Carinho, atenção e cuidado humanizado

No Brasil, cerca de 340 mil bebês nascem prematuros todo o ano. Assistência pré-natal permite o diagnóstico e tratamento de complicações durante a gestação e a redução de fatores e comportamentos de risco

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Cercado de expectativas, o parto é, sem dúvidas, o momento mais aguardado por uma mulher quando está grávida. São meses de preparação para o que muitas consideram o dia mais feliz de suas vidas. No entanto, o nascimento cada vez maior de bebês prematuros tem preenchido de dúvidas e medos o momento mágico de muitas mães.

Todo ano nascem 15 milhões de bebês prematuros no mundo. No Brasil, são cerca de 340 mil nascimentos antes do previsto, o que coloca o país em 10º lugar no ranking de prematuridade. A maioria dos casos decorre de gestações na adolescência ou tardias, pré-natal deficitário e doenças maternas, de acordo com dados divulgados pela organização não governamental (ONG) prematuridade.com.

Segundo a ONG, o nascimento prematuro figura como a principal causa de mortalidade infantil até cinco anos de idade em todo o mundo. No Brasil, os números revelam que, a cada 30 segundos, um bebê morre em conseqüência do parto antecipado. Mais do que uma preocupação para os pais, o nascimento de um prematuro pode acarretar também sequelas de saúde para os bebês durante toda a sua vida como problemas visuais, auditivos, neurológicos, comportamentais, nutricionais, entre outros, por isso a importância de se estar bem informado.

Antes do tempo

“Um recém-nascido é considerado prematuro quando nasce com menos de 37 semanas de idade gestacional”, explica a médica pediatra do Hospital São Vicente de Paulo, Wania Ebert Cechin. Os prematuros podem ser classificados de acordo com a idade gestacional ao nascer, sendo o prematuro limítrofe aquele nascido entre 37 e 38 semanas; moderado nascido entre 31 e 36 semanas e prematuro extremo aquele nascido entre 24 e 30 semanas de idade gestacional.

De acordo com a médica, existem alguns fatores de risco para o parto prematuro que podem estar relacionados a doenças maternas, como a hipertensão e o diabetes, a infecções durante a gestação - infecção urinária, sífilis e outras – a idade de mãe e aos hábitos maternos, como consumo de álcool e drogas. Mas também existem fatores relacionados ao fato que podem ser desde infecções congênitas (toxoplasmose, Zika víirus, HIV) até mal-formações congênitas (mal-formações cardíacas ou síndromes cromossômicas, por exemplo). “Em muitos casos, mesmo com uma gestação tranquila, ocorre a amniorrexe prematura, isto é, a bolsa rompe sem que a mulher perceba e entra em trabalho de parto prematuro. Por isso uma adequada assistência pré-natal permite o diagnóstico e tratamento dessas inúmeras complicações durante a gestação e a redução desses fatores e comportamentos de risco para muitas vezes evitar o parto prematuro”, explica Wania.

Características do prematuro:

- Geralmente tem baixo peso ao nascer

- Pele fina, brilhante e rosada

- Veias visíveis

- Pouca gordura sob a pele

- Pouco cabelo

- Orelhas finas e moles

- Cabeça desproporcionalmente maior do que o corpo

- Musculatura fraca e pouca atividade corporal

- Poucos reflexos de sucção e deglutição (sugar e deglutir)


