A rotina de quem está na linha de frente do combate ao coronavírus

Profissionais da saúde relatam os desafios e temores trazidos pelo constante aumento no número de casos da Covid-19

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· 6 min de leitura
Divulgação/ON

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Desde que a pandemia teve início, pelo menos 624 profissionais que atuam na rede de saúde de Passo Fundo precisaram ser temporariamente afastados por contaminação pelo novo coronavírus. Os dados, informados em banco estadual e contabilizados até o dia 30 de junho, apontam que 544 deles já estão recuperados. O número é uma parcela significativa do total de casos de Covid-19 registrados no município que, na última quinta-feira (9), chegou a 2.222. Já no Brasil, conforme o Ministério da Saúde, até junho, mais de 80 mil trabalhadores da saúde haviam testado positivo.

O afastamento de profissionais é apenas um dos desafios que o setor precisa enfrentar enquanto a taxa de contágio do novo coronavírus segue em crescimento no país. Conforme relata o enfermeiro e gestor da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), Clerverson Barbieri, a instituição precisou se preparar “para o pior” desde o mês de março, criando leitos de terapia intensiva exclusivos para o tratamento de pacientes vítimas da Covid-19. Além de precisar remanejar os profissionais que já integravam a equipe multidisciplinar, para que pudessem cobrir essas novas estruturas, ele conta que lidar com os casos de colegas infectados se tornou uma preocupação diária. “Eles acabam se contaminando e ficando afastados até se recuperar, então precisamos trabalhar com uma equipe reduzida e organizar o dimensionamento dos profissionais, sempre estudando como remanejar de um setor para o outro.  Mas trabalhar pensando se alguém será afastado, quem está retornando, já se tornou parte da rotina. O grande desafio, hoje, além do psicológico, é em relação ao número de leitos e a ocupação, que tem aumentado”, analisa.


Leitos

A alta na ocupação dos leitos destinados a pacientes diagnosticados com coronavírus, mencionada por Cleverson, pode ser observada nos boletins epidemiológicos divulgados diariamente pela Secretaria Municipal de Saúde. Até as 14h dessa quinta-feira, por exemplo, os hospitais de Passo Fundo registravam 93 hospitalizações causadas pela Covid-19, sendo 35 delas em UTI e 58 em leitos clínicos. “Parece estar havendo um auge de uns 15 dias para cá, principalmente um aumento significativo de pacientes intubados. No início, a maioria dos casos não chegava a precisar de intubação, eles tinham uma recuperação melhor”, avalia a enfermeira e gestora da UTI Cirúrgica do HSVP, Andressa Telles Borges. Ela é uma das profissionais que foi remanejada de setor após o início da pandemia. “A UTI em que eu trabalho é uma unidade para pacientes de pós-operatório. Como decaiu o movimento e também em razão do planejamento para a pandemia, se tornou uma UTI Covid”, explica.


Lidando com o desconhecido

Residente médica no Hospital de Clínicas (HC) de Passo Fundo, Barbara Magalhães, também teve que enfrentar um chacoalhão na rotina. Ela explica que, normalmente, na residência, os médicos recém-graduados executam estágios em diferentes especialidades clínicas. Com a chegada do Covid, no entanto, os estágios foram interrompidos. Agora, além de lidar com a novidade da profissão por si só, profissionais recém-inseridos no mercado de trabalho têm que lidar também com uma doença até então desconhecida. “Devido à Covid-19, eu estou atendendo pacientes hospitalizados na UTI Covid, junto com outros plantonistas. Temos uma rotina de plantão de 12 horas em que não existe mais aquela estrutura de residência já montada, com embasamento teórico prévio. É uma doença nova, com muitas características ainda desconhecidas. No Covid tudo é novo para todos nós, então é um desafio constante”, expõe.


Os desgastes emocionais da pandemia

Desde que a pandemia chegou ao país, as mudanças na rotina dos trabalhadores da saúde acontece no primeiro passo que eles dão, diariamente, dentro das instituições hospitalares. Ao chegar nestes locais, eles precisam dar início a protocolos de higiene e segurança, vestindo roupas especiais, máscaras, toucas, escudos faciais, entre outros equipamentos de proteção individual. “Eu chego, todos os dias, às 6h30. Depois que me troco, a primeira coisa que faço na passagem de plantão é perguntar se a unidade está cheia – o que vem acontecendo bastante. Eu tenho 10 leitos disponíveis na UTI e, hoje [quinta-feira], todos estão ocupados por pacientes que testaram positivo. Já sabíamos, desde março, que enfrentaríamos uma gravidade, mas nunca imaginamos que seriam os 10 leitos ocupados”, descreve a enfermeira Andressa Borges.

