Bandeira antirracista pauta manifestações em Passo Fundo

Ato em memória ao assassinato de negros veio acompanhado de pedidos de justiça

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Foto: LC Schneider/ONFoto: LC Schneider/ON
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“Tudo nela era perfeito, menos a cor”. Essa era a legenda da foto que ilustrava a matéria da Revista Manchete, semanário de ampla circulação nacional, no dia 11 de junho de 1977. À época, a estudante de Educação Física, Apelonice Lima Fuchina, foi eleita Miss Passo Fundo aos 21 anos de idade. O seu nome, no entanto, não foi homologado pelo presidente do júri, o jornalista César Romero, que questionou: “Como nossa cidade seria vista no concurso de Miss Rio Grande do Sul tendo como candidata uma pessoa de cor?”, segundo consta na matéria assinada pela repórter Marina Wodtke. Mais de três décadas depois do caso, que ganhou repercussão internacional, Apelonice estava entre os 150 manifestantes que marcharam, no domingo (22), erguendo a bandeira antirracista no município. 

No segundo ato local desde o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, às vésperas do Dia da Consciência Negra em um supermercado de Porto Alegre, a morte de Gustavo Amaral, engenheiro eletricista negro assassinado por um policial militar há 7 meses em Marau, também foi lembrado pelos militantes que, reunidos em círculo na Praça da Mãe, fizeram um minuto de silêncio em memória das vítimas. “Precisamos tomar as ruas. Precisamos nos manifestar. É importante ressignificar o dia 20 [data que lembra a morte de Zumbi dos Palmares, líder negro que lutou para a libertação dos escravos no Brasil] reforçando a importância de termos um projeto antirracista”, disse a educadora integrante da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF), Edivânia Rodrigues da Silva.  

O espancamento seguido de morte, ocorrido na capital gaúcha, ressoa como expressão máxima do racismo institucional, segundo observou o sociólogo e professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), Frederico Santos dos Santos. “Quando acontece no exterior eu desloco o problema para o outro. Quando acontece na nossa sociedade, implica em rever os nossos posicionamentos e preconceitos”, ponderou o docente especialista em antropologia e estudioso das temáticas raciais. “É importante pensar que há o racismo estrutural que faz com que um sujeito branco que tenha comportamentos e práticas parecidas com o que ele cometeu não tenha o mesmo tratamento que ele recebeu”, prosseguiu Santos. "É racializar a ponto de eliminar. Puni-lo e julga-lo ali a ponto de exterminá-lo", explicou o sociólogo.  

Na década de 1970, Apelonice foi impedida de receber a faixa de Miss Passo Fundo por ser uma mulher negra. Foto: LC Schneider/ON


“Uma negra pode ser Miss?” 

Esse recorte de raça aludido pelo professor começou a ficar mais claro para Apelonice após ela ter descido da passarela para aguardar, nos bastidores, a definição do concurso de beleza junto a outra candidata negra e mais 14 postulantes à faixa. “Não senti uma diferença porque não estava com os olhos tão aguçados com essa malícia”, contou ela à reportagem do jornal O Nacional na segunda-feira (23). Na matéria da Revista Manchete, que logo no título interroga: “Uma negra pode ser Miss?”, a passo-fundense é descrita como uma “jovem de medidas esculturais”. Afirmação é corroborada por Apelonice ao lembrar daquele dia. “A princípio, não aceitei o convite para participar porque achei que era algo fora dos meus parâmetros. Me assustei um pouco porque nunca tinha pensado nisso para mim. A minha intenção era estudar e ser alguém na vida porque é por aí que a gente melhora”, afirmou.  

À época, o caso repercutiu no exterior e foi pauta em um dos principais semanários do país: a Revista Manchete. Foto: Arquivo/Biblioteca Nacional


A preparação para o desfile, segundo recordou, envolveu uma intensa jornada de aulas de passarela, cuidados pessoais e desenvolvimento intelectual “para estar à altura de um concurso de Miss”. “Faz mais de 40 anos e eu não consigo esquecer. É uma dor sem marca de sangue. Se eu te disser horrível, não estou dizendo a metade do que foi”, atestou. Sob vaias do público, a decisão do júri de dar a faixa de Miss Passo Fundo à segunda colocada, uma jovem branca, para que a cidade estivesse “bem representada” na etapa estadual repercutiu no exterior e Apelonice recebeu cartas remetidas por Embaixadas de diversos países. “Como tomou uma repercussão internacional, eles tentaram se redimir. Não pelo que fizeram, mas para não ficar feio”, observou ela que, agora, preside o Centro de Apoio e Desenvolvimento do Negro na cidade. “Foi então que eu comecei a ver toda a luta que a gente teria dali para frente porque Passo Fundo é uma cidade extremamente racista”, asseverou.  


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