Qual é a posição dos vereadores?

Conheça o mapa ideológico da Câmara de Passo Fundo e entenda o posicionamento de cada um deles

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xou o partido com a maior queda de votos de todos os tempos: o número negativo de -59,4%. Depois de um ano marcado por escândalos na política nacional – como a operação Lava-Jato, que desmantelou um dos maiores esquemas de corrupção do país, e o impeachment da então presidente Dilma Rousseff – o termo “renovação” construiu-se como o alicerce das campanhas nas eleições municipais. Estes efeitos, como previsto, refletiram – e muito – nas urnas. Ao mesmo tempo em que os partidos tidos como de direita comemoravam a manifestação de milhares de adeptos por todo país, o Partido dos Trabalhadores (PT) viu sua conjuntura cair drasticamente. Os números provam: em 2008, foram eleitos mais de 640 prefeitos petistas. Em 2016, no entanto, o número caiu para 256, o que deixou o partido com a maior queda de votos de todos os tempos: o número negativo de -59,4%. 

Ambos os movimentos acabaram reacendendo questões quase que adormecidas no âmbito político. O debate entre direita e esquerda voltou à tona, assim como seus derivados de centro e manifestações apartidárias. Este último aspecto é o de maior destaque: o voto mais pela pessoa e menos pelo partido que a representa foi crucial para interpretação do atual contexto político da nova legislatura da Câmara de Vereadores de Passo Fundo. Da nova conjuntura, a grande maioria manifestou-se através de um posicionamento intermediário: nem direita nem esquerda, mas centro. Neste sentido, a ponderação e a representação exclusiva do político são bases para compreender o atual cenário ideológico do Legislativo passo-fundense. 

Centro: definição primária

O posicionamento de centro é, de longe, o de maior destaque na Câmara. Pelo menos 15 vereadores eleitos se disseram representantes da categoria, que inclui ligeiras tendências mais à esquerda (seis vereadores) ou à direita (um). Como políticos voltados à esquerda manifestaram-se os dois representantes do PCdoB: Alex Necker e Rudimar dos Santos. Da direita, são quatro: Cláudio Rufa Soldá (PP), Patric Cavalcanti (DEM), Rafael Colussi (DEM) e Roberto Toson (PSD). Neste caso, o movimento de manifestar-se à direita é que é a novidade. “Há um tempo, quando você perguntava a classe política para os representantes do Congresso, por exemplo, nenhum deles se considerava político de direita. O motivo é que isso era muito ligado ao regimento autoritário”, afirmou a doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Silvana Krause. Segundo ela, esta auto-classificação no aspecto ideológico já está há algum tempo apta a “sair do armário”, já que a antes “direita envergonhada está tendo espaço para se mostrar”. Os motivos são diversos, mas tendem sempre a seguir o curso contrário do oponente. “Existe um conjunto de variáveis. O primeiro é o desgaste natural de um partido considerado de esquerda já há muitos anos no poder. No momento em que a esquerda é tão atacada, é evidente que as perdas para um político se considerar de direita são menores”, disse ela.  

O posicionamento de centro, por outro lado, surge como uma expectativa de ponderação entre dois extremos, como explica o pós-doutor em Sociologia e professor do Instituto Meridional de Passo Fundo (IMED), Jandir Pauli. Segundo ele, não é exagero afirmar que, se existe uma direita muito extrema, deverá surgir uma esquerda tão radical quanto – e vice-versa, proporcionalmente. “Não é a toa que o Brasil teve um movimento de esquerda muito forte na ditadura militar, por exemplo. O centro, teoricamente, passa a ser uma ponderação. O problema, segundo traços da política brasileira, é que a partir disso ele passa a ser bastante controverso e deslegitimado. Quer dizer: eu sou de centro, então posso estar deste lado ou do outro ao mesmo tempo”, explica o professor. Nestes casos, o recurso geralmente utilizado são as já conhecidas expressões como “estou do lado do povo” ou “não podemos olhar o partido, mas a pessoa”, como exemplifica. “Estas conversas terminantemente iludem, porque fazem com que o político pense só no seu projeto pessoal. O problema de haver uma maioria de centro é exatamente esse”, completa. Por outro lado, a auto-denominação de posicionar-se ao centro é também uma tendência observada em boa parte das democracias contemporâneas maduras, como explica Krause. “Você tem um eleitorado cada vez mais heterogêneo e diversificado. Radicalizando suas propostas, mais à esquerda ou à direita, tende a excluir certos eleitores”, explica ela. 

