Brincadeira de criança... como é bom!

Permitir que as crianças brinquem vai muito além de passar o tempo, é parte imprescindível no desenvolvimento delas

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"Ao contrário de uma ideia bastante comum, brincar não é um passatempo ou uma distração e, tem um valor equivalente ao do alimento para a criança”. A afirmação é da pesquisadora da área da infância, a pedagoga e psicóloga Rosana Coronetti Farenzena. A brincadeira vai muito além do que os olhos dos adultos podem ver. Ela é parte do desenvolvimento e imprescindível para que a criança tenha diversas noções que lhe serão úteis durante toda a vida.

Conforme a especialista o bebê é competente, desde a primeira idade, para brincar e interagir: “descobre o mundo e descobre-se através do movimento livre, de experimentações motoras e sensoriais, olha e quer ser olhado, toca e quer ser tocado, num verdadeiro diálogo corporal e lúdico, que inaugura sensações e possibilidades de reconhecimento de si, do outro e das propriedades físicas do espaço e de seus objetos”, explica.

E o adulto é decisivo na qualidade dessa relação. “Cabe aos pais e cuidadores assegurar as condições para uma motricidade livre, para uma interação de sorrisos largos, que não force aprendizados, não estimule em excesso e não seja omissa. Essas situações ocorrem, por exemplo, quando a preocupação de incrementar o ambiente com brinquedos e com outros penduricalhos 'lúdicos' é maior do que a disposição afetiva para a proximidade”, salienta. Observar é a condição mais necessária para brincar com bebês e crianças.

A especialista alerta que brincar com a criança é estar presente, de forma estável, favorecendo um ambiente tão seguro quanto desafiador para que, de forma autônoma, ele descubra as próprias capacidades e use as aquisições de motricidade e cognitivas. “É nas situações do brincar, inicialmente mediadas pelos adultos, que há o fortalecimento do vínculo afetivo, da estima por si e pelo outro, da curiosidade. Posteriormente, através de jogos e brincadeiras com os pares crianças há a produção de uma cultura geracional específica”, argumenta.

Sem deixar o medo falar mais alto
Em muitas situações, o medo que os pais têm sobre potenciais riscos – reais ou não – à saúde e à vida da criança pode condicionar a experimentação pelas brincadeiras, especialmente as ao ar livre. “Ações protetivas em demasia reduzem a mobilidade das crianças, suas possibilidades interativas, o contato com a natureza e a autonomia. Distanciadas dos espaços públicos, como ruas e praças, deixam de fazer parte da vida da cidade. Já não andam sozinhas, não brincam sem a presença de um adulto, tem seu círculo de amizades restrito, não ocupam os espaços públicos em vivências de crianças, fazem o percurso de ida e de volta da escola em veículos motorizados, ainda que residam em área próxima”, exemplifica Rosana.

Entretanto, para ele, isto não significa que deixem de brincar porque brincar é a sua forma de participação social, mas são apertadas as margens de experimentação, de transformação criativa do ambiente e de atividade autonômica. “Esse déficit de brincadeira tem implicações severas no desenvolvimento e no bem-estar da criança, tanto que já se cria um campo conceitual para definir analfabetismo motor ou mesmo discute-se o déficit de Vitamina N (N de Natureza) na infância”, avalia. A especialista lembra ainda que estudos recentes associam às alterações nas formas de brincar, considerada a liberdade desfrutada pelas gerações anteriores, a problemas como depressão, dificuldades de concentração, agitação, obesidade, narcisismo e, fundamentalmente à fragilidade na função executiva, um processo cognitivo relacionado à competência para resolver problemas, portanto à capacidade criativa e adaptativa. “Brincar é enfrentar o imprevisível, é reconhecer, avaliar e gerir o risco, é conviver em grupo. Quando não o é há algo profundamente errado e, cabe aos adultos proceder a correção de rota, a partir de mudanças na própria cultura. Uma cultura que tende a desconhecer a dimensão brincante que a habita e a institui”, ressalta Rosana.

Brincar pelo brincar
Permitir que as crianças tenham o tempo para brincar com outras crianças sem a preocupação demasiada com o direcionamento da brincadeira também é parte desse processo de desenvolvimento. Quando brincam em grupos, ou com pelo menos mais um companheiro, elas tendem a exercitar os limites de cada um e começam a aprender a respeitar o que é acordado entre o grupo. Por isso, a interferência dos adultos nesses momentos não é saudável.
“Brincar é uma prática democrática, exige disposição e a concordância entre os brincantes. Inicia e termina de acordo com as suas decisões, o mesmo se aplica ao cambio que executam entre o ficcional e o real. Não é regido pelo tempo cronológico, de tal forma que mais vale garantir um instante acrescido de brincadeira do que atender uma necessidade fisiológica como comer, ir ao banheiro”, avisa a psicóloga. Para ela, parece que uma boa medida, em relação aos tempos de brincar, é observar que o direito ao exercício do ofício de criança é inalienável e haverá de conviver em equilíbrio com o ofício de aluno. “Não há que fazermos silenciar o primeiro para afirmar o segundo. Há também que ficarmos atentos à tendência de escolarização/curricularização da educação infantil, que retira tempos, espaços e vivências essenciais à criança. É preciso ainda, questionarmos se a ocupação dos tempos livres com atividades orientadas, com vistas a preparação para um tempo futuro, que faz da infância uma pista de corrida tem, efetivamente, razão de ser na perspectiva do bem estar da criança, das suas especificidades geracionais e da sua participação social através de características específicas, como o brincar”, indaga.

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