Três indígenas ligados ao conflito de Carreteiro seguem foragidos

Por
· 5 min de leitura
Gerson Lopes/ ON Gerson Lopes/ ON
Gerson Lopes/ ON

Notamos que você gosta de ler nossas matérias.

Você já leu várias nas últimas horas, para continuar lendo gratuitamente, crie sua conta.

Ter uma Conta ON te da várias vantagens como:

  • Ler matérias sem limite;
  • Marcar matérias como lida;
  • Conteúdo inteligente.
Criar contaAcessar
Você prefere ouvir essa matéria?

Três indígenas suspeitos de participação nos conflitos pela disputa de poder na reserva de Carreteiro, em Água Santa, seguem foragidos da Justiça. Na última sexta-feira a Polícia Federal realizou uma operação que prendeu líderes de dois grupos dissidentes. Os 18 presos na operação permanecem em Passo Fundo. Segundo o delegado da Polícia Federal em Passo Fundo, Sandro Bernardi, após as prisões, não houve mais registro de conflito entre os grupos. Nos próximos dias, a Funai deve se reunir com indígenas para negociar o retorno das famílias expulsas da reserva e também definir com quem ficará a liderança da aldeia. 

Operação

A operação na última sexta-feira (4) reunindo mais de 300 agentes públicos, cumpriu 21 mandados de prisão preventiva e 28 de busca e apreensão nos municípios de Água Santa, Tapejara, Charrua e Passo Fundo. O objetivo foi frear a escalada de violência entre dois grupos rivais que disputam o poder dentro da Reserva Indígena de Carreteiro. Em três meses, aconteceram aproximadamente 70 conflitos entre os grupos, nem todos foram registrados pelos órgãos de segurança. 

O delegado da Polícia Federal de Passo Fundo, Sandro Bernardi, destacou que este é um problema histórico na região. Ele explica que a liderança tem o controle das terras, bem o seu lucro, fazendo a distribuição conforme a sua vontade. “Se não tomássemos uma atitude com brevidade, poderiam acontecer homicídios nessa reserva”, explicou o delegado. 

O Superintendente da PF no Rio Grande do Sul, José Antônio Dorneles Oliveira disse que estes conflitos são comuns em diversas reservas indígenas da região. “Outros casos na região de Passo Fundo estão sendo apurados, e inquéritos já foram instaurados, em alguns casos o Ministério Público e mesmo a Funai conseguem resolver, e a Polícia Federal tem agido efetivamente onde há um crime”, explicou ele. 

Durante a investigação, a Polícia Federal apurou que na reserva de Carreteiro os dois grupos rivais, reforçados por indivíduos de outras áreas indígenas, estavam armados e, nos últimos três meses, estavam praticando diversos atos violentos, inclusive em zona urbana, contra pessoas e contra o patrimônio.

O inquérito da Polícia Federal apura quatro tentativas de homicídio, organização criminosa, porte ilegal de arma, ameaças, lesões corporais e incêndios criminosos em residências.

As prisões e as buscas realizadas com a deflagração da Operação Carreteiro têm por objetivo fazer cessar a violência na região e a retomada da normalidade na aldeia e no município, além da coleta de informações e provas que auxiliem na identificação dos autores dos crimes.

O conflito 

Dois dias antes da operação , a reportagem do ON esteve em Água Santa para ouvir as lideranças dos dois grupos que disputam o poder na reserva de Carreteiro. Eles estão em conflito há aproximadamente três meses. As desavenças tiveram origem em 2019, quando o então cacique da aldeia, Valdir Nunes, deixou o cargo e se mudou para a sede do município. Uma eleição elegeu Getúlio Daniel como o novo cacique, entretanto, um grupo dissidente, fez uma nova eleição alguns meses depois, e elegeu José Daniel no lugar dele. Os dois passaram a disputar o poder. Os conflitos se acirraram e o grupo dissidente precisou deixar a reserva.