Articulação informal 

Como irmãs gêmeas, ideologia e política nasceram juntas, mas não necessariamente permanecem unidas no decorrer do tempo. No contexto brasileiro, este conhecimento passa longe de ser novidade. Pelo contrário; vem desde o Império, como explicou Krause. De acordo com a professora, a tradição política brasileira não é formal ou de via institucional; pelo contrário, tradicionalmente sempre procura articulações informais. “Os partidos políticos brasileiros nunca foram atores centrais na articulação do funcionamento da política. Isso é ainda mais aprofundado na política local municipal”, começa. Segundo ela, em municípios menores, por exemplo, o fenômeno é enraizado por ocorrer muito paralelamente às instituições locais e impacta diretamente no acesso ao poder público, construído por via afetiva, de contatos personalizados. “A exceção de uma política mais partidarizada, no sentido de que os partidos têm apelo central do funcionamento da política, foi muito recente e marcado, principalmente, pela formação do sistema partidário da nossa democracia, como a formação do PT e do PSDB, por exemplo”, pontua.  

Situação versus oposição 

Assim como o bem ou mal; bonito ou feio; homem ou mulher; os conceitos de direita e esquerda são dicotomias aprendidas para interpretar o mundo. “De fato, cada um deles carrega um concluso pragmático bastante consolidado”, afirma Pauli. Para ele, a primeira avaliação a ser feita para entender os conceitos de direita e esquerda é partir do traço situação versus oposição. “Desde a origem de ideia de esquerda, por exemplo, na Revolução Francesa, se tem a noção de que este posicionamento é de alguém que se opõe ao regime estabelecido”, explica o sociólogo. O que acontece é que, a partir do século XX, surge um conjunto de reformas políticas que aproximam e flexibilizam algumas das características de cada posicionamento. Na esquerda, por exemplo, prevalece a ideia de social democracia: o pensamento que não visa extinguir o capitalismo em sua totalidade, mas busca uma relação menos conflitante possível no sentido de bem estar social. Já a direita surge com o conceito de liberalismo: o que está em foco é a total liberdade política e econômica do cidadão; quanto menor a interferência do estado na vida da população, melhor para o desenvolvimento das comunidades. Ainda assim, uma mudança híbrida – muito vista recentemente – não interfere, por exemplo, que governos de direita deixem de incorporar algumas ideias relacionadas à políticas sociais. “É uma linha cada vez mais tênue que divide estes dois posicionamentos”, pontua ele. 

 

O mapa ideológico da Câmara de Passo Fundo 

Todos os posicionamentos foram destacados pelos próprios vereadores em entrevistas produzidas para a série 'Quem são eles?', publicadas entre outubro e dezembro do ano passado. A relação, portanto, foi construída sobre as falas de cada um e o posicionamento público de seus partidos 

ESQUERDA 

 

Rudimar dos Santos (PCdoB)

Alex Necker (PCdoB) 

Sobre o PCdoB

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) define-se como extrema esquerda. Dos quase 100 anos de existência, viveu 60 na clandestinidade. Em Passo Fundo o partido é posição: concorreu às eleições coligado com o PSB, partido do prefeito eleito, Luciano Azevedo: concorreu com 27 candidatos e elegeu dois representantes na Câmara. 

 

CENTRO ESQUERDA 

 

Aristeu Dalla Lana (PTB)

Mesmo que afirme não gostar de partidos políticos, Dalla Lana afirmou que, ideologicamente, compactua com as diretrizes do PTB – partido do qual pertence há mais de 20 anos. O partido fundado por Getúlio Vargas também defende questões relacionadas a causa trabalhista. 

