OPINIÃO

Djanira de Passo Fundo

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A coluna do Arquivo Histórico Regional, publicada na edição de final de semana de O NACIONAL de 16 e 17 de março e reprisada na de 22 e 23 de junho de 2019, trata da personagem Salomé de Passo Fundo. Leva a assinatura de Alex Antônio Vanin e Roberto Biluczyk, estudantes do curso de mestrado do PPGH-UPF, que, com texto primoroso, rememoram a célebre criação do humorista Chico Anysio, em 1979. Eram tempos pós-AI 5, início da abertura politica no Brasil, governo do general João Baptista Figueiredo e, não sem razão, pelo passado, ainda recente, da repreensão e censura nos veículos e comunicação, a ousadia da idosa Salomé Maria Anunciação, que se comunicava, por telefone, com um ex-aluno de nome João Baptista, e fazia críticas ao governo, não poderia passar despercebida. E tão pouco os seus bordões e o carregado sotaque gauchesco, que, no inicio de cada ligação, dizia o clássico “Alô! João Baptista? É Salomé de Passo Fundo!” e tratava o interlocutor com intimidade, chamando-o de “guri” e “João” e, invariavelmente, no final da conversa encerrava com a declaração “Eu faço a cabeça do João Baptista ou não me chamo Salomé”.

 

Natural, portanto, pela repetida menção a Passo Fundo, que se especulasse, nas hostes locais, quem seria a inspiradora da aludida personagem. Alex Antônio Vanin e Roberto Biluczyk apontam o nome da senhora Djanira Lângaro (1903-1994). A inspiração de Chico Anysio teria surgido a partir dos supostos telefonemas a presidentes e governadores realizados por ela ao longo dos anos, conforme noticiava reportagem publicada pela revista Manchete, usada pelos autores como fonte da informação. Afinal, quem foi Djanira Lângaro? A coluna do Arquivo Histórico Regional fala de Salomé e nada de Djanira. E mais, haveria outra razão para Djanira Lângaro ter inspirado Salomé?
Djanira de Oliveira Lângaro, segundo o perfil biográfico traçado pela saudosa professora Selma Costamilan, nasceu em Passo Fundo no dia 13 de janeiro de 1903. Era filha do casal Floriano José Lucas de Oliveira e Rosalina Lima de Oliveira. Ficou órfã de mãe aos 7 anos e de pai aos 14 anos. Viveu dividida entre Passo Fundo e Porto Alegre. Mulher muito bonita foi eleita rainha do Carnaval do Clube Diamantino, de Erechim (hoje Getúlio Vargas), em 1919, e, quatro anos depois, a Mais Bela Gaúcha dos Pampas. Em 1925, casou com o industrial Arthur Lângaro. O casal teve uma filha, a professora Maria de Lourdes Lângaro Markus (1926-2013), que foi casada com o Dr. Bruno Markus (1921-2010). Djanira e Arthur Lângaro estiveram à frente do Clube Comercial por 20 anos. Nessa função, Djanira se notabilizou pela organização de festas, bailes de carnaval e de debutantes. Mas, segundo Selma Costamilan, o maior legado de Djanira foi na área assistencial.


Djanira Lâgaro fez parte da Fundação Damas de Caridade e presidiu a Comissão de Apoio à Construção da Catedral de Passo Fundo, promovendo festas e eventos para arrecadar fundos. Também participou da criação do Asilo Lucas Araújo e da Sociedade de Apoio à Maternidade e à Infância (SAMI). Em 1943, assumiu a presidência do núcleo local da Cruz Vermelha Brasileira. Nesse posto, além da criação da Legião Brasileira de Assistência em Passo Fundo, se notabilizou pelo apoio aos familiares e aos pracinhas convocados para lutarem na Segunda Guerra Mundial. Em reconhecimento, Djanira Lâgaro foi condecorada, em 1947, com a Medalha de Guerra, concedida pelo presidente Marechal Eurico Gaspar Dutra. Também, em 1962, recebeu a Ordem do Mérito e a Comenda da Cruz Vermelha Brasileira; além de várias outras honrarias militares. Foi uma notória batalhadora de causas filantrópicas, presidindo Clubes de Mães, organizando escolas, bibliotecas e cursos profissionalizantes para a população em situação e vulnerabilidade social.


Selma Costamilan argumenta que a inspiração de Chico Anysio, para criar a sua Salomé embasada na figura de Djanira Lângaro, surgiu a partir de textos produzidos pelo jornalista Tarso de Castro. Eis uma pista a ser mais bem investigada pelos historiadores locais.

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