OPINIÃO

Casamento e morte

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Penitencie-se, caso você, quando aquele seu vizinho, casado, meia idade e sem nenhuma doença grave, subitamente morreu, tenha se alvoroçado a tecer comentários do tipo: também, andava exagerando no torresminho. Bebia dia sim e outro também. Não refugava um chope com os amigos. E uísque então, eram doses industriais. Café, só bebia se fosse IrishCoffee. Devagar com essas conclusões apressadas! Um artigo recentemente disponibilizado pelo The American Journal of Cardiology (Am. J. Cardiol. 2019, 123:7-11), MarriageDissatisfactionandRiskofSuddenCardiacDeathAmongMen, lançou luzes sobre esse tipo de acontecimento que pode ter vitimado o seu vizinho, ao atribuir a “insatisfação/infelicidade” no casamento como a principal causa de morte cardíaca súbita entre os homens de meia idade.


Um grupo de pesquisadores da Finlândia e do Reino Unido assina o referido artigo, que reporta o resultado de uma pesquisa realizada com 2262 homens finlandeses, casados, com idade entre 42 e 60 anos, que, entre 1984 e 1989,se submeteram a um protocolo de estudo, aferindo, entre outras coisas, o nível de satisfação no casamento, numa escala que ia do muito satisfeito, passando pelo apenas satisfeito, até os graus de insatisfeito e muito insatisfeito; tendo sido o grupo acompanhado pelos próximos 26 anos. Nesse interim, 239 membros que morreram foram diagnosticados, inequivocamente, como casos de morte cardíaca súbita.
Estima-se que, entre 4 e 5 milhões de pessoas, no mundo, anualmente, são vitimadas por morte cardíaca súbita. No estudo realizado na Finlândia,896 homens integravam o grupo dos muito satisfeitos (39,6%), 1249 o dos satisfeitos (55,2%) e 117 o grupo unificado insatisfeitos e muito insatisfeitos (5,2%). Os diagnósticos de morte cardíaca súbita, enquadraram-se, nos respectivos grupos, em 78, 146 e 15, que, em termos relativos, correspondem a 8,7%, 11,7% e 12,8%. Ou seja, em uma interpretação empírica superficial, tem-se, para cada 100 homens, que, enquanto morrem 9 do grupo dos muito satisfeitos no casamento, contabilizam-se 13 mortes entre os insatisfeitos. E que não basta estar apenas satisfeito, tem que se estar muito satisfeito no casamento, para diminuir o risco de morte.


Evidentemente, os resultados e a discussão do aludido artigo são mais robustos do que até aqui expomos rasamente.Os autores concluíram que o riscode morte cardíaca súbita no grupo dos homens insatisfeitos é 86% maior do que no grupo dos muito satisfeitos no casamento. E considerando que algum elemento de insatisfação pode existir no grupo dos que estão apenas satisfeitos, combinando-os com os insatisfeitos, esse risco é incrementado em 43%. A conclusão principal do estudoé que, independentemente deoutros fatores de riscos cardiovasculares, a insatisfação no casamento está associada com o aumento do risco de morte cardíaca súbita entre os homens de meia idade. Talvez, faltou dizer que essa insatisfação no casamento pode levar, pelos conflitos do dia a dia, a um maior consumo de álcool, a estresses diversos que podem afetar o sistema nervoso, ao desleixo com a saúde física, ao uso de antidepressivos etc., que, direta ou indiretamente, podem ter influído nessas mortes.


A sensação é que estudos como esse publicado no The American Journal of Cardiology são realizados apenas para confirmar piadas velhas. Com o devido pedido de perdão antecipado, pelo tom machista, segue a história do cidadãoque, preocupado com o resultado de exames cardiovasculares que realizara, procura um médico e, durante a anamnese, o doutor perguntase ele bebe. O sujeito diz que não. O médico recomenda que ele beba, mas com moderação, que um pouco de álcool ajuda a relaxar. Depois, prossegue o doutor, se ele trabalha muito. Diante da resposta, recomenda que ele, se possível, trabalhe um pouco menos, preferencialmente apenas naquilo que gosta de fazer. E por fim, se ele tem mulher chata. E, nesse ponto, o médico é taxativo: se tem mulher chata, separa logo, pois o que mata mesmo é mulher chata. Bingo!

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