 

Gleison Consalter (PSB)

O conhecido como 'Palhaço Uhu' está na Câmara desde 2013. Na época, elegeu-se pelo PT – na época oposição do também recém-eleito, Luciano Azevedo (PSB). No início de 2016, mudou-se para o PSB. Segundo ele, a troca se deu por uma série de acontecimentos – entre eles a crise política contra a então presidente Dilma. 

 

Luiz Miguel Scheis (PDT)

“Sempre fui do PDT; permaneci, estou e não saio do PDT. Tenho uma ideologia trabalhista muito grande, de raízes”, disse ele. Partido criado pelo político gaúcho Leonel Brizola, o PDT defende, em sua essência, causas trabalhistas. Em Passo Fundo, a sigla é oposição ao prefeito Luciano Azevedo. 

 

Márcio Patussi (PDT)

Em entrevista, Patussi afirmou seguir o partido no sentido ideológico: os pedetistas posicionam-se à centro esquerda e, historicamente, são influenciados pelo político gaúcho Leonel Brizola. No entanto, em 2016, manifestou-se contrário a decisão do partido de apoiar a presidente Dilma contra o impeachment. “Compreendo que era necessário que o país passasse por isso”, afirmou. 

 

Saul Spinelli (PSB)

“Eu não diria que sou de esquerda e também não diria que sou de direita. Não gosto desta definição. Na prática isso não se condiz há muito tempo”, defendeu ele.

 

Valdecir de Moraes (PSB)

Quando entrevistado, Valdo definiu-se como fiel às correntes de sua filiação. “Sou pelo partido”, determinou. 

 

O PSB possui a bancada de maior número de componentes da Casa: são quatro representantes. No geral, defende o socialismo democrático. 

 

CENTRO 

 

Eloí da Costa (PMDB)

“Hoje não tenho ideologia política pelas coisas que vejo acontecer em âmbito nacional. Temos que votar na pessoa, pelo seu caráter. Não sigo linhas partidárias ou ideológicas”, disse em entrevista. 

 

Evandro Meireles (PTB)

O vereador eleito diz não ter lado. “Para mim, política é administração. Não importa para eles [os eleitores] se você é de direita, esquerda ou centro; eles querem saber de trabalho”, completa. 

 

Fernando Rigon (PSDB)

“Vi na minha campanha que o eleitor não está mais preocupado com ideologias. Por isso não pretendo me envolver muito nas questões nacionais. Não tenho ideologia: circulo bem entre todos os partidos”, conferiu. 

 

Leandro Rosso (PRB)

O Partido Republicano Brasileiro (PRB) é um dos mais novos do país: foi instituído em 2005. Posicionado ao centro, Rosso não declara um lado. “ Não tenho receito a nenhuma classe, seja ela LGBT ou de religião. Só quero fazer o meu trabalho”, defendeu-se. 

 

Paulo Neckle (PMDB)

“O dia em que eu resolver mudar de partido, saio da política”. Isso porque, segundo ele, o partido rege seus feitos de acordo com os preceitos principais da sigla. “É um partido completamente moderado. Tem seus problemas – assim como têm os demais partidos, mas graças a Deus, aqui em Passo Fundo é diferente. Jamais vou mudar”, pontua. 

 

Pedro Daneli (PPS)

Com exceção das eleições de 2012 e 2016, Daneli sempre concorreu pelo PMDB. Após sair do partido, acabou entrando no PPS – o partido se posiciona a centro esquerda e defende, entre outras bases, o parlamentarismo.

 

Renato Tiecher (PSB)

Nos últimos quatro anos, Tiecher passou por três partidos diferentes: elegeu-se pelo PCdoB, migrou para o Solidariedade e, por último, estabilizou-se no PSB. Mesmo com algumas semelhanças ideológicas entre os três partidos, ele diz não se sentir representado por nenhuma. “Isso é tudo balela de pessoas que gostam de ver muita história do passado, então não dou bola pra isso”, afirmou. 

 

Ronaldo Rosa (SD)

Fundado em 2013, o Solidaridade é o mais novo partido brasileiro e está posicionado a centro esquerda. “O partido é mais ligado aos sindicatos, que têm relação forte com a esquerda. Neste sentido, não acompanho o partido”, afirma Ronaldo, que firmou seu posicionamento ao centro.   

