O corpo fala

Campanha da Sociedade Brasileira de Dermatologia destaca que o câncer de pele pode ser prevenido com hábitos de fotoproteção

Por
· 7 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

Mais de quatro milhões de brasileiros já tiveram câncer da pele. O dado foi constatado na última pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) em parceria com a Data Folha e é, provavelmente, resultado de outro dado revelado pelo estudo: 63% dos brasileiros não usam protetor solar no seu dia a dia, ou seja, mais de 95 milhões de brasileiros estão hoje saindo no sol sem nenhum tipo de proteção.
Por causa desse descuido, a tendência é o número de casos de câncer de pele aumentar. A previsão do Instituto Nacional de Câncer (Inca) é de mais de 175 mil novos casos da doença em 2016, mantendo o câncer de pele como a neoplasia de maior incidência no Brasil – corresponde a 30% de todos os tumores malignos registrados - e em vários países do mundo. Mas com tanta informação sobre a importância de se proteger, por que os números da doença parecem só aumentar?
Para a oncologista e coordenadora médica do Centro de Oncologia do Hospital da Cidade de Passo Fundo, Júlia Pastorello, a resposta para essa pergunta está no fato de múltiplos fatores estarem relacionados ao desenvolvimento de neoplasias cutâneas, entre eles a mudança de hábito da população em relação à exposição solar, a valorização estética do bronzeamento da pele e, em especial, o aumento da exposição às várias formas de radiação ultravioleta (não apenas ao sol), associado aos fatores genéticos, ambientais e demais hábitos de vida.
Em função disso, pessoas com a pele clara, história familiar da doença e com exposição prolongada ao sol em áreas de maior altitude, em superfícies refletivas e horários inadequados, associada a queimaduras e danos a pele, principalmente na infância e adolescência, têm maiores chances de desenvolver câncer de pele.

De olho na pele

Estar atento aos sinais do corpo é o primeiro passo para identificar qualquer possível problema. A pele fala e é através do autoexame que você poderá ajudar no diagnóstico precoce de uma possível doença. “O autoexame é um método utilizado pelo próprio paciente para observar mudanças na sua pele. Deve ser realizado de forma sistemática e periódica em todas as regiões do corpo observando lesões na pele, mudanças de suas características, dificuldade de cicatrização e desenvolvimento de novos sintomas”, explica a oncologista.
Para facilitar a identificação e avaliação de lesões consideradas anormais na pele, os médicos desenvolveram a regra “ABCDE” para ajudar na memorização:
A – assimetria - um lado da mancha é diferente do lado oposto
B – bordas irregulares ou elevadas
C – coloração escura ou preta, mancha composta por várias cores
D - áreas maiores com diâmetro maior que 6mm
E - evolução mudança na cor, forma, crescimento rápido ou sintomas ao longo do tempo como dor, coceira e sangramento fácil.
De acordo com Júlia, devem procurar um médico pessoas com pele muito clara, já apresentando danos causados pelo sol, com doenças cutâneas prévias devem realizar acompanhamento médico periódico, juntamente com aquelas que encontram alterações no autoexame ou desenvolvem novos sintomas cutâneos.

Filtro solar: seu melhor amigo

Não é de hoje que médicos insistem na importância do uso do filtro solar. Segundo a oncologista, os filtros solares são compostos por substâncias que interferem na radiação solar incidente, reduzindo seus efeitos biológicos. “Seu mais imediato e evidente benefício é a prevenção da queimadura solar, auxiliando na prevenção do câncer cutâneo e outras doenças dermatológicas, além do envelhecimento precoce da pele”, ensina.
A recomendação da médica é escolher um produto com fator de proteção solar acima de 30, aplicado com uma cobertura uniforme com, no mínimo, 1 mm de espessura de toda pele exposta ao sol. “Uma estratégia proposta para atingir essa espessura adequada é a aplicação do fotoprotetor em duas camadas, feitas uma em seguida à outra, ou utilizar o equivalente, em média a duas colheres de chá do produto para cada um dos membros inferiores e demais segmentos do corpo”, recomenda Júlia.
Além disso, é preciso atentar para o intervalo entre a aplicação e a exposição, que deve ser de no mínimo 15 minutos. Já a reaplicação deve ser feita a cada duas horas ou após longos períodos de imersão.
A utilização de estruturas artificiais, como guarda-sol, por exemplo, que promovam sombra como forma de diminuir a exposição direta à radiação UV é simples e eficiente. Entretanto, Júlia destaca que não é recomendado considerá-la como a única estratégia de proteção. “A percepção de diminuição da temperatura não necessariamente significa proteção total contra a radiação solar. Isto se deve porque uma quantidade significativa de radiação se dispersa dentro da estrutura e pela sua lateral. São consideradas mais eficientes as estruturas maiores, compostas de tecido espesso e com coloração escura”, alerta.
Para quem busca proteção extra ainda existem opções de fotoproteção oral - existem evidências de que algumas substâncias, quando ingeridas, poderiam exercer uma ação preventiva contra os danos cutâneos induzidos pelo sol - e de fotoproteção mecânica realizada por coberturas artificiais e naturais, uso de roupas e acessórios.


