Intolerância permanente ao glúten

Conheça a Doença celíaca

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· 6 min de leitura

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A doença celíaca é autoimune, sendo causada pela intolerância permanente ao glúten, principal fração proteica presente no trigo, no centeio, na cevada e na aveia, e se expressa por enteropatia mediada por linfócitos T em indivíduos geneticamente predispostos, segundo definição do Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde.

A falta de informação sobre a doença e a dificuldade para o diagnóstico prejudicam a adesão ao tratamento e limitam as possibilidades de melhora do quadro clínico. Pesquisas revelam que a doença atinge pessoas de todas as idades, mas compromete principalmente crianças de seis meses a cinco anos de idade e também observada frequência maior em pacientes do sexo feminino, na proporção de duas mulheres para cada homem.

Para entender o que é esta doença, o Medicina e Saúde conversou com médico Fernando Fornari, especialista na área. Confira a entrevista.

Medicina & Saúde – O que é doença celíaca?

Fernando Fornari – A doença celíaca é uma condição auto-imune na qual a pessoa acometida desenvolve uma inflamação na mucosa do intestino delgado, provocada pelo glúten da dieta. O glúten é uma proteína encontrada no trigo, na aveia, no centeio e na cevada, presentes em boa parte dos alimentos da nossa dieta, especialmente em pães e massas. A inflamação resultante do contato entre o glúten e a mucosa intestinal pode resultar em destruição das vilosidades do intestino, que são estruturas importantes para a absorção de alimentos. Estas alterações podem acometer desde uma pequena parte do intestino delgado até toda sua extensão, ocasionando desde sintomas inespecíficos como desconforto abdominal e anemia, até manifestações graves, incluindo diarréia crônica e desnutrição.

 M&S – Ela se manifesta na infância ou pode ser na idade adulta?

FF – A doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade. Na prática, a doença pode ser diagnosticada em crianças (já a partir do desmame), adolescentes e adultos. No entanto, um início após os 60 anos de idade é incomum. Em adultos, parece ocorrer mais em mulheres do que em homens. Em geral, a doença celíaca afeta 1% da população, especialmente aquela com descendência européia.

M&S – Quais os sintomas?

FF – As manifestações clínicas, incluindo sintomas e sinais, vão depender da idade em que a doença se apresenta. Em crianças, as manifestações mais comuns compreendem diarréia crônica, distensão abdominal e dificuldade de crescimento. Elas podem apresentar também vômitos, irritabildade, falta de apetite e até constipação intestinal. Crianças maiores e adolescentes com frequência apresentam baixa estatura, anemia e sintomas neurológicos, especialmente quando o diagnóstico não é feito precocemente. Em adultos, a apresentação clássica da doença celíaca cursa com diarréia crônica, dor abdominal e, por vezes, perda de peso. Contudo, mais da metade dos adultos com doença celíaca podem apresentar somente manifestações atípicas, como anemia por deficiência de ferro, e osteoporose. A doença pode acometer pessoas obesas, ou ser diagnosticada incidentalmente durante exame de endoscopia digestiva alta, indicada para investigação de sintomas sugestivos de problemas gástricos. Aliás, é importante ressaltar como é feito o diagnóstico da doença celíaca. Em adultos, a identificação da doença celíaca passa por uma avaliação clínica adequada, além de análise pelo microscópio de biópsia duodenal, obtida durante endoscopia. A confirmação da doença faz-se quando da resolução dos sintomas após a retirada do glúten da dieta. Em crianças, o diagnóstico pode ser assumido quando ocorre melhora substancial dos sintomas após retirada do glúten da dieta, não sendo obrigatória a realização de endoscopia e biópsia. Estes exames em crinças são reservados para casos especiais. Há também a possibilidade de investigar a doença celíaca através de exames de sangue, particularmente em casos de difícil diagnóstico, ou no acompanhamento da resposta a retirada do glúten da alimentação.

M&S - Existe tratamento? Qual o papel da dieta nessas situações?