 

CENTRO DIREITA

 

Mateus Wesp (PSDB)

Ex-filiado ao PP, Wesp migrou porque não compactuava com o apoio do partido progressista na permanência da presidente agora destituída do cargo, Dilma Rousseff. O PSDB foi escolhido por seu posicionamento favorável ao parlamentarismo. 

 

DIREITA

 

Cláudio Rufa Soldá (PP)

Sua caminhada política iniciou no PMDB. Hoje filiado ao Partido Progressista, defende seu posicionamento de identificação com as ideologias do grupo. “Sou de direita. Não adianta, acho que temos que ter posicionamento”, declarou. 

 

Patric Cavalcanti (DEM)

“Sou de direita, sempre fui e sempre serei. Respeito todas as ideologias, mas tenho uma posição e a mantenho em minhas ações na Câmara de Vereadores e na sociedade”, pontuou. 

 

Rafael Colussi (DEM)

No mapa ideológico, o Democratas se posiciona à direita, com defesa do conservadorismo liberal. Esta linha é seguida por Rafael. Mesmo tendo concorrido pelo PMDB em 2012, retornou ao partido pela identificação com suas ideias e o atual cenário político.

 

Roberto Toson (PSD)

Na defesa pelo liberalismo econômico, social democracia e conservadorismo liberal, o PSD se posiciona como um partido de centro-direita. “Defendo a direita”, apontou. 

 

 

Liberalismo 

A vertente política fundada sobre ideias de liberdade individual, livre comércio, propriedade privada e igualdade entre direitos civis. 

 

 

Parlamentarismo 

Vivemos hoje em um regime Presidencialista: a população escolhe quem serão os seus representantes dos poderes Executivo e Legislativo através do voto. Quem tiver mais votos, ganha.  Já no Parlamentarismo a eleição seria toda voltada para o Congresso que, por sua vez, elegeria o conhecido como primeiro ministro – uma figura tão importante ou mais que o próprio presidente. Desta forma, o Congresso ganharia mais destaque, já que todas as decisões passariam por ele. Entre as vantagens está a solução ágil de crises políticas; a facilidade na aprovação das leis – em teoria haveria menos burocracia – e a ligação complementar do Executivo e Legislativo, que trabalhariam unidos totalmente. Mas também tem desvantagens: questões de minorias recebem menos atenção, já que o Parlamento tende a ser formado por menor número de partidos e todos com correntes de pensamento majoritárias. Além disso, o Chefe do Executivo deixa de ser escolhido pelo povo, e passa a ser destacado pelo Congresso. Grande parte dos países da Europa, como Reino Unido, Canadá, Portugal e Alemanha são regidos pelo parlamentarismo, por exemplo. 

Ambos os movimentos acabaram reacendendo questões quase que adormecidas no âmbito político. O debate entre direita e esquerda voltou à tona, assim como seus derivados de centro e manifestações apartidárias. Este último aspecto é o de maior destaque: o voto mais pela pessoa e menos pelo partido que a representa foi crucial para interpretação do atual contexto político da nova legislatura da Câmara de Vereadores de Passo Fundo. Da nova conjuntura, a grande maioria manifestou-se através de um posicionamento intermediário: nem direita nem esquerda, mas centro. Neste sentido, a ponderação e a representação exclusiva do político são bases para compreender o atual cenário ideológico do Legislativo passo-fundense. 
Centro: definição primáriaO posicionamento de centro é, de longe, o de maior destaque na Câmara. Pelo menos 15 vereadores eleitos se disseram representantes da categoria, que inclui ligeiras tendências mais à esquerda (seis vereadores) ou à direita (um). Como políticos voltados à esquerda manifestaram-se os dois representantes do PCdoB: Alex Necker e Rudimar dos Santos. Da direita, são quatro: Cláudio Rufa Soldá (PP), Patric Cavalcanti (DEM), Rafael Colussi (DEM) e Roberto Toson (PSD). Neste caso, o movimento de manifestar-se à direita é que é a novidade. “Há um tempo, quando você perguntava a classe política para os representantes do Congresso, por exemplo, nenhum deles se considerava político de direita. O motivo é que isso era muito ligado ao regimento autoritário”, afirmou a doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Silvana Krause. Segundo ela, esta auto-classificação no aspecto ideológico já está há algum tempo apta a “sair do armário”, já que a antes “direita envergonhada está tendo espaço para se mostrar”. Os motivos são diversos, mas tendem sempre a seguir o curso contrário do oponente. “Existe um conjunto de variáveis. O primeiro é o desgaste natural de um partido considerado de esquerda já há muitos anos no poder. No momento em que a esquerda é tão atacada, é evidente que as perdas para um político se considerar de direita são menores”, disse ela.  

