OPINIÃO

Está decidido

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Há 29 anos, em 1983, (parece que foi ontem, mas ainda é hoje) servi ao Exército Brasileiro em Santiago do Boqueirão, cidade que me traz muitas lembranças e onde aprendi a sobreviver longe de meus amigos e ex-amores. Vivi uma espécie de exílio e neste as memórias ficam firmemente fixadas. Em 1983 a Abril Cultural lançou uma série de vinis intitulada História da MPB – Grandes Compositores e comprei todos que pude como: Adoniran e Paulo Vanzolini, João Bosco e Aldir Nascimento, Milton e Fernando Brant, Caetano, Gil e Chico. Comprei também o disco do emergente Alceu Valença, Gonzaguinha e uma coletânea da Motown com os românticos sucessos de Michael Jackson. Algumas coisas são marcantes como o lançamento de Como Uma Onda no Mar, de Lulu Santos e Nelson Motta na voz de Lulu; como Anjo, de Dalto na voz do Serginho do Roupa Nova e que apresentava ao Brasil a nova namoradinha, Maitê Proença.

Em março o Grêmio ganhou do Flamengo no Olímpico e De Leon fez um gol de fora da área; ganharia também a Libertadores e o Mundial que assisti junto com o amigo de sempre, Eduardo Fernandes no Carlitos, barzinho da Presidente Vargas. O Quevedo deu seu show de violão naquela noite. Li Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva, li Claudio O Imperador. A Playboy exibia Magda Cotrofe e concorria com Ele e Ela em disponibilizar fotos das boazudas da época. Uma destas revistas prometera colocar na edição de natal daquele ano a preferida dos homens brasileiros custasse o que custasse. Houve uma enquete com a pergunta: qual é a mulher mais gostosa do Brasil? O resultado da pesquisa não permitiu que se colocasse essa diva pelada na edição prometida pela simples razão de que os conservadores responderam em sua maioria que “depois da minha mulher, a mais gostosa é a Xuxa, Monique Evans, Magda Cotrofe...”. Santiago permitiu uma espécie de exílio tão necessáriopara repensar vida e escolhas de caminhos, o distanciamento se faz necessário para tomadas de decisões e eu resolvi voltar para fazer Cirurgia Geral e morar aqui.

Em 1995 vi uma cena em Gramado que me encheu de ternura. Num sábado ao meio-dia enquanto sorvia uma deliciosa feijoada com minha mulher, Dona Sandra, um cara cabeludo tocava guitarra com as nossas músicas, sabe? – as nossas músicas – e olhava para uma menina sentada na primeira mesa. Ele tocava para ela, sua filha e prá mais ninguém. Prometi-me aprender a tocar guitarra para tocar as nossas músicas, aquelas. Lembrei de Dalto que na letra de Muito Estranho pergunta: “minha cara para que tantos planos?”.

Então decidi, está decidido: apressei meus passos, puxei meus planos que entrariam em execução em 2022 para 2012. Estou andando de moto, começarei a dedilhar as cordas da guitarra de meu filho, voltei a tocar Sax. 1983 era ontem e parece-me hoje, ainda. Meus filhos estão aqui, minha mulher está aqui, meus sonhos estão vivos, a vida é muito fugaz, logo será 2022 e nem sei se ainda estarei aí. É bom fazer hoje e cara - para que tantos planos?

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