Estudo propõe aplicação de vacina sem o uso de agulha

Pesquisa apresenta uma prova de conceito de um novo método de imunização sem agulha capaz de reduzir e até eliminar a colonização de patógenos causadores de doenças

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Ilustração das micropartículas desenvolvidas. A) Micrografia eletrônica de varredura. B) Estudo confocal da micropartículaIlustração das micropartículas desenvolvidas. A) Micrografia eletrônica de varredura. B) Estudo confocal da micropartícula
Ilustração das micropartículas desenvolvidas. A) Micrografia eletrônica de varredura. B) Estudo confocal da micropartícula
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A ciência e a tecnologia andam lado a lado. Além de buscar novos processos, soluções e resolver problemas, os pesquisadores também atuam para oferecer à sociedade a inovação, oportunizando a evolução de métodos historicamente utilizados. Acompanhando a necessidade e o dinamismo da atualidade, o professor Rafael Frandoloso, docente dos cursos de Medicina Veterinária e Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF), em parceria com pesquisadores da Cumming School of Medicine, University of Calgary, do Canadá e da AFK Imunotech, empresa de Passo Fundo, publicou a pesquisa “Prova de conceito de uma vacina de micropartículaadministrada pela via oral sem agulha capaz de prevenir a colonização natural”.

 Frandoloso ressalta que a indústria farmacêutica está trabalhando para tornar o processo de imunização mais seguro, e um dos caminhos, é eliminar as agulhas dos procedimentos de vacinação. “Nesse sentido, em nosso trabalho demonstramos que tanto a via intradérmica (pele) como a mucosa oral são excelentes locais para induzir respostas imunológicas efetoras. No entanto, a mucosa oral é altamente tolerogênica, e por tanto, a formulação vacinal precisa ser pró-inflamatória para burlar a tolerância aos antígenos (alimentares e derivados de microrganismos) que normalmente entram em contato com essa mucosa”, ressalta.

Segundo ele, muitas infecções bacterianas importantes se desenvolvem após a colonização inicial do trato respiratório superior do hospedeiro, e a prevenção da colonização poderia não apenas prevenir a doença, mas também eliminar o reservatório de patógenos que residem exclusivamente naquele nicho ecológico; e consequentemente, impedir a sua transmissão. “Esse é o caminho para a erradicação de patógenos causadores de doenças”, explica.

Com esse problema em mãos, o estudo foi desenhado para fornecer uma prova de conceito de um novo método de imunização sem agulha, capaz de controlar ou eliminar a colonização bacteriana e prevenir, consequentemente, uma importante doença de interesse veterinário. 

 Para conseguir isso, uma formulação vacinal baseada em micropartículas inteligentes foi desenvolvida e administrada logo abaixo da camada de células epiteliais da mucosa oral, onde levaria a uma resposta imune robusta. Essa mesma formulação, foi aplicada na derme (uma camada da pele onde residem tipos específicos de células dendríticas) e no espaço intramuscular de outros grupos experimentais. A figura abaixo explica o processo.

 O professor explica que a formulação vacinal entregue diretamente na mucosa oral foi capaz de prevenir a colonização natural de Glaesserella parasuis no trato respiratório de suínos e, também, de proteger clinicamente esses animais quando desafiados experimentalmente com uma cepa virulenta de G. parasuis. “Estamos apresentando um conceito de proteção completo, que além de proteger clinicamente os suínos (modelo para estudos de vacinas para humanos), consegue prevenir a portabilidade e consequentemente, a transmissão”, conceitua.

 

Analisar a realidade e propor melhorias

De acordo com Frandoloso, as vacinas comerciais disponíveis para prevenção da doença de Glässer (foco do grupo) foram projetadas para serem administradas pela via intramuscular, ou seja, mediante o uso da agulha. Segundo ele destaca, o uso de agulhas durante a vacinação de animais de produção (suínos e bovinos, por exemplo) é um ponto crítico sanitário já que, embora recomendando, na prática, mais de um animal é vacinado com a mesma agulha, o que não ocorre em cães/gatos e na medicina humana. “Essa prática favorece a transmissão de doença, especialmente, de patógenos que estejam circulando no sangue”, destaca.

 Assim, para o pesquisador, desenvolver novas vacinas e explorar novas plataformas para entregar antígenos e gerar respostas imunes eficazes é uma necessidade tanto para os animais, como para os humanos. “Nossos resultados sugerem, em razão da semelhança funcional entre o sistema imunológico dos suínos e o dos humanos, que a formulação desenvolvida e a via de aplicação intraoral sem agulha, pode revolucionar a prevenção de muitas doenças respiratórias e sistêmicas que ceifam a vida de milhares de pessoas anualmente. Além disso, através de um procedimento de vacinação seguro e indolor”, conclui.

O estudo contou com a participação dos pesquisadores Prof. Dr. Anthony Bernard Schryvers (University of Calgary), Dr. Rong-hua Yu (University of Calgary), PhD candidate Somshukla Chaudhuri (University of Calgary) e Gabriela Carolina Paraboni Frandoloso (AFK Imunotech).  


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