O posicionamento de centro, por outro lado, surge como uma expectativa de ponderação entre dois extremos, como explica o pós-doutor em Sociologia e professor do Instituto Meridional de Passo Fundo (IMED), Jandir Pauli. Segundo ele, não é exagero afirmar que, se existe uma direita muito extrema, deverá surgir uma esquerda tão radical quanto – e vice-versa, proporcionalmente. “Não é a toa que o Brasil teve um movimento de esquerda muito forte na ditadura militar, por exemplo. O centro, teoricamente, passa a ser uma ponderação. O problema, segundo traços da política brasileira, é que a partir disso ele passa a ser bastante controverso e deslegitimado. Quer dizer: eu sou de centro, então posso estar deste lado ou do outro ao mesmo tempo”, explica o professor. Nestes casos, o recurso geralmente utilizado são as já conhecidas expressões como “estou do lado do povo” ou “não podemos olhar o partido, mas a pessoa”, como exemplifica. “Estas conversas terminantemente iludem, porque fazem com que o político pense só no seu projeto pessoal. O problema de haver uma maioria de centro é exatamente esse”, completa. Por outro lado, a auto-denominação de posicionar-se ao centro é também uma tendência observada em boa parte das democracias contemporâneas maduras, como explica Krause. “Você tem um eleitorado cada vez mais heterogêneo e diversificado. Radicalizando suas propostas, mais à esquerda ou à direita, tende a excluir certos eleitores”, explica ela. 


Articulação informal Como irmãs gêmeas, ideologia e política nasceram juntas, mas não necessariamente permanecem unidas no decorrer do tempo. No contexto brasileiro, este conhecimento passa longe de ser novidade. Pelo contrário; vem desde o Império, como explicou Krause. De acordo com a professora, a tradição política brasileira não é formal ou de via institucional; pelo contrário, tradicionalmente sempre procura articulações informais. “Os partidos políticos brasileiros nunca foram atores centrais na articulação do funcionamento da política. Isso é ainda mais aprofundado na política local municipal”, começa. Segundo ela, em municípios menores, por exemplo, o fenômeno é enraizado por ocorrer muito paralelamente às instituições locais e impacta diretamente no acesso ao poder público, construído por via afetiva, de contatos personalizados. “A exceção de uma política mais partidarizada, no sentido de que os partidos têm apelo central do funcionamento da política, foi muito recente e marcado, principalmente, pela formação do sistema partidário da nossa democracia, como a formação do PT e do PSDB, por exemplo”, pontua.  
Situação versus oposição Assim como o bem ou mal; bonito ou feio; homem ou mulher; os conceitos de direita e esquerda são dicotomias aprendidas para interpretar o mundo. “De fato, cada um deles carrega um concluso pragmático bastante consolidado”, afirma Pauli. Para ele, a primeira avaliação a ser feita para entender os conceitos de direita e esquerda é partir do traço situação versus oposição. “Desde a origem de ideia de esquerda, por exemplo, na Revolução Francesa, se tem a noção de que este posicionamento é de alguém que se opõe ao regime estabelecido”, explica o sociólogo. O que acontece é que, a partir do século XX, surge um conjunto de reformas políticas que aproximam e flexibilizam algumas das características de cada posicionamento. Na esquerda, por exemplo, prevalece a ideia de social democracia: o pensamento que não visa extinguir o capitalismo em sua totalidade, mas busca uma relação menos conflitante possível no sentido de bem estar social. Já a direita surge com o conceito de liberalismo: o que está em foco é a total liberdade política e econômica do cidadão; quanto menor a interferência do estado na vida da população, melhor para o desenvolvimento das comunidades. Ainda assim, uma mudança híbrida – muito vista recentemente – não interfere, por exemplo, que governos de direita deixem de incorporar algumas ideias relacionadas à políticas sociais. “É uma linha cada vez mais tênue que divide estes dois posicionamentos”, pontua ele. 


