Pandemia zera doações de órgãos no HSVP

Espera para a coleta e resultado da Covid-19 inviabilizava o processo

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Mais de 1,7 mil pessoas estão na fila para um transplante no estado (Foto: Robina Weermeijer/Unsplash)Mais de 1,7 mil pessoas estão na fila para um transplante no estado (Foto: Robina Weermeijer/Unsplash)
Mais de 1,7 mil pessoas estão na fila para um transplante no estado (Foto: Robina Weermeijer/Unsplash)

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A doação de órgãos depende de muitos fatores, um dos principais é a autorização familiar. Entretanto, este ano, um outro obstáculo vem tornando a espera de quem necessita de um órgão ainda mais difícil. 

A pandemia imposta pelo novo coronavírus fez com que as doações caíssem para zero no maior hospital da região de Passo Fundo. Entre abril e agosto o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) não efetivou nenhuma doação.

Essa queda está diretamente relacionada com a necessidade do doador ter de testar negativo para a Covid-19 e o com o tempo da testagem. “Até realizar a coleta e ter o resultado, fica muito difícil fazer a doação de órgãos”, explica o coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO4-RS) do HSVP, o neurocirurgião Cassiano Crusius. Com a demora para o resultado, o doador não resiste e a doação não acontece. “A gente fez protocolos, o diagnóstico, mas não teve nenhuma doação efetiva a partir da pandemia”, destaca Cassiano.

O protocolo mencionado pelo médico é o diagnóstico de morte cerebral (ou morte encefálica). Após a morte cerebral, o coração permanece batendo por um determinado tempo. Este é o período em que os órgãos podem ser utilizados para transplante. Entre abril e agosto, foram 26 diagnósticos de morte cerebral no hospital. “Tem o diagnóstico de morte cerebral e podem ser doadores, mas não foram pela negativa familiar e, na pandemia, pela impossibilidade do teste Covid”, explica o médico. 

A situação, no entanto, está sendo normalizada devido a possibilidade de realizar os testes do coronavírus em Passo Fundo, o que ocorre há cerca de 15 dias, de acordo com o médico. “Faz o protocolo, atesta a morte cerebral e, se a família concordar, faz a coleta do exame para Covid. Caso esteja negativo, faz a coleta do órgãos”, explicou o médico. Em setembro já foi realizada uma doação de órgãos no hospital.

Infografia: Bruna Scheifler/ON

Lista de Espera

Três anos atrás, enquanto estava grávida, a moradora de Marau Edivane Padilha, de 28 anos, foi diagnosticada com ascite, um inchaço abdominal causado pelo acúmulo de líquidos. Edivane seguiu fazendo acompanhamento médico, mas perdeu o bebê no final da gestação. “Não se sabe se teve ligação com o fígado”, explica a jovem. 

Um mês depois, ela foi diagnosticada com doença crônica no fígado. A doença evoluiu e hoje ela tem cirrose, provocando a redução do órgão. A causa do problema, no entanto, não foi descoberta. Ela relata que nunca teve hepatite e que além de ser muito jovem para ter cirrose, nunca foi de ingerir muita bebida alcóolica. 

Em junho de 2018 ela entrou na fila para um transplante. “É uma ansiedade, a gente sempre está ansioso, cuidando o telefone, achando que alguém vai ligar, mas é bem demorado”, conta Edivane. Enquanto isso, a doença evolui. “Tem meses que eu estou bem, tem meses que não”. Após entrar para a fila, ela foi afastada do trabalho. Hoje, a cada três meses ela faz exame de sangue e toma remédio controlado. Entre os sintomas da doença estão olhos cada vez mais amarelados, o cansaço, vômitos, coceiras e feridas pelo corpo. A expectativa agora é para receber o fígado novo. “Voltar a rotina normal e conseguir engravidar novamente, depois de dois anos, tentar de novo”, relata Edivane.

No Rio Grande do Sul, mais de 1,7 mil pessoas estão na lista de espera para um transplante, entre receptores ativos e semi-ativos, isto é, entre pacientes que estão concorrendo ao órgão e pacientes que foram suspensos por condições clínicas ou exames incompletos.

Negativa Familiar

Em 2020 no Rio Grande do Sul, a negativa familiar é a maior causa para a não doação de órgãos após morte cerebral. Dos 253 casos de não efetivação da doação, 91 tiveram como causa o “não” da família, de acordo com dados preliminares de janeiro a agosto da Central Estadual de Transplantes.


“Se pensa que talvez a morte cerebral seja reversível e não é. Morte cerebral é irreversível"


O desconhecimento e a desinformação sobre a morte cerebral e o transplante são apontados pelo médico Cassiano como principal causa para a negativa. “Se pensa que talvez a morte cerebral seja reversível e não é. Morte cerebral é irreversível. É difícil aceitar”, enfatiza o médico sobre a situação das famílias e destacando a importância da informação.

Renascimento

Em Passo Fundo, o aposentado Jorge dos Santos, de 62 anos, se tornou um ativista da doação de órgãos após passar por um transplante de fígado há 11 anos devido a Hepatite C. “Me deu uma segunda chance de viver, o transplante significa vida, uma vida renascida, um retorno para a sociedade, principalmente para a família”, conta Jorge. Ele lembra que o processo até a doação causa bastante sofrimento. “No final a gente pensa tanta coisa, passa tanta coisa pela cabeça, conviver com o medo da morte, a angústia, o sofrimento, a gente conta os dias, conta as horas”, relata Jorge. 

Por meio do projeto Renascidos ele busca conscientizar e agradecer ao seu doador e a família que autorizou a doação. “O primeiro passo é conversar com a família. Eles têm que estar cientes de que o desejo é de doar órgãos, eles que vão autorizar”, ressalta Jorge. Também considera que o assunto é pouco debatido entre as famílias. “Tem que ser uma conversa de amor, respeito, confiança”, diz o aposentado. No Brasil, a doação ocorre após autorização dos familiares, não havendo a necessidade de deixar o desejo documentado.


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