A vida às vezes prega peças e situações acabam acontecendo que mudam a forma de ver e enxergar o mundo. A história de Luiz Fernando Kramer Pereira Neto é de sucesso no campo profissional como advogado, professor e presidente da Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPF), e também na vida familiar, casado com Mariane e pai de Martina e Miguel. Porém esse mundo se modificou em 2019 quando recebeu o diagnóstico de insuficiência renal crônica. A partir daí Luiz Fernando conta que iniciou uma batalha, mas que teve um final feliz.
Pereira Neto descobriu a doença quando fazia exames de rotina. “Nos exames comecei a investigar e cheguei ao diagnóstico que estava com insuficiência renal crônica, passei por seis meses de tratamento medicamentoso e depois entrei em diálise em fevereiro de 2020 quando já estava iniciando a pandemia. Nesse mesmo período aproveitei para fazer vários exames pré-transplante já para entrar em lista de doação”, explicou.
Durante cerca de três anos e meio Luiz Fernando esteve na lista para receber doação de órgão e realizava três sessões de hemodiálise por semana no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), sempre acreditando que um dia conseguiria fazer o transplante. “Ao entrar na lista de doação de órgãos do Hospital de Clínicas em Porto Alegre, optei por um dos três centros transplantadores da capital por entender que eles faziam mais transplantes, aí fui fazendo tratamento”, diz.

PRF ajudou para deslocamento rápido
Em janeiro de 2023 Luiz Fernando foi chamado pela primeira vez a Porto Alegre com a possibilidade do transplante, assim como no início do mês de maio, mas nas duas oportunidades não se realizou. “Depois que é chamado você concorre, tanto é que em janeiro perdi esse transplante para Santa Maria. Voltei embora, aí no início de maio veio outra oferta, fui a Porto Alegre e não consegui, até que no dia 31 de maio me chamaram novamente e fui contemplado”, conta.
Quando recebeu a notícia que poderia receber o transplante, Pereira Neto solicitou ajuda da Polícia Rodoviária Federal de Passo Fundo (PRF) para que o deslocamento ocorresse de forma mais rápida, já que o tempo é muito importante para o sucesso do transplante. “Acabei tendo que viajar em horário de pico, a BR 386 está em duplicação com vários bloqueios, então contei com a ajuda da PRF, onde publicamente agradeço pela presteza. Cheguei em tempo recorde e isso permitiu que o período de isquemia não passasse de 15 horas, isso foi determinante porque com traumas que passei, o órgão foi preservado e estou com o rim em pleno funcionamento também por isso”, afirmou.
Os policiais rodoviários, Dina Paula Muller e Rudimar Pavão Segala, foram os responsáveis pelo deslocamento de Pereira Neto e sua esposa. “Nesse caso de urgência era mais seguro eles irem conosco no carro do que estar escoltando porque ao tentar acompanhar a velocidade poderiam se envolver em um acidente. Então é muito gratificante saber que deu tudo certo, que a ação valeu a pena de chegar o mais rápido possível, porque cada minuto conta”, disse Segala.

Bandeira de luta
Luiz Fernando conta que a vida se transformou, onde pode conhecer histórias de pessoas que vinham de locais distantes em busca de tratamento em Passo Fundo ou de pessoas que após a cirurgia sofrem preconceito no mercado de trabalho. Além disso, pode conferir de perto como a doação de órgãos salva vidas. “Para mim já tem sido uma bandeira, começamos uma campanha permanente de doação de órgãos na FUPF e o que estiver na minha área de atuação vou fazer. O índice de doação é muito baixo, talvez por influência religiosa ou falta de se declarar aos seus familiares o que ajudaria a família nesse momento de decisão. Pelo que sei não há associação de transplantados, então vou começar a aglutinar os transplantados para tentar chegar nas pessoas e conscientizar sobre a importância da doação de órgãos”, disse,
Agora após um mês de transplante Luiz Fernando destaca que já se sente muito melhor. “Por toda a vida vou precisar tomar remédios imunossupressores, mas a qualidade de vida é incomparável, já me sinto muito melhor”, finalizou.
Doença renal crônica
A investigação sobre doença renal deve ser feita pelo exame de creatinina que avalia se os rins estão funcionando adequadamente. De acordo com o médico nefrologista Perícles Sarturi responsável técnico da Terapia Renal Substitutiva do HSVP, quando o paciente é portador de doença renal crônica tem opções de tratamento, como a hemodiálise e a diálise peritoneal. “Na hemodiálise você retira o sangue do paciente, passa em um filtro e ele tira as impurezas do organismo, atuando como se fosse os rins. Outra opção de tratamento que a gente tem é o transplante renal, que pode ser feito por doador vivo e não vivo, quando o doador é vivo geralmente quem pode doar é um familiar muito próximo, como pai e irmão, quando o doador é não vivo o indivíduo faz a sua inscrição na central de transplante do Rio Grande do Sul e entra em uma lista de espera”, explica.
A lista é administrada pela Central de Transplantes que obedece a critérios pré-estabelecidos pela câmara técnica da central que tem médicos experts em transplantes atuando com paramentos que devem ser seguidos.
Atualmente, no Serviço de Terapia Renal Substitutiva do HSVP, 200 pacientes estão em hemodiálise e mais de 50 pacientes realizam diálise peritoneal. O local é referência para o atendimento de mais de 60 municípios, ou seja, de uma população superior a meio milhão de pessoas.
Casos que precisam de transplante cresceram após a pandemia
Conforme o médico Sarturi, a pandemia prejudicou muito o diagnóstico e tratamento de doenças. “Com a pandemia em 2021 e 20222 a mortalidade de pacientes que tiveram Covid e que eram transplantados foi muito grande chegou aproximadamente a 30% dependendo o local, enquanto a população em geral ficou em torno de 3%, dependendo da região do Brasil. Então a gente não realizou mais transplante em razão do risco que corria se o paciente tivesse Covid, o que fez com que basicamente parasse o transplante de órgãos no Brasil inteiro”, contou.
Com o fim da pandemia, muitas pessoas estão tendo o diagnóstico da doença o que faz com que aumente a lista de espera para um transplante e também a demanda por tratamento. A hemodiálise do HSVP, que antes operava em três turnos, hoje trabalha em quatro turnos, para que possa atender a demanda de pacientes. “O número de pacientes portadores de doença renal crônica tem aumentando progressivamente, isso é muito preocupante porque não está se tendo estrutura para tudo isso que está chegando, grande parte disso envolve medicina de alto custo, depende do SUS e existe problema com relação a atualização dos custos, então tem muitas unidades privadas que estão fechando e esses pacientes estão vindos para os hospitais que tem um recurso do estado. Isso está gerando um problema sério em nível nacional”, afirmou.
Menos espera e mais transplantes
Uma alternativa para desafogar o sistema seria a realização de mais transplantes. “Uma das soluções é fazer transplante de órgãos que, apesar de todos os riscos, melhora muito a qualidade de vida dos pacientes, onde ele deixa de depender da hemodiálise três vezes por semana, ficando 4h aqui no hospital. Já estamos com 4º turno, imagina uma pessoa que vem de Marau começa a sessão à meia noite e termina às 4h três vezes por semana, o sacrifício que envolve. Então está muito difícil para a nefrologia administrar toda essa problemática que está acontecendo”, finalizou o médico.



