HSVP: Os 20 anos de transplante de fígado em Passo Fundo

Em 2000, a equipe do médico Paulo Reichert realizou o primeiro procedimento no interior do RS

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Paulo Richert foi o pioneiro no procedimento Paulo Richert foi o pioneiro no procedimento
Paulo Richert foi o pioneiro no procedimento

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Não parece, mas há 20 anos entrávamos no século XXI. Nessa mesma época, a saúde de Passo Fundo vivenciava um marco, que até hoje mostra porque a cidade é polo em saúde. Foi nos anos 2000 que a Equipe de Transplante Hepático do Hospital São Vicente de Paulo de Passo Fundo, liderado pelo Dr. Paulo Reichert, realizou o primeiro transplante de fígado, do interior do Rio Grande do Sul. De lá para cá, a equipe já possibilitou novas chances de vida há 277 pacientes. Muitos anos com desafios, aprendizados, tristezas e inúmeras alegrias e histórias.


Da especialização ao credenciamento

Com a lista de pacientes em fila de espera para o transplante de fígado sempre no bolso, Reichert relembra a trajetória e cita facilmente o nome dos pacientes que passaram pela equipe. “Iniciamos a preparação, treinamentos e busca por documentação anos antes do primeiro transplante. Morei no exterior, me especializei, passei a explicar e levar à comunidade e autoridades informações do que era o transplante de fígado e depois, em conjunto com políticos, Conselho Municipal de Saúde e diretoria do Hospital fomos em busca do credenciamento, que só chegou mesmo em meados de julho de 2000. Começamos a listar os pacientes, foi um trabalho muito duro, lembro que nos últimos dois anos de planejamento, a equipe quinzenalmente fazia dezenas de transplantes em suínos, na Universidade de Passo Fundo, de aproximadamente trinta quilos para aprimorar a anestesista, enfermeiros e equipe envolvida”, relata o cirurgião.


Bons resultados e referência 

Após o credenciamento e a equipe preparada, Reichert conta que Dona Marina foi a primeira transplantada, que infelizmente, faleceu por complicações não ligadas ao transplante. “Fomos para o segundo transplante pressionados, o paciente também estava em uma situação de saúde crítica e felizmente tivemos um bom resultado, seu Geomocy que viveu até pouco tempo atrás”. Com o passar dos anos a equipe tornou-se referência, participando de estudos nacionais e internacionais e tendo resultados em transplantes superiores à média nacional. “Foram fundamentais nessa caminhada tantos médicos, cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, técnicos e toda a equipe que tem minha gratidão. Estamos com a mesma equipe há mais de dez anos, com a Dra. Lisia Hoppe que faz todo o acompanhamento dos pacientes, o Martin enfermeiro que sempre nos acompanhou e só tenho a agradecer a todos”.


Trajetória e emoção

Martin Moura, enfermeiro, se aposentou na metade de 2020. Ele atuou nos 20 anos do transplante hepático e assim como Dr. Reichert se emociona ao lembrar-se desta trajetória. “É uma alegria, uma grande satisfação ter participado dessa equipe e na formação da equipe para transplante hepático. Lembro-me que a gente participava em todos os atos, desde da admissão do paciente. Eram pacientes extremamente graves que a única solução para eles continuar vivendo seria o transplante. Na época nós tínhamos pacientes em que corríamos contra o tempo. Dr. Paulo dizia, ‘Martin se nós não transplantamos em três dias esse paciente, ele vai a óbito’. E então o órgão aparecia a tempo e conseguíamos transplantar. Era sempre muito emocionante”, relembra Martin.


Adversidades superadas

Reichert conta que ao longo desses 20 anos sempre foi necessário muita dedicação e voluntarismo, visto que o transplante é um trabalho árduo. Ele relata que muitas vezes são acordados de madrugada, pois os transplantes não têm dia e nem horário marcados para acontecer. “Para nós são 30 anos entre preparação e atuação. No início íamos até a cidade para retirar o doador, dirigíamos de volta e fazíamos o transplante. Eu dirigia, ou o Martín, algum residente, passávamos por alguns riscos, mas felizmente nunca tivemos problemas ou acidentes. Hoje já temos uma equipes para retirar e outra para transplantar, melhores estradas e esperamos melhores condições do aeroporto”, evidencia o cirurgião.


