Duas clínicas passo-fundenses terão prioridade na aquisição da vacina indiana

Centros privados locais estão entre as 4 unidades gaúchas que integram associação que negocia a compra do imunizante

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 Divulgação/Bharat Biotech Divulgação/Bharat Biotech
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Por integrarem a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC), que negocia com a farmacêutica indiana Bharat Biotech a compra de 5 milhões de doses de uma vacina contra a covid-19, as clínicas privadas passo-fundenses Cia da Vacina VCerta e Oficina de Vacinas terão prioridade na aquisição do imunizante Covaxin desenvolvido em parceria com o Conselho Indiano de Pesquisa Médica (ICMR) e a Universidade de Oxford.

Alvo de críticas das agências reguladoras e da comunidade científica internacional, a falta de transparência na divulgação dos resultados dos testes na fase 3 do imunizante ainda não permitiu uma estimativa precisa de eficácia do produto. Ainda assim, a Covaxin obteve, no último sábado (2), recomendação para uso emergencial na Índia emitida pelas autoridades de saúde do país. “A vacina, administrada em duas doses com intervalo de duas semanas entre elas, induziu um anticorpo neutralizante, provocando uma resposta imune e levando a resultados eficazes em todos os grupos de controle, sem eventos adversos graves relacionados à vacina”, disse a ABCVAC por meio de nota. Na última fase antes da liberação para aplicação em larga escala, ela foi testada em 26 mil voluntários em 22 localidades indianas.

Cia da Vacina VCerta manifesta interesse de compra

O centro privado Cia da Vacina VCerta já manifestou interesse em adquirir as doses para disponibilizar a imunização contra o coronavírus nas unidades da clínica nos municípios de Marau, Passo Fundo, Carazinho e Ijuí, segundo atestou a proprietária e farmacêutica, Alessandra Dull, em entrevista ao jornal O Nacional na terça-feira (5). “Estamos correndo na frente tentando viabilizar a imunização de forma precoce. Aguardamos todos os estudos, mas sabemos que é extremamente segura e eficaz”, enfatizou ela no mesmo dia em que os dois laboratórios indianos que lideram a produção da vacina no país asiático, Instituto Serum e a Bharat Biotech, deram aval para a exportação das ampolas para outros continentes ainda neste mês, segundo a solicitação feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

No domingo (3), a Fiocruz havia anunciado a compra e o fornecimento de 2 milhões de doses do imunizante indiano para agilizar o começo da vacinação no país. Na segunda-feira (4), membros da ABCVAC viajaram à Índia para conhecer a fábrica da farmacêutica, que tem capacidade para produzir 300 milhões de doses, sendo que uma parcela deverá atender a demanda interna daquele país.

A associação brasileira representa 200 clínicas que concentram 70% do mercado privado nacional. Além dos dois centros locais, o Rio Grande do Sul tem outras duas clínicas habilitadas para receber e iniciar a vacinação na rede particular de saúde: Imunijuí Clínica de Vacinas, em Ijuí, e Multivacinas, em Porto Alegre.

As 200 associadas terão prioridade na aquisição do imunizante, afirma ABCVAC. Foto: Reprodução/ABCVAC


Segundo o presidente da entidade, Geraldo Barbosa, as doses devem começar a ser comercializadas na rede privada em meados de março, conforme os avanços nos trâmites de aprovação das agências reguladoras. Dessa forma, a população não coberta pelo Plano Nacional de Imunização do Governo Federal, que na primeira fase contempla as pessoas pertencentes ao grupo de risco para contágio, terá acesso ao imunizante ampliando, assim, a vacinação para os grupos não prioritários.

“Não estamos competindo”

Alessandra Dull é farmacêutica e proprietária da clínica Cia da Vacina VCerta. Foto: Divulgação/Cia da Vacina


A administração das doses na rede privada, para Alessandra, não significa uma competição entre o setor com os postos de saúde pública. “Precisamos, agora, de uma ajuda conjunta do setor público e privado. Trabalhamos com muita cautela e muito cuidado, avançando na busca pela imunização da população para termos uma retomada econômica e recuperação da saúde pública. Nós entraríamos como auxiliar”, afirmou. A quantidade de doses que chegará às clínicas regionais, contudo, ainda é incerto por causa da negociação de logística e custo das preparações biológicas ainda estar em fase de discussão entre as autoridades de ambos os países, como explicou a proprietária da Cia da Vacina VCerta. “O mais importante, neste momento, é que a população fique atenta à importância da imunização. As fake news podem prejudicar muito a cobertura vacinal. Buscamos informações seguras e isso só teremos através de entidades certificadas”, ponderou.

O médico proprietário da Oficina das Vacinas de Passo Fundo, Wilson Vieira Marques, disse que as clínicas particulares buscam uma alternativa confiável para adquirir vacinas, considerando que os cinco laboratórios que, atualmente, têm vacinas em teste mais avançados já estão comprometidos com os governos para, primeiro, atender a vacinação da população em massa, dentro dos protocolos de prioridades. "Essa vacina, como todas as outras, carece de mais informações e mais estudos de acompanhamento", afirmou o especialista referindo-se à resposta imune gerada pelo organismo dos pacientes que já receberam as aplicações contra a doença, seja nas fases de teste ou de ampla imunização.

Somando-se ao coro iniciado por Alessandra, o médico reiterou que os centros privados atuam como um complemento da Medicina praticada na rede pública abrangendo, também, as estratégias de vacinação. "A Associação saiu a campo para ver quais eram as outras vacinas mais adiantadas. A da Índia ainda não tinha compromisso com nenhum outro país. Nas clínicas de vacina você encontra os imunizantes mais adiantados em termos de tecnologia e eficácia", asseverou.

Entre as diversas incógnitas envolvendo as vacinas e o comportamento do próprio vírus que são enfrentadas pela comunidade científica internacional, a administração de duas doses do imunizante contra o Sars-CoV-2 produzidas por laboratórios diferentes não é recomendada, como alertou o médico. "Está todo mundo no afã de vacinar, mas é preciso ter cautela. Nós nunca trabalhamos com lista de espera, mas será que desta vez será necessário? Não discutimos ainda", afirmou Marques.

Outro ponto indefinido sobre o sistema de imunização na rede privada diz respeito ao valor que o paciente terá de pagar pelo frasco multidose da vacina contra a covid-19. Embora não se tenha ainda orientações mais específicas sobre os gastos e investimentos que os administradores destes centros de saúde terão de fazer para garantir a vacina, a estimativa é de que os preços flutuem entre R$ 150 a R$ 250 reais para cada dose administrada sem considerar os custos da agulha e da seringa que serão necessárias para a aplicação.

Foto: Divulgação/Bharat Biotech

Covaxin

A tecnologia de vírus inativo, utilizada pela Bharat Biotech no desenvolvimento da Covaxin, permite que o acondicionamento da vacina seja realizado entre 2° a 8°C. A previsão é de que seja lançada no mercado em fevereiro de 2021, e a projeção é de que sua validade contra a covid-19 seja de 24 meses, segundo projetou a ABCVAC.

*Notícia atualizada às 11h37min para acréscimo de informação.

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