“Estamos enxergando que, logo à frente, teremos um colapso do sistema de saúde”

Presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Rio Grande do Sul, Luciney Bohrer, teme que o aumento no número de casos de coronavírus e o esgotamento dos profissionais da saúde resulte na falta de leitos hospitalares para tratamento da Covid-19

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Um levantamento feito pela Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Rio Grande do Sul mostra que os hospitais gaúchos têm operado no limite de sua capacidade funcional. Segundo os cerca de 70 hospitais que participaram do levantamento, 32% têm dificuldade na contratação de médicos e enfermeiros e 68% relatam problemas para contratar técnicos e enfermeiros para atuar nas instituições. Em entrevista à Rádio UPF, o presidente da entidade e administrador do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, Luciney Bohrer, advertiu que esses números se refletem em um eminente risco de sobrecarga no sistema de saúde por falta de recursos humanos. “Nós estamos enxergando que, logo à frente, teremos um colapso do sistema”.

O alerta ressoa a partir do crescimento acelerado no número de casos de Covid-19 confirmados no Rio Grande do Sul – Passo Fundo, por exemplo, possuía 848 casos ativos até a tarde desta quinta-feira (10) –, causando picos de atendimentos nas instituições hospitalares e o esgotamento dos profissionais da área da saúde. Bohrer destaca também que a sobrecarga é agravada ainda pela pressão dos pacientes crônicos que ficaram sem acompanhamento médico devido ao temor do contágio em ambiente hospitalar e, agora, voltam a procurar os serviços de saúde. “Estamos vivendo o pior momento da pandemia, com nossos colaboradores cansados física e mentalmente e não temos como prever quando a situação irá amenizar. Estamos há praticamente 10 meses presos nessa questão da pandemia, com muita dificuldade de dar férias aos colaboradores, com uma pressão enorme para aumentar os leitos de UTI e sem condições de ter recursos humanos”, explica.

A principal dificuldade observada, ainda de acordo com o presidente da Federação, é a necessidade de preparação dos profissionais. “É um problema extremamente difícil de se contornar. Esse tipo de profissional você não consegue no mercado pronto para a UTI. Você precisa preparar o funcionário para que ele possa dar o melhor atendimento”. Além disso, os leitos demandam um número mínimo de profissionais disponíveis para prestar um atendimento adequado. “Para cada 10 leitos, em cada turno de trabalho, nós precisamos de cinco técnicos, dois enfermeiros e dois médicos”, explica.

Considerando que os plantões acontecem em quatro turnos de trabalho, isto significa que a cada fração de 10 leitos Covid, por dia, é necessário contar com 20 técnicos de enfermagem, oito enfermeiros e oito médicos. “Se você pegar mais as folgas e afastamentos, precisa em torno de mais 10% disso para tocar com tranquilidade. Nós não temos esses 10% para substituição e estamos trabalhando com número reduzido”.


Falta de recursos humanos pode resultar no fechamento de leitos de UTI

A demanda por profissionais que atendam casos de coronavírus dentro das instituições hospitalares não é pressionada apenas pela curva ascendente da pandemia, mas também pelo afastamento desses funcionários. As causas vão desde eles próprios sido contaminados pelo vírus, a ocorrência de outras doenças e até mesmo o esgotamento físico e emocional após quase 10 meses de atuação na linha de frente no combate à pandemia. Sem recursos humanos, a abertura de mais leitos torna-se inviável. “Nós estamos bem próximos de começar a transferir pacientes para outras cidades por falta de leito. Isso é notório, é só olhar quantos pacientes estão internados em leitos de UTI todos os dias. Digo com toda clareza: se a população não tiver responsabilidade com relação aos seus cuidados, nós teremos ali na frente um problema muito sério no atendimento. Existe a possibilidade de ter de reduzir o número de leitos de UTI por falta de recursos humanos”, Bohrer alerta.


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