Venezuelano ajuda familiares com dinheiro arrecadado no sinal

Há dois meses em Passo Fundo, casal conta com doações e busca por emprego

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Gerson Lopes/ON Gerson Lopes/ON
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É da  solidariedade dos motoristas que param na sinaleira instalada  a poucos metros do viaduto que corta a avenida Brasil, em direção ao bairro Petrópolis, que o casal José González, 24, e a eposa Keilys Marcano,21, garante  o sustento de parte da família que ficou  no distante Delta Amacuro, estado na região norte da Venezuela.

Movidos por esse compromisso, os dois ‘batem ponto’ diariamente no local, acompanhados da filha, a pequena  Keiliannys Gonzalez, de seis anos. Praticamente todo o dinheiro que conseguem arrecadar ao longo da tarde é depositado em uma conta e serve para custear as despesas básicas do pai de José e de seus dois irmãos. “Quem está lá e não tem ninguém em outro país para mandar dinheiro, ficou para morrer”, sentencia.

Foi com esta mesma percepção da realidade econômica da Venezuela que há dois anos José decidiu deixar família, emprego e casa para trás e tentar a sorte no Brasil. Viajando de carona, atravessou seu país e cruzou a fronteira em Roraima. Desde então, não parou mais. Após  passar por Boa Vista, rodou por Tocatins, Manaus, Goiania, descendo para o Sul, passou por Chapecó e há três meses está em Passo Fundo. Durante as andanças, conseguiu trabalho em algumas cidades e reuniu dinheiro suficiente para trazer a esposa, a filha e a mãe, para perto. “Falaram que era bom aqui, que tinha emprego, então viemos”, conta.

Ajuda no sinal 

Segurando dois cartazes, um de cartolina e outro de papelão, com  mensagens em letras garrafais, mesclando  espanhol e português,  José e a esposa se identificam como venezuelanos, pedem por emprego ou alguma ajuda. “Pode ser qualquer tipo de trabalho. Se conseguir algo podemos ficar por aqui. Trabalhava para o governo na Venezuela, o salário era quatro dólares e o quilo da carne 100 dólares. Não tem mais trabalho lá. Meu pai está com 68 anos, doente. Consegue comer porque mandamos dinheiro. Desde que saí de lá nunca mais falei com ele", desabafou.

Além do dinheiro arrecadado no sinal, a família também conta com a solidariedade de uma professora, que segundo José, emprestou uma casa, no bairro São José, sem cobrar aluguel por um determinado período. Os alimentos que consomem também são frutos de doações.

“O Brasil é o país que melhor acolhe os venezuelanos. Aqui é um lugar bom. Eu fico com Deus”, disse.

Primeiras famílias

O município de Passo Fundo começou a receber venezuelanos a partir de 2018 através de ações institucionais. Neste período, José Gonzales é o primeiro a se aventurar por iniciativa própria.

As duas primeiras famílias chegaram em 2018, através de uma ação nacional  promovida pela  Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. 

O segundo grupo desembarcou no aeroporto Lauro Kortz, em outubro passado. Os 20 imigrantes foram acolhidos no projeto da Pastoral dos Migrantes da Arqudiocese de Passo Fundo. Parte deles se instalaram inicialmente nas paróquias São José Operário, São Cristóvão, Santa Terezinha e Catedral Nossa Senhora Aparecida. Outros foram para o município de Gentil. 

Responsável pelo trabalho na pastoral, a irmã Norma Kleinubing, afirma que todos conseguiram emprego, principalmente no setor de frigoríficos, de Passo Fundo e cidades da região. “No início da pandemia, alguns perderam suas vagas, mas estão conseguindo retornar para seus postos de trabalho”, disse. Em ambos os casos, os venezuelanos passaram por um processo de acompanhamento quando ainda estavam em Roraima.

Assistência humanitária

Atuando desde 2014 em frentes de defesa, promoção de direitos e combate à práticas xenofóbicas e discriminatórias, o Fórum de Mobilidade Humana de Passo Fundo iniciou uma corrente solidária de arrecadação financeira para auxiliar as famílias de migrantes, como a do venezuelano José Gonzales. 

Através da plataforma virtual Vakinha, que até terça-feira (2) já havia contabilizado R$ 1.6 mil em transferências monetárias, os voluntários organizam cestas básicas contendo alimentos, material de higiene pessoal e limpeza. “A vakinha acabou sendo a nossa reserva porque também recebemos doações desses itens”, explicou a coordenadora do Fórum de Mobilidade Humana, Patrícia Grazziotin Noschang. 

Com o permanente contato entre as instituições de direitos humanos e migratórios no município, segundo ela, agora será possível mapear quantas pessoas se deslocaram para a cidade. Desde o final do mês de março, 100 famílias de migrantes receberam os itens arrecadados. O número de lares, como mencionou Patrícia, deve se ampliar para 350 com a assistência do núcleo, que, agora, se concentra em assistir os estrangeiros residentes em Passo Fundo. Embora o número de migrantes ainda seja indefinido, venezuelanos, senegaleses, bengalis e haitianos constituem o tecido principal das faces imigratórias na cidade. 

Cubanos

No início da pandemia, como mencionou a coordenadora, um casal de cubanos desembarcou no município após uma residência temporária no Uruguai. “Eles se movem bastante”, ponderou. De acordo com a última resolução do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, os venezuelanos, assim como os cidadãos de Cuba, passaram a integrar o grupo de pessoas consideradas refugiadas ao buscarem, no Brasil, a segurança alimentar e de residência não oferecidas pelos países nativos. “Os refugiados são submetidos à migração forçada e não podem ser barrados na fronteira e devolvidos às nações sem que elas tenham condições seguras. Já o imigrante vem por meio de uma migração voluntária, geralmente, em busca de melhores condições de vida ou ajuda financeira para a família”, explicou ela, que também leciona Direito Internacional na Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (UPF). 

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