A fé nas benzedeiras

Falta de interesse das novas gerações, em aprender os segredos do ofício, sinalização para redução da prática do benzimento

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Ao retornar da praia, Elen da Silva Britto Soares, 31 anos, percebeu o surgimento de manchas vermelhas espalhadas pelo corpo do filho, de 8 anos. Preocupada, logo tratou de buscar ajuda de um especialista. O pediatra examinou o menino e, sem conseguir diagnosticar de imediato o problema, solicitou alguns exames complementares.


Antes mesmo que a ciência pudesse dar uma resposta precisa para o problema do menino, ela decidiu, pela primeira vez, buscar ajuda longe de um consultório médico. No mesmo dia, acompanhada da mãe, e de seus dois filhos, o mais velho de 11 anos, partiu em direção ao bairro São José, conforme indicação de uma amiga.

 

Mesmo com todo o avanço da medicina; o desenvolvimento de novos medicamentos, equipamentos e formas de tratamento, a crença no poder de cura das benzedeiras segue sendo uma alternativa para o enfrentamento das enfermidades. No entanto, a falta de interesse das novas gerações em adquirir esta sabedoria popular passada pelos mais velhos através da oralidade, sinalia para uma redução significativa do número de adeptos da prática em Passo Fundo.

 

O destino de Elen naquela tarde, era a casa verde de nº 10, encravada ao lado da RS 135, saída para Erechim. Ali mora dona Marlena Pires Canabarro, uma das benzedeiras mais tradicionais daquela região. O poder de suas rezas e plantas medicinais ganharam fama. O boca a boca se espalhou entre a comunidade e cidades da região. Para dar conta do número de pessoas que batem à sua porta diariamente em busca de algum tipo de ajuda, ela teve de adaptar completamente sua rotina de vida.

 

Natural do município de Sertão, Marlena aprendeu os segredos da cura com a avó. “Me interessei quando vi que as crianças que ela benzia ficavam calmas”, recorda. Antes de receber os ensinamentos, ela precisou fazer um juramento que mantém até os dias de hoje: o de nunca receber dinheiro pela benzedura. Segundo a crença, aceitar pagamento enfraquece o poder da cura. “Aceito algum presente se a pessoa quiser dar, ou algo para comer, dinheiro eu sempre devolvo. A vó me fez jurar que não pegaria”, revela.



Casada e mãe de três filhos, Marlena vive apenas com o marido na casa de alvenaria. Aos 73 anos, ela cumpre diariamente uma rotina rigorosa que só se altera no fim de semana, quando tira o sábado e o domingo para descansar. Para atender uma média de até 20 pessoas por dia, inclusive vindas de cidades vizinhas, acorda às 6h45min, faz todo o serviço da casa e, por volta das 8horas, começa a benzer.



Os primeiros dividem espaço em um sofá e cadeiras espalhadas pela pequena sala. Os demais aguardam no lado de fora, em fila ou sentados no muro da área. Uma rápida conversa para identificar o problema e o ritual místico começa. Usando rezas do catolicismo e pequenos ramos de plantas retiradas dos vasos e do quintal, que ela mesma cultiva, Marlena sussurra palavras e gesticula em torno da pessoa. Para cada problema, uma reza e uma planta diferente.

 

A lista inclui: rendidura, bichas, erisipela (doença caracterizada por feridas avermelhadas, inflamadas e dolorosas na pele), quebranto, mau-olhado, também conhecido por olho gordo, dor de cabeça, de ouvido, insolação, e tantas outras.

 

Há 18 anos cumprindo o ofício de benzedeira, Marlena acumula centenas de histórias de cura. Uma delas, em especial, envolveu um padre. “Ele veio de Santa Catarina e se hospedou no seminário aqui do bairro. Tinha erisipela, benzi ele sete vezes, lavei com erva-santa e saiu curado daqui”, conta, com uma voz baixa e tranquila. Até o marido de Marlena está na lista das pessoas beneficiadas com sua sabedoria.

 

- Ele sofreu três acidentes e se curou com benzimento e plantas. O médico ficou impressionado com a recuperação e queria saber o que tinha usado. Apenas respondeu e que não revelaria o segredo.

 

Assim que Elen deixa a sala, com os dois filhos e a mãe, prometendo voltar no dia seguinte para dar seguimento ao benzimento do menor, e desejando saúde para que Marlena continue fazendo o bem, chega a vez de Luís Antônio Rodrigues, 54 anos, ser atendido. Funcionário da construção civil, é lá que ele busca ajuda toda vez que sente dores nas costas provocadas pelo levantamento excessivo de peso. “Quando acontece venho direto pra cá. Sei que tem a salvação. Melhoro 100%, não tem erro. Médico não resolve este problema de rendidura. Já fui pro pronto socorro, gastei R$ 200 em remédios e nada. Na primeira vez, minha mãe me disse.

 

- Vai lá que ela tira com a mão.

 

- E tira mesmo, confirma.

 

Além de benzer, Marlena também indica ervas para chá. “Se a pessoa tem fé, ajuda muito. Este é o segredo. O que cura é a fé” afirma. Assim que a tarde começa a cair, o fluxo de pessoas na casa vai diminuindo. Além da promessa de não receber dinheiro, ela também segue à risca outra regra aprendida com a avó: não benzer durante à noite.

 

*Leia a matéria completa na edição impressa deste final de semana.

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