Um varal de roupas e de afeto

Campanha ?EURoePra ninguém morrer de frio?EUR? movimenta a Praça Marechal Floriano Peixoto, em Passo Fundo, com doação de agasalhos em um varal solidário

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Para doar, basta pendurar os agasalhos no varal, na Praça Marechal FlorianoPara doar, basta pendurar os agasalhos no varal, na Praça Marechal Floriano
Para doar, basta pendurar os agasalhos no varal, na Praça Marechal Floriano
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Praças são locais democráticos. Amigos se encontram na praça para tomar chimarrão no domingo à tarde, os senhores sentam nos bancos da praça para conversar nos dias de sol. É na praça a concentração para a manifestação. É na praça que se recolhem as assinaturas. E é também na praça que o morador de rua morre de frio.
Uma iniciativa tem chamado a atenção dos passo-fundenses nos últimos dias. Na semana passada, o frio intenso fez sua primeira vítima. Alessandro de Brito Soares, de 32 anos, foi encontrado morto na Praça Marechal Floriano, em Passo Fundo, na madrugada de quarta-feira (27). O homem era morador de rua e, segundo informações da Brigada Militar, não havia sinais de violência em seu corpo. Ele estava com as roupas molhadas e a suspeita é que a morte tenha ocorrido em decorrência do frio. Na quarta-feira, as temperaturas mínimas chegaram a 5ºC, mas a sensação térmica foi ainda mais gelada, e chegou a 3ºC. Foi depois do ocorrido que surgiu a campanha “Pra ninguém morrer de frio”.

Casacos que salvam vidas
A iniciativa partiu do Grupo de Estudos Carlos Marighella, que lançou uma campanha de doação de agasalhos no Facebook. Paralelamente, a Casa de Cultura Vaca Profana também organizou uma coleta durante um evento que acontecia no espaço na noite de quarta-feira (27). “A ação nasceu dentro do Grupo de Estudos, a Vaca abraçou a ideia e lançou a campanha ‘Pra ninguém morrer de frio’”, explica Fernanda Cacenote, uma das integrantes do grupo Vaca Profana. Com a repercussão, foram muitas as doações. A ideia era distribuir os agasalhos recolhidos ainda na quarta-feira, à noite, mas as roupas eram muitas e as pessoas nas ruas eram poucas. “Em função de que foi um dia após a morte do morador de rua, nós acreditamos que a prefeitura tenha dado uma atenção especial para o pessoal que mora na rua e recolhido essas pessoas para um abrigo, já que fazia bastante frio”. Como muitas roupas tinham sobrado, surgiu a ideia de fazer um varal solidário na Praça Marechal Floriano Peixoto, que não durou apenas um dia e acabou movimentando toda a cidade. “Convidamos a comunidade para vir colocar as roupas no varal. É você mesmo ajudando alguém. Se você passar uns minutos perto do varal, vai ver que as suas roupas vão ser abraçadas por alguém. Alguém vai precisar do teu agasalho. Acaba com aquela ideia de que não se pode fazer nada, de que ajudar as pessoas é uma coisa difícil, de não ter tempo. É só vir aqui, pendurar a roupa, esperar alguns minutinhos e ver alguém muito feliz com aquele agasalho que não é mais útil pra ti”, afirma Fernanda.

Um varal na praça
A escolha foi simbólica, já que é o mesmo local em que o morador de rua foi encontrado já sem vida. “Tem gente morrendo nessa praça, é aqui que a gente tem que estar. É aqui que um varal cheio de roupas quentes tem que estar”, explica Fernanda. O grupo, porém, teve problemas com algumas pessoas que tiraram o varal, os prendedores e os cartazes. “Como não estamos atrapalhando o fluxo de pessoas, a gente entende que tudo bem a gente estar ocupando esse espaço, ajudando e comovendo as pessoas para a realidade. Existem muitas pessoas sem moradia, tem uma galera que passa frio, e muitas vezes nada ou muito pouco é feito para contornar essa situação”. Alguém tira, os integrantes do grupo, junto com a comunidade, colocam de volta.

Mãos que tricotam pelo bem
Apesar de ter uma motivação triste, a ideia enche de alegria o coração daqueles que recebem e também daqueles que doam. As mãos de Elei, já marcadas pelo tempo, começaram a tricotar cachecóis e gorros para abastecer o varal. “Eu achei esse projeto tão bonito. Tem tantas pessoas precisando de ajuda e eu acho que a população até faz esse gesto de ajudar os outros, mas nós sabemos que precisa muito mais”, conta Elei Mari Anabor. As roupas que estavam guardadas e que ela já não usava mais foram para o varal. “Eu fiquei sabendo que no Bella Città tinha um ponto de recolhimento de agasalhos, mas não consegui ir lá. Quando eu vi que tinha o projeto aqui achei tão bonito e resolvi trazer”. O gosto pelos trabalhos manuais e a vontade de ajudar foram o necessário para começar a tricotar. “Eu tenho muito resto de lã em casa e eu pensei em começar a fazer cachecóis e gorros para doar”.

A iniciativa fez nascer um projeto
Marcelo Marcondes tem 19 anos e é estudante de jornalismo. Ele não fazia parte do grupo, mas se voluntariou para ajudar a recolher e doar os agasalhos. “No domingo nós ficamos aqui o dia inteiro e foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida. Ver uma pessoa se emocionar porque você está ajudando ela, dando um agasalho. Você não está fazendo muito, simplesmente está dando a opção de ela recolher uma roupa no varal”, conta Marcelo. A vontade dele é que as pessoas entendam que é necessário fazer o bem. “As pessoas vivem no mundinho delas e não se conscientizam da realidade da cidade. Precisou acontecer o que aconteceu na semana passada para pessoas como eu, por exemplo, abrir os olhos”. Como vários jovens que não faziam parte do grupo de estudos, nem da casa de cultura, se ofereceram para ajudar, acabou nascendo outro grupo. O Projeto Eliana Silva se propõe a continuar a coleta de roupas e cobertores para o varal, além de desenvolver outras iniciativas.

Para doar
Contribuições podem ser feitas durante os eventos na Casa de Cultura Vaca Profana, ou também no Café O Sítio, ao lado da sede da Vaca, localizada na Rua Morom, 1021, no Centro de Passo Fundo. Além disso, a comunidade também pode ajudar colocando as roupas diretamente nos varais.

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