Não é recomendada uma exposição solar prolongada, principalmente no período do dia
entre 10 horas da manhã e 15 horas da tarde. A depender da época do ano e da
localização da exposição, deve-se considerar um período ainda maior de restrição ao
sol.

BOX

Entrevista

Medicina&Saúde - O risco de desenvolver um câncer da pele aumenta com a idade? Há uma relação
genética?
Júlia Pastorello - A maioria das neoplasias de pele ocorre em pessoas mais maduras, justamente pelo
nível de exposição à radiação ultravioleta aumentar com o passar dos anos. A
interação entre os fatores genéticos e ambientais provavelmente explica a grande
variação na incidência de câncer de pele em diferentes grupos étnicos e regiões
geográficas.

Medicina&Saúde - Existem famílias com predisposição genética a doença?
Júlia Pastorello - Existem alguns casos familiares de desenvolvimento de determinados fenótipos cutâneos e neoplasias de pele. Aproximadamente 10% dessas neoplasias ocorrem em pessoas que possuem susceptibilidade genética.

Medicina&Saúde - Crianças podem ter câncer de pele?
Júlia Pastorello - O câncer de pele é relativamente raro em crianças, existindo alguns relatos descritos na literatura médica em crianças com mais de 10 anos de idade, com uma tendência de evolução desfavorável da doença.

Medicina&Saúde - Quais são os novos tratamentos contra o câncer de pele?
Júlia Pastorello - No câncer de pele o primeiro tratamento é a retirada completa da lesão através de procedimento cirúrgico simples. Para o carcinoma epidermóide e basocelular a retirada cirúrgica com margem adequadas e livres da doença já é considerado o tratamento ideal e definitivo.
O melanoma, uma doença que possui um potencial de disseminação para outros órgãos,
dependendo do seu tamanho e alguns outros fatores de maior agressividade pode exigir
tratamentos complementares com retirada dos linfonodos, radioterapia ou até mesmo
imunoterapia e quimioterapia em doenças mais avançadas.

Colaborou
Júlia Pastorello – oncologista e coordenadora médica do Centro de Oncologia do Hospital da Cidade de Passo Fundo

Dezembro laranja
Dezembro Laranja é uma campanha criada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) há três anos para conscientização sobre o câncer de pele. O slogan desse ano “O corpo fala – cuide da sua pele” alerta para os fotodanos gerados pela exposição desprotegida aos raios solares. Os fotodanos são os problemas na pele causados pelo sol menos graves que o câncer da pele. A exposição excessiva pode causar sardas, rugas, melasma, queimaduras e evoluir para o câncer da pele. O coordenador da Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Câncer da Pele da SBD, Emerson Lima, declarou que “o diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento. O Dezembro Laranja reforça a necessidade de atitudes fotoprotetoras de fácil execução no dia a dia do brasileiro, objetivando conter a alarmante ascensão da doença”. Em 2015, mais de 195 milhões de pessoas foram impactadas com as ações do Dezembro Laranja.

Radiografia do hábito de exposição solar do brasileiro*
- 106 milhões de brasileiros se expõem ao sol de forma intencional nas atividades de lazer
- 70% desses 106 milhões têm acima de 16 anos
- 63% dos brasileiros não usam protetor solar no seu dia a dia = + 95 milhões de brasileiros não se protegem de forma regular
- 6 milhões de brasileiros adultos (mais de 4% da população) não se protegem de forma alguma quando estão na praia, piscina, cachoeira, banho de rio ou lago
- 35% das crianças e adolescentes não se protegem de forma alguma nas atividades de lazer
- Dados do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) estimam que, em 2016, serão contabilizados cerca de 176 mil novos casos de câncer da pele não melanoma no Brasil.
- 94.910 mil desses novos casos são mulheres
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que, no ano 2030, existirão 27 milhões de casos novos de câncer, 17 milhões de mortes pela doença e 75 milhões de pessoas vivendo com câncer
*De 23 a 27 de agosto o Datafolha avaliou os hábitos de fotoproteção de 2069 lares brasileiros, em 130 municípios. Segundo o coordenador da Pesquisa e do Consenso de Fotoproteção da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Sérgio Schalka, “a pesquisa é importante para que possamos tomar iniciativas mais sólidas de prevenção ao câncer da pele. Ainda temos grande parcela da população que não se previne adequadamente, precisamos reverter este quadro”, afirma.

 

Gostou? Compartilhe