OPINIÃO

As memórias do Bira

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Ubirajara Vasconcellos Morsch, Bira para os íntimos, levou ao pé da letra o velho adágio popular que diz que todo ser humano deve, pelo menos, plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Árvores, ele plantou muitas, com destaque para o pomar de laranjeiras, bergamoteiras, limoeiros, pitangueiras, jabuticabeiras e pinheiros que ele montou no quintal da sua residência no Bosque; filhos ele teve quatro (Valesca Cristine, Ana Carla, Rafaela e João Gilberto); e livro, com a publicação, em 2019, das suas “Memórias Esparsas”, cumpriu-se o desiderato.
Livros de memórias, como é o caso desse escrito pelo Ubirajara Morsch, que, não raro, exageram no relato de vivências pessoais e de cunho familiar, podem, à primeira vista, aparentar interesse restrito aos círculos de parentesco e de amizade ou às pessoas citadas. Mas, isso é um engano. Livros de memórias são fundamentais para a compreensão de uma sociedade e seus valores em determinada época. São valiosos, não necessariamente pelo que dizem, mas pelo que possibilitam ao leitor inferir. E, é assim que as memórias esparsas de Ubirajara Morsch nos permitem conhecer melhor a sociedade passo-fundense e sua evolução, desde a segunda metade do século passado até os dias atuais.
Ubirajara Morsch nasceu em 21/08/1940 (foi registrado como 21/09/1940). Ia se chamar Italmar (além-mar em italiano), mas, devido ao impedimento do Estado Novo para nomes italianos e alemães, acabou recebendo o bem brasileiro: UBIRAJARA, que em Tupi Guarani significa Senhor da Lança ou Senhor das Flechas, com o sentido intrínseco de Guerreiro. E é isso que ele foi e segue sendo na vida: UM LUTADOR.
As primeiras memórias afetivas relatadas por Ubirajara Morsch remontam ao nascimento do irmão Gilberto e quando, aos 6 anos de idade, acompanhando o pai, saíram de madrugada montados a cavalo, quebrando geada e enfrentando o Minuano, para buscar uma tropa de gado e um petiço que seria seu presente. Sob a proteção de uma capa Renner e do calor do corpo do pai, cujo afeto vivenciado naquela ocasião nunca mais se dissipou das suas lembranças.
Morsch estudou no Fagundes dos Reis, no Instituto Educacional (IE), onde concluiu o Técnico em Contabilidade, e na Universidade de Passo Fundo, formando-se em Direito na turma de 1972. Em 1964, ainda como estudante do IE, vivenciou algo inusitado, que foi o encontro de estudantes secundaristas e universitários, promovido por Cezar Romero, então candidato à presidência da União Passo-Fundense de Estudantes (UPE), ocorrido num sábados a tarde, em junho de 1964, na Câmara de Vereadores (atual Teatro Múcio de Castro), segundo Morsch, ou na Biblioteca Pública, segundo outros. Não importa quem esteja certo quanto ao local, pois a Biblioteca Publica, na época, funcionava no prédio da Academia Passo-Fundense de Letras, que fica ao lado do Teatro Múcio de Castro. O relevante foi que nesse dia ele conheceu Maria Dorotéa Deczka, representante do Centro Acadêmico João Carlos Machado da Faculdade de Direito, com quem se casaria em Capinzal, SC, no dia 27 de fevereiro de 1965, tendo João Carlos Pires e Ivo Coitinho como padrinhos.
Tinha pouco mais de 15 anos, quando, no dia 2 de abril de 1956, começou a trabalhar como balconista na empresa Barbieux & Geiger Ltda. (Casa do Agricultor). Lembra que vendeu e entregou as lajotas vermelhas que revestem as cúpulas das torres da Catedral de Passo Fundo. Nessa empresa galgaria todos os postos e viraria sócio, completando, em 2019, 63 anos de atividade na organização, que segue sob a razão social de UVM – Assessoria Comportamental e de Negócios Ltda.
O empreendedorismo e certo misticismo (expresso nos relatos de viagens e como seguidor do livro “O Profeta”, de Gibran Khalil Gibran) marcam a trajetória de vida de Ubirajara Morsch. Criou empresas, trabalhou em associações classistas, engajou-se politicamente no PMDB, foi diretor regional da COHAB, presidiu a seccional local da Escola de Pais do Brasil e integra a Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC), atuando como orador regional e mestre da Loja de Passo Fundo.

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