Insatisfação com o corpo X distúrbios alimentares

Atualmente a preocupação com a forma física já é um fator observado desde a infância

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Em uma sociedade onde o culto ao corpo e a perseguição incessante aos tidos como “ adequados e desejados” padrões de beleza tornaram-se obsessivos, é cada vez mais comum observar uma preocupação desmedida com a aparência física. Infinidade de dietas mágicas e receitas milagrosas ganham popularidade por oferecer uma promessa de emagrecimento rápido, sem precisar demandar esforço ou readequação de hábitos.

Em consequência a essa real situação, crianças tem começado a se preocupar com isso também de forma muito precoce. E se na infância essa insatisfação com a forma física já está presente, na adolescência é que o cuidado passa a ser redobrado, faixa etária onde comumente são desenvolvidos a maioria dos distúrbios alimentares.

Segundo estudo realizado por pesquisadores da Universidade College London, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e da Universidade Harvard, publicado em 2015 no periódico científico British Journal of Psychiatry, os dados sobre o assunto são realmente preocupantes: os resultados mostraram que, aos 8 anos, 5% das meninas e 3% dos meninos estavam insatisfeitos com a aparência de seu corpo. Já aos 14 anos, esse número subiu para 32% nas meninas e 16% nos meninos. Nessa mesma idade, 38,8% das meninas e 12,2% dos meninos tinham comportamentos relacionados a distúrbios alimentares, como fazer dietas exageradas, tomar laxantes ou comer compulsivamente.

Para esclarecer algumas questões sobre o tema, a professora do Curso de Psicologia da Imed, Dra. Naiana Dapieve Patias, que tem atuação nas áreas referentes à adolescência, fala um pouco sobre a insatisfação com a aparência e os distúrbios alimentares que surgem em decorrência do exagerado culto ao “corpo perfeito”.

Medicina&Saúde: Por que a insatisfação com a aparência se manifesta preferencialmente na adolescência?
Naiana Dapieve Patias: A insatisfação corporal refere-se a imagem negativa com o peso ou o formato corporal e está presente em várias etapas do desenvolvimento humano. No entanto, é mais comum ocorrer na adolescência devido as várias modificações corporais advindas da puberdade. Dentre as principais mudanças, o aumento da gordura corporal é uma das principais alterações observadas nos corpos adolescentes. Embora dependam de vários aspectos como a alimentação, por exemplo, tem-se observado que alguns adolescentes se mostram insatisfeitos com o corpo percebido, ou seja, com a imagem corporal. Esta insatisfação pode ocorrer tanto naqueles que amadurem de forma mais precoce quanto nos adolescentes com amadurecimento corporal mais tardio.

Medicina&Saúde: Como os adolescentes encaram essas mudanças? De que forma essa insatisfação com a aparência pode causar distúrbios alimentares em indivíduos na vida adulta?
NP: O conjunto de mudanças físicas acompanha as psicológicas que são influenciadas pelo contexto histórico, cultural e social no qual o adolescente está inserido.
Em nosso contexto social e cultural o corpo é extremamente valorizado. Mas não é qualquer corpo. É o corpo magro ou o corpo musculoso, malhado. Somado a isso, frequentemente, adolescentes sentem-se insatisfeitos com o próprio corpo que já não é o mesmo da infância, mas também não é adulto. De certa forma, a insatisfação é natural e faz parte do processo de luto pelo corpo infantil e pelas mudanças das quais é impossível ter controle. Por outro lado, alguns adolescentes possuem dificuldades em aceitar as mudanças corporais e podem tentar controlar as mudanças e essa insatisfação corporal, fazendo uso de diuréticos ou laxantes, da provocação de vômitos ou até mesmo de dietas que restringem, ao máximo, o consumo de alimentos. Estes aspectos estão associados aos Transtornos Alimentares que podem surgir na adolescência, como a anorexia e bulimia nervosa, que podem se estender a vida adulta.

Medicina&Saúde: Quais as demais consequências quanto à essa insatisfação?
NP: Estudiosos têm indicado uma tendência na diminuição da idade da puberdade. Esta tendência associa-se a um aceleramento etário das mudanças corporais que, por sua vez, têm-se relacionado com a insatisfação dos adolescentes com seu próprio corpo. Embora meninos e meninas possam estar insatisfeitos com o próprio corpo, geralmente, são as adolescentes que são mais afetadas pela insatisfação. De certa forma, as pressões sociais exercidas sobre o sexo feminino contribuem para essa insatisfação.

Medicina&Saúde: Existem maneiras de prevenir ou tratar o aparecimento de distúrbios relacionados à insatisfação com a aparência?
NP: O problema da insatisfação corporal não é apenas da adolescência, mas um fato social. Muitas pessoas odeiam seu corpo e buscam, incessantemente, uma maneira de melhorá-lo ou modifica-lo, seja através de dietas, da compulsão por exercícios ou até mesmo através de cirurgias plásticas. Portanto, o desenvolvimento de Transtornos Alimentares não se deve apenas às características individuais, mas também ambientais e sociais. Os veículos de informação podem, ao invés de contribuir com a tendência à insatisfação, permitir o acesso às possibilidades reais e não a um corpo ideal e único possível. Além disso, escola e família devem propiciar espaços de reflexão sobre o corpo e sobre saúde, por exemplo. Em casos mais graves, nos quais a insatisfação leva o adolescente à preocupação excessiva e ao uso de práticas não saudáveis, a ajuda de um profissional, como um psicólogo, é essencial.

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