegado titular da Delegacia de Furtos e Roubos a origem camponesa dos irmãos permeava a escolha dos locais de hospedagem. “Eles eram da roça, tinham isso muito presente, então preferiam ficar na zona rural”, afirmou. Em 1991 Rambo foi preso em um ponto de ônibus após ser abordado por um policial militar que desconfiou da atitude dele.
O apelido veio do personagem homônimo do cinema, já que, além das armas, no momento da prisão Rui usava uma jaqueta com diversos bolsos e divisões próprias para o armazenamento de munição, daí a associação com o veterano de guerra interpretado por Sylvester Stallone. Na casa dele os policiais encontraram uma grande quantidade de munição. Outra coisa que chamou a atenção do delegado foi uma revista em quadrinhos, desenhada por Rico, que era também um exímio desenhista. Na história, que envolvia criminosos e policiais, os bandidos saíam vencedores.

Conforme Galbari, com Rambo foram encontrados um revólver calibre 38, roubado de um vigilante e uma pistola Browning. “Na época o porte de arma não era crime, porém a vítima do roubo fez o registro na delegacia e conseguimos identificar que a arma era roubada. A vítima também o reconheceu como o autor do assalto então ele foi preso pelo roubo e não pelo porte das armas e da munição”, explicou.

Rapidamente o caso foi julgado e Rambo foi condenado a seis anos de prisão. Até aí tudo transcorria normalmente, até que a polícia descobriu que Rambo, na verdade, estava cumprindo pena com documentação falsa. Ele estava utilizando a carteira de identidade de uma vítima de um assalto em São Paulo, do qual apenas retirou a foto original substituindo por uma sua. “Até então não tínhamos nenhuma informação a respeito deles. Quando ele cumpriu um sexto da pena, conseguiu uma carta de emprego e recebeu o direito do regime semiaberto. Obviamente depois disso ele nunca mais voltou para o presídio”, disse o ex delegado.

Rambo permaneceu um ano no Presídio Regional de Passo Fundo até ser libertado em 1992, quando juntou-se aos irmãos que já estavam na cidade e iniciaram um período turbulento para as forças de segurança. Os principais alvos dos Campos eram agências bancárias, joalherias e supermercados. Os irmãos também cometeram crimes em cidades da região e, um assalto a uma agência bancária em Sertão também é atribuído ao bando. Outro episódio que envolveu a quadrilha foi um assalto a banco em Arvorezinha, onde houve confronto com a Brigada Militar e resultou na morte de um comparsa dos irmãos. Até hoje não se sabe se o criminoso foi morto pelos policiais ou pelos próprios Campos. Na ocasião os criminosos deixaram para trás um carregador de um fuzil.


Gostou? Compartilhe