Onde foi parar a imunidade das crianças?

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Mudanças de comportamento das famílias, que passaram a viver mais em apartamentos, rodeadas de sistemas que oferecem conforto, diminuiu horas destinadas ao lazer ao ar livre. O mesmo acontece com as crianças, que não brincam tanto em pátios ou na rua como antigamente. Estas duas situações levam muitas pessoas a acreditar que este comportamento, de viver mais em locais fechados, contribui para a diminuição da imunidade das crianças. Mas isso será verdade?

A mesma pergunta foi feita à médica pediatra Wania Eloisa Ebert Cechin, coordenadora da Residência Médica de Pediatria do Hospital São Vicente de Paulo. Confira o que ela pensa sobre o assunto.

Medicina & Saúde - É possível afirmar que as crianças de hoje têm menos imunidade que antigamente?
Wania Eloisa Ebert Cechin -
A resposta é difícil nestes termos, eu diria que atualmente as crianças têm uma sobrevivência maior. Antigamente as crianças com uma doença grave ou mesmo os prematuros morriam. O que se sabe é que nos últimos três meses de gestação, a mãe passa uma provisão de anticorpos para o bebê que o protegerá nos primeiros seis meses de vida. São anticorpos contra as doenças que ela já teve ou contra as quais foi vacinada (o sarampo, por exemplo). Depois eles perdem a validade e caberá ao bebê fabricar as próprias defesas. Esse é mais um dos motivos para as consultas de pré-natal da futura mamãe para se prevenir contra os riscos de ter o filho prematuramente. Os bebês prematuros são os mais vulneráveis a infecções, porque não contam com essa proteção imunológica adquirida ainda no útero.

M&S- O fato de mais famílias morarem em apartamentos e das crianças conviverem menos ao ar livre contribui para que desenvolvam mais problemas como alergias e rinites?
WEEC -
Na verdade o que contribui é a exposição a vírus, bactérias e agentes alergizantes. O sistema imunológico ou as defesas da criança amadurecem com o tempo e à medida que ela entra em contato com esses agentes. Tanto que é comum até os dois ou três anos que apresentem de sete a oito infecções anuais. Especialmente se frequentam desde cedo berçários e creches, onde a convivência com outras crianças e com os funcionários da instituição normalmente se encarrega de "socializar as viroses". Não é possível nem aconselhável manter o bebê numa redoma, evitando que pegue gripes e resfriados, porque são essas experiências que o ajudam a definir as suas defesas. Mas o ideal é moderar essa exposição, especialmente no primeiro ano de vida, para não sobrecarregar o organismo ainda inexperiente.

M&S - A alimentação influencia na imunidade?
WEEC -
A alimentação influencia na imunidade e não há nada melhor para o bebê do que o leite materno. Tanto que se recomenda que a criança seja alimentada exclusivamente até os seis meses de vida. Pois além de todos os nutrientes importantíssimos para o crescimento do bebê, o leite materno é fonte de várias substâncias que fortalecem as defesas dele. A começar pelo colostro, produzido nos primeiros dias. Uma das poderosas substâncias que ele contém é a imunoglobulina IgA, um anticorpo que se espalha pela mucosa intestinal formando uma barreira bioquímica que impede a penetração de bactérias. Outra substância vital é o oligossacáride, um açúcar que estimula a proliferação de uma flora intestinal também disposta a combater tais bactérias.

M&S - Neste sentido, a amamentação se torna muito importante?
WEEC
- Com essas substâncias, a criança amamentada fica mais protegida contra problemas, como a diarreia. Além disso, é fonte dos chamados fatores inespecíficos, substâncias que potencializam o desempenho dos glóbulos brancos (nossas células da defesa) e dos anticorpos produzidos pela criança. Em relação a frutas e legumes, efeito é indireto, mas igualmente importante. Assim como o corpo, para se fortalecer o sistema imunológico precisa de vitaminas e sais minerais. Eles ajudam a modular as reações químicas necessárias para a produção de anticorpos. Ou seja, se o organismo dispõe desses nutrientes nas quantidades ideais, consegue produzir uma resposta imunológica mais rápida. Uma alimentação rica em frutas e legumes, principais fontes de vitaminas e sais minerais, é suficiente para dar uma força extra às defesas da criança.

Como criar um ambiente favorável para o desenvolvimento da imunidade nas crianças
Algumas atitudes podem ser tomadas pelos pais para garantir um ambiente mais favorável ao desenvolvimento da imunidade das crianças. Conheça as dicas da médica pediatra Wania Cechin.
* Lavar as mãos antes de pegar o bebê e esterilizar chupetas, mamadeiras, copinhos e brinquedos que vão à boca são cuidados que evitam a superexposição de seu filho a bactérias e vírus. Da mesma forma, convém evitar que pessoas gripadas fiquem muito perto do bebê nos primeiros meses.

* Proporcionar para que a criança tenha um sono de qualidade também é importante. O que significa um ambiente tranquilo, sem barulho, com luz reduzida, pois se não dormimos direito, produzimos mais hormônios do estresse, que acabam prejudicando o desempenho das células de defesa do organismo. Também por que durante o sono fabricamos uma quantidade maior de substâncias que estão diretamente ligadas tanto à produção de anticorpos quanto ao desempenho dessas células.

* Certifique-se de que seu bebê durma o suficiente: de 16 a 20 horas por dia, no caso dos recém-nascidos; de 14 a 15 horas, incluindo as sonecas diurnas, para os bebês de seis meses a dois anos.

* Estar com a carteirinha de vacinas atualizadas de acordo com a idade da criança, pois esta é uma maneira passiva que o sistema imunológico produz os anticorpos para determinadas doenças. Dessa forma, quando a criança for exposta à bactéria ou ao vírus de verdade, seu organismo já terá como combatê-lo ou no mínimo amenizar os efeitos. A maioria das vacinas utilizadas nos calendários de imunização recomendados pelos médicos e pelo governo tem eficácia próxima a 100%. Para que seu filho se beneficie dessa proteção é fundamental vaciná-lo nas datas indicadas. O roteiro de prevenção começa com a vacina contra a hepatite B, cuja primeira dose deve ser dada ainda na maternidade. O mesmo vale para a BCG, que imuniza contra a tuberculose. O governo ampliou a vacinação para as crianças a partir de 2010. Mas para quem quer pagar um pouco mais para imunizar o filho em instituições particulares conta com vacinas que apresentam algumas vantagens como a de reunir num único produto a proteção contra várias doenças, as chamadas vacinas combinadas, e dessa forma diminuímos o número de injeções que a criança aplica.

Colaborou
Wania Eloisa Ebert Cechin, médica pediatra, coordenadora da Residência Médica de Pediatria do HSVP

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