A área indígena tem 612 hectares, onde moravam 230 pessoas, porém, 60 foram expulsas. O grupo que deixou a reserva foi morar na sede do município. Atualmente está alojado de forma precária em um clube da cidade. Eles estão se mantendo principalmente com doações de alimentos e roupas de moradores locais. O grupo expulso é formado por pessoas de diferentes idades, desde crianças de um mês de idade, até idosos. Eles explicam que no dia que precisaram fugir da aldeia, deixaram todos os seus pertences para trás, foram abandonadas casas, veículos, móveis e roupas.

Inicialmente o grupo ficou escondido na mata, e quando a noite chegou, eles fugiram para a sede do município de Água Santa. José Daniel, cacique do grupo dissidente, e um dos presos na operação de sexta-feira, lamentou ter sido obrigado a deixar os bens pessoais para trás e estar passando por momentos de incertezas. “Eles vêm armados para a cidade e atiram aqui onde estamos alojados, também ameaçaram colocar fogo neste local, que não é nosso”, disse ele. O confronto mais recente aconteceu na noite de sábado (29), quando um indígena que estava em um restaurante local foi cercado e agredido pelos rivais. A Brigada Militar precisou intervir para evitar que a briga se tornasse uma confusão ainda mais grave.

José comentou que a única forma de solucionar essa questão seria uma intervenção por parte dos órgãos federais da aldeia. Segundo ele seria necessário montar uma comissão para administrar a reserva, até que a paz seja restabelecida e uma nova eleição seja possível.

Clima na reserva

Dentro da aldeia, o clima de tensão é permanente. O cacique do grupo que permaneceu na reserva, Getúlio Daniel, (que também foi preso na operação de sexta-feira) diz que atentados com armas de fogo são bastante frequentes. “Eu estava em Tapejara quando me avisaram que a casa da minha sogra tinha sido incendiada. Vim para a reserva, e quando faltava 50 metros para entrar, percebi que caí em uma emboscada, e fui atingido por dois tiros na perna”, comentou ele. Outras duas casas também foram incendiadas dentro da reserva. Além disso, há veículos completamente destruídos e com diversas perfurações de tiros próximo da área central da reserva. Getúlio disse que no ponto em que a desavença chegou, não há soluções para o conflito. “Eles precisam procurar outra reserva para morar, pois o retorno para Carreteiro coloca em risco membros dos dois grupos rivais”, explicou.

Ele lembrou que houve um consenso sobre a troca do cacicado em 2019, e a transição foi tranquila, porém, logo depois, o grupo que assumiu o poder, entrou em desacerto em relação a divisão das terras coletivas e individuais, que são utilizadas para a produção agrícola. Após este desentendimento, houve um racha no grupo que havia assumido do cacicado e não foi mais possível manter a harmonia interna.

Estradas fechadas

A estrada geral que leva até Carreteiro, e outras comunidades da região, chegou a ser fechada por alguns dias no mês de agosto, mas foi liberada em seguida. Agora, somente o acesso à Carreteiro é restrito. Podem entrar no local unicamente as pessoas que moram na comunidade, bem como seus familiares.

Prefeito

O prefeito de Água Santa, Jacir Miorando, comenta que essa situação causa uma sensação muito grade de insegurança entre a população do município, pois sempre que membros dos grupos rivais se encontram há brigas. “Houve diversos fatos em mercados, farmácias e restaurantes, onde aconteceram encontro entre membros dos grupos rivais e foram registrados brigas com paus e pedras, o que causa um clima de muita tensão”, explicou o prefeito. Jacir enfatizou que se sabe de aproximadamente 70 confrontos nos últimos meses, entretanto, nem todos são registrados na Polícia Civil. Para evitar que os confrontos tenham consequências mais graves, a Brigada Militar reforçou o efetivo local e faz o trabalho de patrulhamento durante as 24 horas. Ele lembrou que a população tem evitado sair de casa ao anoitecer, com medo de se colocar em alguma situação de risco.

Gostou? Compartilhe