Mas para além da questão estrutural ou de protocolos, Andressa conta que a pandemia afeta principalmente o aspecto psicológico. “Nós já estávamos acostumados a atender pacientes graves, mas o Covid veio com uma força brutal muito grande. Não esperávamos resultados negativos de maneira tão rápida. No pós-operatório, tínhamos um tempo mais prolongado para tratamento. Hoje em dia não. É um abalo muito grande, um desgate espiritual. A gente se emociona muito com cada paciente que batalhamos para salvar, principalmente os mais jovens, que não estariam no grupo de risco. Sofremos com perdas, com ausência de profissionais, colegas afastados, empatia pelos familiares que precisam ficar longe. Acho que estamos tecnicamente preparados, mas não psicologicamente, apesar de termos um suporte psicológico da instituição”, relata.

Os profissionais compartilham que, além de o emocional ser abalado pelas mudanças na rotina de trabalho, outro fator que afeta diretamente são os protocolos de segurança. Para evitar a propagação do vírus, eles convivem diariamente com a dor de famílias que não podem velar seus parentes e, tampouco, receber um abraço da equipe hospitalar. A médica residente do HC, Barbara Magalhães, diz sentir no dia-a-dia o peso do distanciamento.  “Eles não conhecem o nosso rosto por trás da máscara. Os protocolos de segurança interferem no toque, na fala, em um acolhimento um pouco melhor. É uma relação bem diferente do que estávamos acostumados. E as famílias não podem acompanhar os pacientes, tudo depende do nosso contato, das nossas informações e, mesmo isso, para evitar a exposição, acaba sendo um contato reduzido”, conta. A médica resume a situação como um exercício de empatia diária – com os colegas enquanto equipe, com os pacientes e com os familiares.


“É muito triste ouvir seu filho chorar e não poder abraçar”

O contexto pandêmico deixa marcas na saúde dos próprios profissionais que estão na linha de frente do combate à pandemia. Uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM), realizada entre os dias 25 de junho e 2 de julho, com 1.984 médicos de todo o Brasil, revelou que sintomas comuns à Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional são corriqueiros em médicos que assistem a pessoas com Covid-19. Entre aqueles que responderam ao estudo, 69,2% dizem sofrer com ansiedade, 63,5% têm estresse, 49% declaram-se exaustos física ou emocionalmente e 50,2% se sentem sobrecarregados. Além disso, quase 90% dos médicos consultados acreditam que uma nova onda do vírus deve atingir o Brasil em breve.

Andressa Borges, que mora com o marido e o filho de um ano e nove meses, por exemplo, diz sentir diariamente o temor em ser contaminada durante o trabalho e acabar transmitindo o vírus para familiares. “No início era até pior, tínhamos muito medo de nos contaminarmos. Hoje está se tornando uma realidade habitual. O que afeta mesmo é o desgaste emocional. A demanda é muito grande, o corpo padece, cansa. Quando chego em casa, ainda tenho todo um ritual antes de entrar porque tenho medo de levar o vírus para casa”. Conforme descreve a enfermeira, ao chegar no prédio onde mora, ela liga para avisar o marido. Assim, ele pode se programar para ficar com o filho no quarto, antes que o bebê veja a mãe. “O nenê fica todo sentimental quando me vê, então evitamos isso. Primeiro, eu chego, tiro o calçado, vou para um banheiro que atualmente só eu uso (temos dois banheiros no apartamento), tiro minha roupa, tomo banho, meu marido pega minha roupa para colocar para lavar, em seguida higienizo todos meus pertences com álcool. Virou nosso novo normal”, relata.

Somente depois de todo esse ritual, segundo Andressa, ela se permite o contato físico com a família. E nem todos os momentos foram assim. Em março, a enfermeira contraiu uma amigdalite, que causou sintomas muito parecidos com o do coronavírus. Enquanto aguardava o resultado do teste, que deu negativo, ela precisou ficar afastada do trabalho e isolada da família durante seis dias. Um período que descreve como muito turbulento. “Foi horrível porque eu precisei me isolar no meu quarto. O meu nenê chorava muito, pedia bastante para me ver. É muito triste ouvir seu filho chorar e não poder abraçar, trocar a fralda, dar um banho” relembra. Tendo vivido o susto da suspeita, Andressa revela que sentiu na pele a forma psicológica como o coronavírus afeta os pacientes, indo além dos sintomas corporais. “Na minha cabeça, eu já estava com Covid. Eu falava para o meu marido que estava com uma dor que eu nunca tinha tido antes, mas era mais o meu psicológico tentando me afetar. Quando recebi o resultado negativo, a primeira coisa que fiz foi pegar meu nenê no colo”.

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