FF – O tratamento é a dieta sem glúten. Como dito, o glúten é encontrado no trigo, aveia, centeio e cevada. Portanto, estes alimentos devem ser evitados de forma definitiva e permanente, pois é sabido que a doença não tem cura, mas sim controle. Na prática, a dieta sem glúten é relativamente difícil de ser realizada, devido à proibição do consumo de alimentos comuns à nossa dieta, à base de farinhas, como pães e massas. Assim, além da assistência oferecida pelo médico clínico geral, gastroenterologista ou pediatra, é fundamental que o paciente seja acompanhado por um nutricionista. Este profissional fará orientação quanto aos alimentos mais adequados para o consumo, bem como cuidados quanto ao seu preparo.

M&S – Existem alimentos totalmente proibidos para quem tem a doença?

FF – Sim. São os alimentos que contém o glúten. No entanto, isto não significa que um paciente com doença celíaca não possa mais comer pães e massas. Há diversas farinhas substitutas, que podem ser utilizadas para o preparo de alimentos. Há também produtos preparados industrialmente sem a presença do glúten. Vale procurar nos supermercados e casas especializadas.

M&S – Há cura?

FF – A doença celíaca é uma condição crônica, que pode ser controlada satisfatoriamente desde que o paciente fique longe do glúten. É necessário também acompanhamento médico e nutricional permanentes, pois há casos de complicações após anos de doença, especialmente em pacientes que não conseguem se adaptar a dieta sem o glúten. Mesmo assim, é importante salientar que há esforços na área da pesquisa para descobrir novos tratamentos, capazes de no futuro controlar a doença sem a necessidade de retirar o glúten da dieta.

Colaborou

Fernando Fornari, graduado médico pela Faculdade de Medicina da UPF, especialização em gastroenterologia pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre, mestrado, doutorado e pós-doutorado em gastroenterologia e professor da Faculdade de Medicina da UPF

 Forma clássica ou típica

Caracteriza-se pela presença de diarreia crônica, em geral acompanhada de distensão abdominal e perda de peso. Os pacientes também podem apresentar diminuição do tecido celular subcutâneo, atrofia da musculatura glútea, falta de apetite, alteração de humor (irritabilidade ou apatia), vômitos e anemia. Esta forma clínica pode ter evolução grave, conhecida como crise celíaca, que ocorre quando há retardo no diagnóstico e na instituição de tratamento adequado, particularmente entre o primeiro e o segundo anos de vida, sendo frequentemente desencadeada por infecção. Esta complicação potencialmente fatal se caracteriza pela presença de diarreia com desidratação hipotônica grave, distensão abdominal por hipopotassemia e desnutrição grave, além de outras manifestações, como hemorragia e tetania.

Forma não clássica ou atípica

Caracteriza-se por quadro mono ou oligossintomático, em que as manifestações digestivas estão ausentes ou, quando presentes, ocupam um segundo plano. Os pacientes podem apresentar manifestações isoladas, como, por exemplo, baixa estatura, anemia por deficiência de ferro refratária à reposição de ferro por via oral, anemia por deficiência de folato e vitamina B12 , osteoporose, hipoplasia do esmalte dentário, artralgias ou artrites, constipação intestinal refratária ao tratamento, atraso puberal, irregularidade do ciclo menstrual, esterilidade, abortos de repetição, ataxia, epilepsia (isolada ou associada à calcificação cerebral), neuropatia periférica, miopatia, manifestações psiquiátricas (depressão, autismo, esquizofrenia), úlcera aftosa recorrente, elevação das enzimas hepáticas sem causa aparente, adinamia, perda de peso sem causa aparente, edema de surgimento abrupto após infecção ou cirurgia e dispepsia não ulcerosa.

Forma assintomática ou silenciosa

Caracteriza-se por alterações sorológicas e histológicas da mucosa do intestino delgado compatíveis com doença celíaca e ausência de manifestações clínicas. Esta situação pode ser comprovada especialmente entre grupos de risco para a doença como, por exemplo, parentes em primeiro grau de pacientes celíacos, e vem sendo reconhecida com maior frequência nas últimas duas décadas, após o desenvolvimento dos marcadores sorológicos para a doença.

 (Fonte:Ministério da Saúde)

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