O mapa ideológico da Câmara de Passo Fundo Todos os posicionamentos foram destacados pelos próprios vereadores em entrevistas produzidas para a série 'Quem são eles?', publicadas entre outubro e dezembro do ano passado. A relação, portanto, foi construída sobre as falas de cada um e o posicionamento público de seus partidos 


ESQUERDA 
Rudimar dos Santos (PCdoB)Alex Necker (PCdoB) 

 Sobre o PCdoBO Partido Comunista do Brasil (PCdoB) define-se como extrema esquerda. Dos quase 100 anos de existência, viveu 60 na clandestinidade. Em Passo Fundo o partido é posição: concorreu às eleições coligado com o PSB, partido do prefeito eleito, Luciano Azevedo: concorreu com 27 candidatos e elegeu dois representantes na Câmara. 


CENTRO ESQUERDA 
Aristeu Dalla Lana (PTB)Mesmo que afirme não gostar de partidos políticos, Dalla Lana afirmou que, ideologicamente, compactua com as diretrizes do PTB – partido do qual pertence há mais de 20 anos. O partido fundado por Getúlio Vargas também defende questões relacionadas a causa trabalhista. 


Gleison Consalter (PSB)O conhecido como 'Palhaço Uhu' está na Câmara desde 2013. Na época, elegeu-se pelo PT – na época oposição do também recém-eleito, Luciano Azevedo (PSB). No início de 2016, mudou-se para o PSB. Segundo ele, a troca se deu por uma série de acontecimentos – entre eles a crise política contra a então presidente Dilma. 


Luiz Miguel Scheis (PDT)“Sempre fui do PDT; permaneci, estou e não saio do PDT. Tenho uma ideologia trabalhista muito grande, de raízes”, disse ele. Partido criado pelo político gaúcho Leonel Brizola, o PDT defende, em sua essência, causas trabalhistas. Em Passo Fundo, a sigla é oposição ao prefeito Luciano Azevedo. 


Márcio Patussi (PDT)Em entrevista, Patussi afirmou seguir o partido no sentido ideológico: os pedetistas posicionam-se à centro esquerda e, historicamente, são influenciados pelo político gaúcho Leonel Brizola. No entanto, em 2016, manifestou-se contrário a decisão do partido de apoiar a presidente Dilma contra o impeachment. “Compreendo que era necessário que o país passasse por isso”, afirmou. 

Saul Spinelli (PSB)“Eu não diria que sou de esquerda e também não diria que sou de direita. Não gosto desta definição. Na prática isso não se condiz há muito tempo”, defendeu ele.


Valdecir de Moraes (PSB)Quando entrevistado, Valdo definiu-se como fiel às correntes de sua filiação. “Sou pelo partido”, determinou. 

O PSB possui a bancada de maior número de componentes da Casa: são quatro representantes. No geral, defende o socialismo democrático.

 
CENTRO 
Eloí da Costa (PMDB)“Hoje não tenho ideologia política pelas coisas que vejo acontecer em âmbito nacional. Temos que votar na pessoa, pelo seu caráter. Não sigo linhas partidárias ou ideológicas”, disse em entrevista. 


Evandro Meireles (PTB)O vereador eleito diz não ter lado. “Para mim, política é administração. Não importa para eles [os eleitores] se você é de direita, esquerda ou centro; eles querem saber de trabalho”, completa. 


Fernando Rigon (PSDB)“Vi na minha campanha que o eleitor não está mais preocupado com ideologias. Por isso não pretendo me envolver muito nas questões nacionais. Não tenho ideologia: circulo bem entre todos os partidos”, conferiu. 


Leandro Rosso (PRB)O Partido Republicano Brasileiro (PRB) é um dos mais novos do país: foi instituído em 2005. Posicionado ao centro, Rosso não declara um lado. “ Não tenho receito a nenhuma classe, seja ela LGBT ou de religião. Só quero fazer o meu trabalho”, defendeu-se. 


