OPINIÃO

Jacob Felipe Olegini

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Ele veio para o Brasil no final do século XIX. Jacob Felipe Olegini, nascido ao no Norte da Itália, num vale ao pé dos Alpes, lugarejo de Olégio, Piemonte. No Brasil casou com Claudiana Alves da Silva, e tomou posse em terras de Água Santa. Construiu propriedade rural, às margens do rio Carreteiro, divisa com a terra dos índios. Inteligente e empreendedor, edificou abatedor onde beneficiava carne suína. Fez pacto com os indígenas e ajudava repartindo a carne que produzia. Aproveitava o solo fértil e transportava carne e banha para outras regiões do estado, com sua carreta (carroça) reforçada puxada por respeitado terno de mulas. Com nove filhos trabalhava muito e prosperava. Minha mãe era a filha mais velha e tinha 8 ou 9 anos. Mas veio a gripe Espanhola devastando a população indígena. Minha mãe, Ermelinda, repetia a história angustiante das aldeias onde a pajelança entrava em desespero, conseguindo algumas curas, com rituais e remédios da mata. O surto demorava passar, e uma crença surgiu no meio da tribo. Com febre alta, muitos se jogavam no rio acreditando na cura. Alguns sobreviviam. E muitos morriam na água. Era estarrecedor para minha mãe menina ver dezenas de corpos boiando no rio. O vô trazia alguns remédios de Montenegro, onde comercializava banha e embutidos suínos. Saliento a compaixão da família que ajudava índios afetados pela doença que dizimou parte da comunidade indígena e também colonos. Ninguém na família de Jacob Felipe contaminou-se, circunstância rara nas redondezas. Minha mãe enchia os olhos de lágrima ao lembrar a tragédia de 1918. Lembrava que aprendera assar peixe e usar remédios do mato, com família nativa que com a qual se relacionava. Foram duros demais os tempos indescritíveis da Gripe Espanhola.

Sobrevivência

Imaginemos a angústia que tomava aquele povo. Longe dos recursos sanitários. A crença só tinha o olhar solidários e impotente das pessoas próximas para dar esperança. A força de uma sobrevivência é compaixão, elo de resistência que não pode quebrar essa indecifrável corrente de fé, como hoje, onda há ainda muitas incertezas.

Cada um

Os meios de comunicação de nossos dias informam instantaneamente o que acontece no mundo com o Covid-19. Em meio a tantos informes temos coisas que não oferecem lógica. A ciência médica é muito dinâmica, e o ritmo do aprendizado de uma pandemia repleta de incógnitas exige abertura constante a novas constatações. O exército de atendimento aos pacientes do coronavírus torna-se mais heróico diante das incertezas. Os preceitos baseados na defesa contra a moléstia que nos abala já apresentam resultados, embora não definitivos. A postura de cada indivíduo; uso de máscara, distanciamento e higiene das mãos e objetos comuns, são racionalmente aceitos. Eles definem como cada um deve comportar-se, evitando acumulações. Esta consciência concretiza o principal aliado da resistência: a compaixão, de coração e inteligência.

Arroubos

Também é realidade o aparecimento de inimigos da vida. São os desalmados corruptos que enganam o povo na compra de medicamentos, os que sobrepõem descontroladamente os interesses patrimoniais à extrema urgência de socorro aos doentes, a idolatria partidária e tantos outros desvios. Os arroubos tendem inverter prioridades. A serenidade possível exige intransigentemente o respeito à vida e à morte. São dois instantes que se tocam, como diz a advertência nos antigos relógios da Europa: “Omnia vulnerant, ultima necat” (todas as horas ferem, mas a última mata). Por isso, a primeira atitude humana agora (e sempre), deve ser a cooperação, acima de apetites políticos já fragorosamente rebaixados; é esta - verdadeira vertente social – a compaixão.

Os índios

Mesmo com os modernos meios de tratar a saúde pública, hoje presenciamos o desalento no socorro às comunidades indígenas. Todos sabem que os nativos são mais vulneráveis a doenças da nova civilização. O governo brasileiro tem indeclinável dever de socorrer prioritariamente as tribos. E tem meios de resolver esse criminoso abandono.

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