Coluna: O Barco

Por Pablo Morenno

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· 2 min de leitura
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Meu fascínio pelo mar ancorou um barco em minha sala. O barco tem o corpo de cedro e se orgulha de suas alvas velas de lona. Neste planeta - onde todos os mares são conhecidos - parece ter pouca utilidade um barco, me dizem. Mas um barco sempre há de ter um cais em minha casa para me encorajar no enfrentamento de novos mares, no desvelar de mundo.
Léo tinha seis anos. Morávamos no mesmo edifício. Desde que começou a engatinhar encandeou-se com o barco. Em suas visitas, tomava o veleiro no canto da sala e o colocava sobre o tapete azul. No pequeno gesto de Léo, o tapete realizava seu sonho de ser oceano.

No início, tive medo. Ele poderia quebrar o barco; talvez, ferir-se. Soprava para fazer o vento nas velas, movia as mãos e os braços para imitar as ondas e os abria ao máximo para me mostrar um oceano bem gordo. Era seu jeito de me dizer “quero brincar com o barco no mar”. Como dizer “não” àqueles olhos tão cheios de encanto?

Embora com medo, um dia aceitei marujar. Léo, eu e o barco sobre o tapete-mar azul. Uma tempestade, tubarões e monstros. Léo quis apagar a lâmpada. Uma réstia do abajur era o único farol na noite. Algo grave acontecia. Eu tentava entender. Difícil. Tentei contar-lhe que rumávamos para uma terra de índios antropófagos, mas não sabia como; precisava falar da ilha com florestas e feras, mas não soube dizer “árvore” e nem “onça”.

Para Léo a tempestade continuava forte, os tubarões rondavam o barco, monstros roncavam entre espumas. Escuridão. Tempestade era Léo soprando forte e movendo o barco. Tubarão era suas mãos e dedos fazendo dentes. Monstro era uma careta bem feia. Eu observava sem poder participar. Sabendo dos perigos, olhei para o menino mostrando apavoramento. Então, Léo me deu um abraço para dizer “estamos juntos, não tenhas medo”.

Talvez ele nem percebesse, meu medo não era dos perigos imaginários de seu mar. Eu estava com medo de minha ilha com índios antropófagos guardando tesouros e onças dentuças rugindo na mata. Entre mim e ele havia um grande mar. Meu medo era por não saber navegar até o mundo de Léo.
Com o tempo, Léo me ensinou os segredos do mar e do barco. E aprendi a contar-lhe sobre os índios antropófagos, sobre a onça e sobre a floresta. Léo me explica que os índios são amigos da gente, que a onça - como em Max e os Felinos do Scliar - poderá nos salvar dos tubarões e dos monstros, que a floresta está na florada das bromélias.

Com o tempo, Léo e eu fomos nos entendendo. Quando me via, tocava o lado esquerdo do peito e simulava um abraço. Se ganhava um brinquedo ou uma roupa nova, vinha me mostrar com a alegria nos olhos. Léo, deficiente auditivo, ao retirar meu barco do canto da sala, com ele retirou meu medo de terras desconhecidas. Trocamos um barco por uma ponte. Uma das muitas esperando construção.

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