Um olhar diferente

Mulheres da Paz registram realidade dos bairros através das lentes fotográficas

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A dona de casa Eliane Dias reside há 12 anos no bairro Jaboticabal, mas foi através do visor de uma câmera digital compacta que ela passou a perceber detalhes do lugar onde vive. Juntamente com mais seis colegas do projeto Mulheres da Paz, elas percorrem as ruas registrando imagens relacionadas aos direitos humanos, infraestrutura e igualdade de gêneros. O resultado destes olhares será exibido em duas exposições durante a programação dos 16 dias de ativismo que acontece entre 20 de novembro a 10 de dezembro, em Passo Fundo. 

Proposto pela Comissão dos Direitos Humanos de Passo Fundo, responsável pela coordenação do Mulheres da Paz no município, o desafio envolve as 145 integrantes, nas quatro regiões da cidade. Antes das saídas fotográficas, o grupo participou de uma oficina coordenada pela Faculdade de Artes e Comunicação da UPF, onde recebeu orientações sobre o funcionamento das câmeras e noções básicas de fotografia.

No dia seguinte, a teoria aprendida em sala de aula já estava sendo aplicada na prática. Na primeira caminhada, o grupo do Jaboticabal registrou pelo menos 50 fotos. A maioria denunciando a falta de cuidado com o lixo e o vandalismo. Apesar do pouco tempo, a experiência começa a provocar mudanças nas voluntárias. “Passo todos os dias em frente ao posto de saúde, mas ao olhar pelo visor da câmera, a pichação na parede me chamou muito mais a atenção. É algo muito diferente. A máquina parece que muda a maneira de ver. Antes eu só fotografava a família em casa” analisa Eliane.

Entusiasmada com os primeiros registros, a dona de casa Silvia Miranda, 36 anos, já pensa em adquirir sua própria câmera. A participação no projeto foi o primeiro contato dela com a fotografia. “Vendo as primeiras fotos, eu gostei muito. A gente percebe mais detalhes das coisas. Vou dar um jeito de comprar uma” conta sorrindo. Parte do equipamento usado é emprestado ou das próprias voluntárias.

Para a dona de casa, Joana Aquino, 33 anos, o olhar através da lente foi além da depredação flagrada no bairro. Ao apontar a câmera para o prédio da Escola Municipal Fredolino Chimango, onde estudou na infância, a realidade se misturou com as lembranças do passado. “Vi a placa de inauguração do prédio e percebi que haviam retirado os mastros das bandeiras. Costumávamos hastear a bandeira e cantar o hino naquele local. Hoje isso não existe mais” recordou.

As primeiras imagens registradas nas quatro regiões da cidade já estão sendo analisadas pela equipe multidisciplinar responsável pelo projeto. O grupo é formado por oito integrantes, entre educadores, psicóloga, assistente social e uma advogada. As fotos serão exibidas em duas oportunidades. Uma delas no próprio bairro, com um total de 20 imagens, e outra em uma exposição geral, reunindo cinco fotos de cada comunidade. O local ainda não foi definido. As próprias mulheres serão encarregadas da seleção do material.
Coordenador do projeto, Nei Alberto Pies, afirma que um dos desafios é estabelecer contrastes de diferentes realidades através das fotos. “A falta de sinalização numa rua contrapondo com outra sinalizada. Uma praça preservada e outra destruída. São situações contrárias que chamam a atenção. A fotografia vai mudando essa percepção” explica.

A psicóloga Paulina Cecília Mantovani, diz que os bairros envolvidos serão mostrados à população a partir do olhar das próprias moradoras. “Elas se sentiram desafiadas, sujeitas da realidade em que vivem. Essa provocação é a primeira mudança importante” comenta. As Mulheres da Paz estão atuando desde junho deste ano nas comunidades como mediadoras sociais. O objetivo é fortalece práticas políticas e socioculturais, além de redes de prevenção da violência doméstica. Cada uma das integrantes realiza 12 visitas mensais, e elaboram relatórios do trabalho. A remuneração é uma bolsa mensal de R$ 190. Elaborado pelo Ministério da Justiça, a iniciativa segue até abril de 2013.

NOTA DA REDAÇÃO

Dois dias depois de ser entrevistada pelo jornalista Gerson Lopes sobre o trabalho das Mulheres da Paz, a dona de casa Silvia Miranda, foi assassinada por um jovem de 20 anos. Silvia expressou sua alegria de estar participando do projeto e o entusiasmo que sentia com a proposta de registrar tudo através da fotografia. Nesta imagem, ao lado de outras Mulheres da Paz, Miriam demonstrava seu empenho no trabalho. 

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