Cuidado humanizado

Receber a notícia de que não poderá levar o bebê para casa é talvez o momento mais difícil, mas quanto mais próximo à família o prematuro estiver durante a internação hospitalar, melhor. “O envolvimento e o contato com os pais durante a internação hospitalar de um bebe prematuro é fundamental no seu processo de recuperação”, destaca a médica.
Ainda de acordo com Wania, sabe-se que bebês prematuros se beneficiam significativamente no seu desenvolvimento físico, psicológico, motor e social com um contato humano estimulante (voz, toque agradável, massagem) e personalizado por um adulto com quem possam continuar a estabelecer uma relação única, preferencialmente os pais. “Neste contexto considera-se muito importante os pais serem envolvidos no dia-a-dia do seu filho, que, na situação dos prematuros, se inicia na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal”, comenta.
O hospital também tem papel importante na hora de oferecer um cuidado mais humanizado. “O recém nascido, em Unidade Neonatal, causa um verdadeiro impacto para pais e familiares, pois em sua grande maioria eles estão com sondas, tubos e monitorizações, seja para um tratamento ou para uma maturação em seu desenvolvimento”, esclarece a médica. É por isso que o cuidado humanizado é um dos destaques quando se fala em tratamento de prematuros.
O primeiro passo para esse tratamento humanizado é dado, segundo a médica, com o livre a mãe junto à criança, favorecendo o aleitamento materno. A visita programada de familiares e o fornecimento de informações da evolução dos bebês pela equipe médica, no mínimo uma vez ao dia, também fazem parte desse processo.
Somado a isso, Wania ainda destaca outros métodos desenvolvidos no HSVP que contribuem para a recuperação dos prematuros. “O cuidado humanizado com os recém-nascidos vem sendo desenvolvido com o método canguru, no qual é feito o contato pele a pele com os pais durante horas do dia. Ainda temos o banho relaxante de ofurô na presença dos pais, a técnica do casulo dentro das incubadoras para facilitar a organização espacial desses bebês e ainda a técnica de redução da dor durante procedimentos de coleta de exames ou punções”, conta. Mais recentemente, ela lembra, foi incluída na rotina do CTI Neonatal do HSVP a hora do soninho, ou seja, minutos do dia onde se diminuem os ruídos e protegem os olhos da iluminação para proporcionar um relaxamento aos bebês.
Vale lembrar, no entanto, que os cuidados não se encerram com a alta do hospital. “Quanto menor a idade gestacional e o peso, e quanto maior o tempo de permanência na UTI neonatal, provavelmente mais profissionais estarão envolvidos no cuidado pós-alta”, destaca a pediatra. Segundo ela, normalmente o bebê deve ser acompanhado por uma equipe multiprofissional, que pode incluir, conforme orientação do pediatra, fisioterapeuta, neurologista, oftalmologista, fonoaudiólogo, nutricionista, enfermeira e assistência social, pelo menos até os dois anos de idade corrigida.

Quais são os principais cuidados que se deve ter com o bebê após a alta?

Na alta hospitalar de um bebe prematuro muitos cuidados devem ser tomados e mantidos, porem convém lembrar que quando os médicos liberam o bebê, ele já está pronto para uma vida normal, a menos que existam sequelas graves. Mesmo assim, a médica listou alguns cuidados básicos que se deve ter principalmente nos primeiros dias do bebê em casa:

- O RN deverá ser transportado para casa no bebe conforto e de forma segura
- A casa deve estar limpa e sempre bem arejada
- Não e permitido fumar dentro de casa
- As visitas devem ser limitadas e os visitantes devem lavar as mãos ao tocar no bebê
- Pais e cuidadores devem estar vacinados com a vacina da gripe e da coqueluche
- Os pais devem seguir todas as recomendações dadas pelos profissionais antes da alta
- O bebê deve continuar recebendo as vitaminas e os medicamentos conforme a orientação medica
- Na hora de dormir, deixar o bebê de barriga para cima, dormindo no seu próprio berço
- O aleitamento materno deve ser mantido e na impossibilidade de sucção do bebê prematuro o mesmo deve ser ordenhado para ser oferecido.
- O bebê deverá ficar 15 a 20 minutos no colo em pé para arrotar apos as mamadas
- Caso o bebê se engasgue após uma mamada, virar o bebê para o lado ou de barriga para baixo e limpar as secreções da boca e do nariz
- Diariamente as secreções nasais devem ser cuidadosamente limpas e removidas.
- O bebê só poderá sair para passear ao ar livre quando atingir 2,5 Kg e o clima permitir. Também deverá evitar lugares com aglomerações (shoppings, supermercados, igrejas, festas de aniversario) antes de realizar as primeiras vacinas.
- Deverá ser agendada uma consulta medica com pediatra em 7 a 10 dias após a alta.

Mitos e verdades sobre prematuros

Mitos
1- Todo prematuro é igual
2- O prematuro não pode ser amamentado ao seio
3- A mãe não pode segurar um prematuro no colo
4- Todo o prematuro terá sequelas
5- Bebês prematuros não podem fazer exames
6- O bebê prematuro precisa viver numa “redoma de vidro”

Verdades
1- Os órgãos do prematuro ainda não estão prontos
2- Quanto mais prematuro mais tempo de internação hospitalar
3- Quanto menos aparelhos conectados melhor ele estará
4- O bebê prematuro é mais vulnerável para adquirir doenças
5- Os bebês prematuros têm um crescimento e desenvolvimento diferente dos bebes a termo
6- Os cuidados médicos devem ser diferenciados

Colaborou

Wania Ebert Cechin – pediatra do Hospital São Vicente de Paulo

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