OPINIÃO

A Revolta dos Motoqueiros: do tiro nas costas à comoção popular (1979)

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Em 1979, ano de intensas transformações e encaminhamentos que mudariam o panorama político brasileiro nos anos seguintes, Passo Fundo era considerada uma cidade violenta, dominada pela atuação de criminosos. Devido a isso, era conhecida de maneira pejorativa como “Chicago dos Pampas”, em alusão ao centro urbano estadunidense associado aos altos índices de criminalidade nos tempos de Al Capone. Tudo isso ocorria em pleno contexto de Ditadura Militar.


No dia 5 de fevereiro de 1979, uma ação desastrada de três membros da Brigada Militar vitimou o jovem Clodoaldo Teixeira, morador da Vila Annes. Atuando profissionalmente como mecânico em uma oficina no Centro da cidade, Teixeira, à época com 17 anos de idade, voltava para casa em sua motocicleta quando foi abordado pelos três brigadianos. Por não possuir habilitação, colocou-se em fuga, temendo seu destino. A atitude gerou uma perseguição ao longo das ruas da cidade, que terminou em frente à casa de Clodoaldo, quando um dos policiais desferiu um tiro nas costas no jovem mecânico. Conduzido ao hospital, Clodoaldo não resistiu ao ferimento.


A notícia sobre o assassinato do jovem correu pela cidade, causando comoção e indignação. A brutalidade policial, dado ao tiro ter sido desferido em situação de impossível defesa, fez com que os moradores da cidade se organizassem em protestos. Na ocasião, a atuação dos motociclistas que se agremiavam em um clube foi fundamental para que os protestos passassem à História, conhecidos como a Revolta dos Motoqueiros. Cerca de dez mil pessoas participaram do cortejo fúnebre de Clodoaldo, no dia seguinte à sua morte, em direção ao Cemitério do bairro Petrópolis.


A continuidade dos protestos gerou hostilidade em relação aos militares, que receberam os manifestantes a tiros de metralhadora no centro da cidade. Dessa forma, mais duas pessoas – Adão Faustino e Joceli Joaquim Macedo – foram fatalmente vitimadas nos confrontos, piorando ainda mais a imagem da Brigada Militar frente ao público. O comando da instituição, por sua vez, informava versões diferentes e contraditórias aos acontecimentos retratados nos jornais e descritos por testemunhas. Uma tia de Adão Faustino bradou em meio ao enterro do jovem, conforme o jornal O Nacional em 9 de fevereiro daquele ano: “Mais um morto pelos brigadianos. Ao invés de proteger, eles estão nos matando”.


A instabilidade observada em Passo Fundo após a manifestação dos motoqueiros e dos manifestantes em geral e da morte de mais dois jovens na sequência começou a arrefecer a partir da intervenção do Exército Federal, por meio do 3º Regimento de Cavalaria do município, comandado pelo Major Isauro Corrêa, através de marcha sobre a cidade, ordenando com megafones a dispersão dos manifestantes.


A repercussão do caso refletiu no cenário político, fazendo com que ARENA e MDB, os dois partidos políticos da época, se manifestassem sobre o ocorrido. Enquanto a ARENA, sustentáculo da Ditadura Militar, buscava discurso mais ameno, repudiando a atuação dos policiais, o MDB chegou a trazer deputados estaduais para averiguação do caso.
Os primeiros passos para a penalização dos policiais envolvidos foram dados junto à Justiça. O cabo que efetuou o disparo contra Clodoaldo foi enquadrado como autor do crime, sendo indiciado por homicídio qualificado. Igualmente, os dois soldados presentes à ocasião foram apresentados como coautores do crime.


Ao final de 1979, a edição de 31 de dezembro de O Nacional, em retrospectiva, retrata a manchete “Passo Fundo 79: Um pesadelo”, enfatizando, principalmente, por meio de fotografias, a comoção local à morte de Clodoaldo. Na matéria, contabiliza-se que 1979, como um todo, não foi fácil para os habitantes da cidade. A morte de Clodoaldo “levantou” literalmente a cidade, conforme a publicação, fazendo com que houvesse reação à violência policial. “Viver em Passo Fundo em 79, significou viver no Brasil, de modo muito intenso”. Em meio a uma ditadura desgastada, a população começava a despertar sua indignação frente aos acontecimentos.

Alex Antônio Vanin e Roberto Biluczyk
Mestrandos em História – PPGH/UPF

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