OPINIÃO

João

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João, preto de braços forjados em lidas rurais, calmo. Acredito que tinha uns oitenta anos, isso em 1965. Bombacha, guaiaca, camisa branca de mangas compridas, alpargatas e um colete preto, em cujo bolso guardava seu objeto pessoal mais valioso, um relógio de bolso que ficava preso a uma correntinha .

Sentado e entre longos momentos de pausa preparava o palheiro num ritual apaixonante aos meus olhos de sete-oito anos de idade. Desenrolava o fumo retirando-o do celofane, puxava o canivete picotava um ou dois nacos pequenos e preparava tudo para lançar na palha. Depois, vinha a beiçada em cuja saliva prendia e então o fósforo Missões de Cruz Alta dava o toque para iniciar o deleite. Enfim, aí começava a sua fala mansa, momentos de sabedoria e paz, momentos de luz. Não sei se João era ídolo de alguém além de nós, sei que era admirado por suas tiradas e era por isso tudo chamado e conhecido por João Boas Conversas.

Semana passada fui chamado para um encontro com um amigo que há muito não via, amigo descoberto em 1971, quando tínhamos 14 anos. Seguimos caminhos diversos, estudei e ele não, tive ascendência social e ele não. Soube que sua mulher havia falecido de trombose em razão do anticoncepcional e dessa morte, há 10 anos, nunca mais se recuperara. Agora, por derradeiro, descobriu tardiamente um câncer de próstata com metástases. Pobre, doente, saudoso da companheira, entende que é chegada sua hora. Então, mandou me chamar. Enchi-me de toda a energia possível e fui.

Armei meus melhores pensamentos espíritas, meus melhores conselhos médicos, armei olha de respeito, sem comiseração e esperei encontrar um homem absolutamente prostrado. No entanto, suas tristezas demoraram menos do que dois minutos de conversas. Ele me chamara porque queria desfrutar da minha companhia, ouvir as velhas piadas e as poesias e músicas que a gente cantava há mais de quarenta anos. Ele me disse que eu era conhecido como o garoto especialista em promover finais felizes, o que apaziguava e que promovia reencontros para corações despedaçados ou amizades estremecidas. Disse que não tinha muito tempo de vida e que não poderia desperdiçar nada com tristezas e lamentações. Por isso, lembrara de mim ou do adolescente que um dia fui.

Devidamente autorizado discorri pensamentos de Hélio Ribeiro, músicas de Sérgio Bittencourt e Roberto Faissal, poema do poeta Macambira, histórias de Chico Anísio.

Meu amigo me homenageou querendo simplesmente me ouvir e candidamente me agraciou à dimensão de João, o boas conversas, aquele que as pessoas faziam questão de ouvir, aquele que as pessoas entendiam que tinha algo a dizer, aquele que acalmava almas inquietas. Obrigado ao amigo que está a partir, obrigado ao João pelas conversas.

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