OPINIÃO

Tanto riso, oh, quanta alegria

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O Brasil demorou-se e, talvez ainda não tenha identificado sua identidade musical. Até o começo dos anos 1950 a gaita (ou acordeão) era o instrumento musical da vez. De repente, um baiano de voz baixa trouxe ao Rio uma pegada diferente em que cantava de um jeito e tocava de outro. Era João Gilberto e ali, no disco Canção do Amor Demais (Elizeth Cardoso, 1957), passaria a haver uma nova bossa. Era o Brasil que surgia na garra do presidente JK, o peixe-vivo, em projeção mundial com Orfeu e O pagador de Promessas, com o Cinema Novo de Glauber, com o campeonato mundial de 1958. O pessoal não estava a fim de discussões sobre que música representaria o país. A gente queria curtir Nilo Amaro, Dorival Caymi e outros baianos como Caetano e Gil, Roberto Carlos, Jair Rodrigues e Elis Regina. Também havia espaço para experimentos como o do grupo Os Mutantes (Sergio Dias, Arnaldo Baptista e Rita Lee), para Geraldo Vandré e Capinam em suas letras de críticas ao regime militar. Até Raul entoaria protestos como em Dentadura Postiça (inicialmente Ditadura Postiça) e em Cowboy Fora-da-Lei em que teve de trocar a letra que dizia no original – o coitado do Tancredo, Deus me Livre eu tenho medo, viver dependurado numa cruz...para o coitado foi tão cedo, Deus me livre...Chico experimentou com Apesar de Você a crítica velada e escancarada à liberdade de expressão mas teve que adotar o codinome Julinho da Adelaide para continuar a compor, enfim.

O carnaval está aí, para quem gosta de brincar-protestar, encher a cara ou simplesmente pelo feriadão. Pessoalmente não o aprecio, nem de ver na TV. Eu era do salão, mas nos tempos de solteiro. Nunca compreendi se a gente se esconde ou se mostra nas fantasias. Nunca soube se Zorro era Don Diego ou vice-versa. Um se escondia e se mostrava no outro. Dizem que no carnaval alguns mostram o outro da gente aquele que está escondido e cativo por 361 dias. Mas, não dá mais pra segurar...explode coração. Então, carne nada vale, tudo vale até quarta de cinzas e posso beijar-te agora porque é carnaval. Vale tudo, gente pelada, drogada, alucinada, embebedada, engravidada...vale até amor de verdade.

O carnaval do Rio é dos bicheiros e da contravenção, é bonito como festa e inclusive os bicheiros contraventores fazem temas de protestos sociais, interessante não é? O carnaval de Recife e Salvador é do povo, é da rua. Mas, os artistas ficam isolados e caetaneando – o povo ali na praça e a gente aqui sem graça.

De qualquer forma, esse é o carnaval. O Brasil seria o país do samba, carnaval e futebol. Futebol à meia boca, carnaval idem e o samba? Bem o samba...o samba...bem...tem a Annita assim com nn, Pablo Vittar com tt, Ludmilla com ll, só para serem diferentes, dizem que melhora a voz, entende? Pensando bem, melhor sambar, fantasiado ou não vou beijar-te agora não me leve a mal hoje é carnaval 

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