A Neurose Obsessiva na Sociedade Atual

Por
· 4 min de leitura

Notamos que você gosta de ler nossas matérias.

Você já leu várias nas últimas horas, para continuar lendo gratuitamente, crie sua conta.

Ter uma Conta ON te da várias vantagens como:

  • Ler matérias sem limite;
  • Marcar matérias como lida;
  • Conteúdo inteligente.
Criar contaAcessar
Você prefere ouvir essa matéria?

Por Rossana Braghini - psicanalista

 

1 OBSESSIVO: modelo de subjetivação do século XIX
Imaginem o pequeno de seis anos de idade: cabelos cuidadosamente repartidos na lateral, bermudas, camisa e sapatos imaculadamente limpos; tema feito, lição de casa na ponta da língua e material escolar em ordem. Resumo: o querido da mamãe, professora, vovó e demais familiares. Quando se torna adulto, seja que profissão exerça, vai ter jeito de funcionário público bom mocista, que todos gostam e admiram. Este futuro pai de família foi, até meados do século passado, o ideal de subjetivação masculina. Era comum ser assim. Por isso, somente quando os conflitos passavam aos sintomas muito sérios, eram notados como tais. O que era gritante na época, o escândalo, vinha das histéricas que desafiavam o saber médico com seus sintomas corporais sem nenhuma causa orgânica, para melhor denunciar a surdez social em relação ao sexual. O que não podia ser dito, aparecia no corpo.
2. HISTERIA E PERVERSÃO: ideal de subjetivação da atualidade
Atualmente esta condição se inverte: as histéricas já não causam escândalo. Estão na crista da onda. No entanto, os obsessivos, sejam mulheres ou homens, neste cenário performático sentem-se um pouco fora de seu tempo, com sua delicadeza de sentimentos junto a suas maniazinhas e rituais de organização. É o bom mocismo fora de moda. As inibições ou restrições auto-impostas no tocante à vida sexual e social causam sofrimento e vergonha, principalmente se comparado à performance das histéricas e dos perversos que parecem ser o paradigma de subjetivação da atualidade.
3. O Obsessivo e a FALTA ESTRUTURAL
Filho predileto de sua mãe, não crê que seu pai foi tão prestigiado quanto gostaria. Logo, nos avatares de tornar-se sujeito, não atravessou todo o percurso como poderia. Como consequência, a falta estrutural que todos nós temos, gera-lhe uma constante angustia. Como forma de aplacar esta angústia, ele tenta ser perfeito o tempo inteiro. E, para o obsessivo, ser perfeito é não deixar nunca nenhum furo, preencher todos os espaços e resolver todos os problemas (os seus e o dos outros).
4.O Obsessivo no AMOR
No amor ele não é diferente. Tenta aplacar ao máximo o desejo de sua amada, para que nada lhe falte. Nas formas mais contundentes da neurose, tentará controlar o ser amado até o ponto de imobilizá-lo, engessá-lo, de forma que não o surpreenda com alguma demanda que ele não possa imediatamente satisfazer.
5. As CONEXÕES perdidas
O marco do obsessivo são as conexões perdidas entre o sujeito do inconsciente e o eu da razão. A “muralha” entre um e outro é tão espessa que tornou o diálogo impossível. E quando o diálogo é impossível sobrevém o sintoma. O sintoma para o obsessivo nada mais é que mandatos que ele deve obedecer. Que mandatos? Continuar sendo o bom menino e executar as ordens dadas, esquecendo todo o resto, e sobretudo, o seu desejo. O trabalho psicanalítico, quando bem sucedido, busca reconectar as conexões perdidas, reatando o diálogo entre o sujeito do inconsciente e o eu racional.
* Publicado na Revista Viver Saúde

 

1 OBSESSIVO: modelo de subjetivação do século XIXImaginem o pequeno de seis anos de idade: cabelos cuidadosamente repartidos na lateral, bermudas, camisa e sapatos imaculadamente limpos; tema feito, lição de casa na ponta da língua e material escolar em ordem. Resumo: o querido da mamãe, professora, vovó e demais familiares. Quando se torna adulto, seja que profissão exerça, vai ter jeito de funcionário público bom mocista, que todos gostam e admiram. Este futuro pai de família foi, até meados do século passado, o ideal de subjetivação masculina. Era comum ser assim. Por isso, somente quando os conflitos passavam aos sintomas muito sérios, eram notados como tais. O que era gritante na época, o escândalo, vinha das histéricas que desafiavam o saber médico com seus sintomas corporais sem nenhuma causa orgânica, para melhor denunciar a surdez social em relação ao sexual. O que não podia ser dito, aparecia no corpo.

2. HISTERIA E PERVERSÃO: ideal de subjetivação da atualidadeAtualmente esta condição se inverte: as histéricas já não causam escândalo. Estão na crista da onda. No entanto, os obsessivos, sejam mulheres ou homens, neste cenário performático sentem-se um pouco fora de seu tempo, com sua delicadeza de sentimentos junto a suas maniazinhas e rituais de organização. É o bom mocismo fora de moda. As inibições ou restrições auto-impostas no tocante à vida sexual e social causam sofrimento e vergonha, principalmente se comparado à performance das histéricas e dos perversos que parecem ser o paradigma de subjetivação da atualidade.

3. O Obsessivo e a FALTA ESTRUTURALFilho predileto de sua mãe, não crê que seu pai foi tão prestigiado quanto gostaria. Logo, nos avatares de tornar-se sujeito, não atravessou todo o percurso como poderia. Como consequência, a falta estrutural que todos nós temos, gera-lhe uma constante angustia. Como forma de aplacar esta angústia, ele tenta ser perfeito o tempo inteiro. E, para o obsessivo, ser perfeito é não deixar nunca nenhum furo, preencher todos os espaços e resolver todos os problemas (os seus e o dos outros).

4.O Obsessivo no AMORNo amor ele não é diferente. Tenta aplacar ao máximo o desejo de sua amada, para que nada lhe falte. Nas formas mais contundentes da neurose, tentará controlar o ser amado até o ponto de imobilizá-lo, engessá-lo, de forma que não o surpreenda com alguma demanda que ele não possa imediatamente satisfazer.

5. As CONEXÕES perdidasO marco do obsessivo são as conexões perdidas entre o sujeito do inconsciente e o eu da razão. A “muralha” entre um e outro é tão espessa que tornou o diálogo impossível. E quando o diálogo é impossível sobrevém o sintoma. O sintoma para o obsessivo nada mais é que mandatos que ele deve obedecer. Que mandatos? Continuar sendo o bom menino e executar as ordens dadas, esquecendo todo o resto, e sobretudo, o seu desejo. O trabalho psicanalítico, quando bem sucedido, busca reconectar as conexões perdidas, reatando o diálogo entre o sujeito do inconsciente e o eu racional.

* Publicado na Revista Viver Saúde

Gostou? Compartilhe