Paulo Neckle (PMDB)“O dia em que eu resolver mudar de partido, saio da política”. Isso porque, segundo ele, o partido rege seus feitos de acordo com os preceitos principais da sigla. “É um partido completamente moderado. Tem seus problemas – assim como têm os demais partidos, mas graças a Deus, aqui em Passo Fundo é diferente. Jamais vou mudar”, pontua.

 
Pedro Daneli (PPS)Com exceção das eleições de 2012 e 2016, Daneli sempre concorreu pelo PMDB. Após sair do partido, acabou entrando no PPS – o partido se posiciona a centro esquerda e defende, entre outras bases, o parlamentarismo.


Renato Tiecher (PSB)Nos últimos quatro anos, Tiecher passou por três partidos diferentes: elegeu-se pelo PCdoB, migrou para o Solidariedade e, por último, estabilizou-se no PSB. Mesmo com algumas semelhanças ideológicas entre os três partidos, ele diz não se sentir representado por nenhuma. “Isso é tudo balela de pessoas que gostam de ver muita história do passado, então não dou bola pra isso”, afirmou. 


Ronaldo Rosa (SD)Fundado em 2013, o Solidaridade é o mais novo partido brasileiro e está posicionado a centro esquerda. “O partido é mais ligado aos sindicatos, que têm relação forte com a esquerda. Neste sentido, não acompanho o partido”, afirma Ronaldo, que firmou seu posicionamento ao centro.   


CENTRO DIREITA
Mateus Wesp (PSDB)Ex-filiado ao PP, Wesp migrou porque não compactuava com o apoio do partido progressista na permanência da presidente agora destituída do cargo, Dilma Rousseff. O PSDB foi escolhido por seu posicionamento favorável ao parlamentarismo. 


DIREITA
Cláudio Rufa Soldá (PP)Sua caminhada política iniciou no PMDB. Hoje filiado ao Partido Progressista, defende seu posicionamento de identificação com as ideologias do grupo. “Sou de direita. Não adianta, acho que temos que ter posicionamento”, declarou. 


Patric Cavalcanti (DEM)“Sou de direita, sempre fui e sempre serei. Respeito todas as ideologias, mas tenho uma posição e a mantenho em minhas ações na Câmara de Vereadores e na sociedade”, pontuou. 


Rafael Colussi (DEM)No mapa ideológico, o Democratas se posiciona à direita, com defesa do conservadorismo liberal. Esta linha é seguida por Rafael. Mesmo tendo concorrido pelo PMDB em 2012, retornou ao partido pela identificação com suas ideias e o atual cenário político.


Roberto Toson (PSD)Na defesa pelo liberalismo econômico, social democracia e conservadorismo liberal, o PSD se posiciona como um partido de centro-direita. “Defendo a direita”, apontou. 


Liberalismo A vertente política fundada sobre ideias de liberdade individual, livre comércio, propriedade privada e igualdade entre direitos civis. 

Parlamentarismo Vivemos hoje em um regime Presidencialista: a população escolhe quem serão os seus representantes dos poderes Executivo e Legislativo através do voto. Quem tiver mais votos, ganha.  Já no Parlamentarismo a eleição seria toda voltada para o Congresso que, por sua vez, elegeria o conhecido como primeiro ministro – uma figura tão importante ou mais que o próprio presidente. Desta forma, o Congresso ganharia mais destaque, já que todas as decisões passariam por ele. Entre as vantagens está a solução ágil de crises políticas; a facilidade na aprovação das leis – em teoria haveria menos burocracia – e a ligação complementar do Executivo e Legislativo, que trabalhariam unidos totalmente. Mas também tem desvantagens: questões de minorias recebem menos atenção, já que o Parlamento tende a ser formado por menor número de partidos e todos com correntes de pensamento majoritárias. Além disso, o Chefe do Executivo deixa de ser escolhido pelo povo, e passa a ser destacado pelo Congresso. Grande parte dos países da Europa, como Reino Unido, Canadá, Portugal e Alemanha são regidos pelo parlamentarismo, por exemplo. 

 

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