Trabalho de formiguinha

Martin complementa falando do trabalho para informar e conscientizar as pessoas sobre a importância da doação e transplantes. “Foi um trabalho de formiguinha, a gente começou a conscientizar e quebrar aquele tabu da doação de órgãos que, até então, as pessoas não sabiam como que era doação de órgão. Trabalhamos em toda a região, com palestras, nós fomos aos hospitais, nas escolas mostrar para os alunos, para as crianças o que era doação de órgãos, qual o benefício que isso levava para as pessoas, que todos nós poderíamos vir a precisar de um do órgão. Então foi quebrando esse tabu das pessoas, foi sendo esclarecido como que funcionava a doação de órgãos e os transplantes”. Os profissionais enfatizam também a compreensão da família nestes 20 anos, já que, muitas vezes eles precisaram se ausentar de casa, para atender o “chamado” dos transplantes.



Doadores que possibilitam o transplante

Para que o transplante se concretize é preciso que haja um sim de uma família para a doação de órgãos. Reichert agradece com carinho, às famílias que nestes anos possibilitaram novas chances de vida. “É da doação que dependem milhares de pessoas no Brasil que esperam por um transplante, então nossa gratidão a quem diz sim para esse gesto. Conto uma historinha, do penúltimo transplantado que antes da alta, me perguntou, ‘mas Paulo já me disse que eu não posso saber da família que doou e que pela lei não pode haver contato, né? Mas eu quero saber se era homem ou mulher? ‘. Então respondi, anjo não tem sexo”.


Os 20 anos de uma nova chance


Guiomar de Conto, 78 anos e Volmecir Fagundes, 69 anos, ambos de Passo Fundo, foram transplantados no ano 2000. Vinte anos depois, eles agradecem a equipe e a família doadora pela nova chance de vida. “Após o transplante fiquei bem, não tive mais problemas de saúde. Hoje estou aqui para agradecer ao Dr. Paulo, Dra. Lisia e toda equipe que me acompanha nesses anos”, relata Guiomar. “Quero deixar minha homenagem e agradecimento à equipe de transplante do Hospital São Vicente. Graças ao transplante levo uma vida normal e agradeço muito a família que fez a doação”, afirma Volmecir.


A gratidão na felicidade dos pacientes transplantados

Nos 20 anos, foram realizados 277 transplantes. Muitos pacientes seguem vivos e com qualidade de vida. “Transplantamos pacientes de todas as idades, jovens, idosos, crianças. Tivemos a felicidade de transplantadas que tiveram filhos e de crianças que estão bem hoje. A felicidade desses pacientes, de vê-los bem é imensa. É claro que também temos cicatrizes, dos pacientes que perdemos, dos que não receberam o órgão a tempo. Vivemos o extremo de emoções, a perda, a ansiedade da espera e muitas vezes, a felicidade do transplante e a saúde do paciente”, destaca Reichert. “Ver aquele paciente, aquele ser humano que não tinha mais uma opção de viver, que a única opção seria o transplante, realizar esse transplante e depois acompanhar o restabelecimento desse paciente, isso não tem coisa mais gratificante para nós. Ver eles com uma vida normal, conquistando e realizando seus sonhos. Isso a gente vai levar para a vida inteira”, conta Martín emocionado, lembrando também os momentos difíceis. “Cortava o coração quando fazíamos uma reunião antes do transplante, com a família e com o próprio paciente, para explicar para ele sobre o transplante e vários pacientes diziam ‘ enfermeiro, doutor, eu preciso viver, eu tenho meus filhos para criar’, isso quando eu falo hoje, me emociona muito”. 


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