OPINIÃO

?EURoeA Esposa?EUR?, e os danos da submissão

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Enquanto Capitão Marvel aporta na cidade – e toma conta, por exemplo, da TODAS as exibições no Bourbon – eu sigo buscando, de forma atrasada, alguns filmes que marcaram 2018 e que chegaram a figurar no Oscar (além daqueles que deveriam, mas não chegaram lá). Vi na semana que passou “A Esposa”, filme pelo qual Glenn Close ganhou o Globo de Ouro e era forte favorita no prêmio da Academia, perdido para a ótima Olivia Colman, de “A Favorita”. Close divide o protagonismo com  o  sempre ótimo Jonathan Pryce, mas o show pertence a ela. Não é a melhor performance da carreira, mas o prêmio e as indicações fazem jus ao seu trabalho. E ele é relevante quando estamos na semana em que se comemorou o Dia da Mulher, na última sexta o – aliás, a própria estreia de Capitão Marvel nessa semana, com a primeira heroína comandando uma superprodução do estúdio, também não é por acaso. 

No filme de Björn Runge, ela é uma escritora que, na adolescência, se apaixona por seu professor de literatura, um caso extraconjugal que se transforma em uma vida a dois: por ela, ele largou a família, e por ele, ela abdicou de aparecer para o mundo. Exímia escritora, ela logo percebe que o grande talento do casal não é dele, um homem frustrado com a abundância de ideias, mas a falta de talento para colocá-las no papel. Ela passa, então, a escrever suas ideias, e seu estilo, com o passar dos anos, torna seu marido tão famoso que, no ponto em que o filme começa, já idosos, ele é contemplado com o Nobel de Literatura. É aí que todo o sentimento reprimido por ela explode justamente quando os dois viajam para Estocolmo para que ele possa receber o prêmio.

É um filme desequilibrado. Com exceção da atuação de Close, muito parece estar incompleto, pela metade. É quase como se a forma do filme tentasse comentar o conteúdo, rimando com a vida incompleta da personagem principal, o que seria genial se realmente acreditássemos que é proposital... Mas muito do que se tenta construir parece ser abandonado pela metade. O roteiro insere uma série de personagens secundários, sempre circundando o casal, introduz seus dramas, mas parece sempre abandoná-los pela metade, achando que eles podem servir como combustível para as discussões dos protagonistas em que, aí sim, brilham os dois atores. Mas fica a impressão – e a sub-trama envolvendo o filho aspirante a escritor é um bom exemplo – que algo sempre é deixado para trás. O grande pecado talvez esteja na falta de um diretor com talento e ousadia suficientes para permitir que suas imagens explorem melhor e falem mais sobre uma ótima base dramática, mas que eventualmente acaba optando pela opção mais fácil e óbvia - visualmente, narrativamente e verbalmente.  E em muitos momentos o roteiro opta por colocar nos diálogos dos personagens situações que poderiam ser mais interessantes expor, ao mesmo tempo em que, fazendo uso de flashbacks para mostrar o começo da relação dos dois, parece explorar pouco esse recurso para potencializar o sentimento de repressão vivido pela personagem central, usando os flashbacks apenas como um elemento de exposição da história. Falta ousadia para ligar passado e presente.

O filme, no entanto, tem alguns momentos inspirados - o dolly out (movimento de câmera para trás) na cerimônia de premiação do Novel, enquanto Pryce, e o público, buscam com os olhos mas não encontram a esposa no mar de silhuetas da platéia é um desses exemplos, como como a maneira como em vários momentos as opções de foco da câmera privilegiam ou escondam o ambiente em torno de Close - mas fiquei com a sensação de que o resultado final é menor do que a história oferece. A quantidade de opções dramáticas que se oferecem e são abandonadas só deixa claro o quanto o roteiro parece ter sido costurado às pressas. Vale por Close, e pelo tema em si, que já havia sido abordado de diferentes maneiras em filmes como “Grandes Olhos” ou no recente “Colette”.

 

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