Dos livros para os palcos

Teatro do Sesc Passo Fundo recebe as peças ?EURoeRosa dos Rumos?EUR? e ?EURoeTraga-me a cabeça de Lima Barreto?EUR?, livremente inspiradas nas obras de dois importantes autores brasileiros

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Histórias consagradas na literatura brasileira podem ser revisitadas, neste fim de semana, pela linguagem dos palcos. Nas noites deste sábado e domingo, entram em cena no Teatro do Sesc Passo Fundo peças livremente inspiradas nas obras de renomados autores do país. A primeira apresentação, “Rosa dos Rumos”, do Grupo Ritornelo de Teatro, tem como ponto de partida os textos de João Simões Lopes Neto. Já a peça apresentada pelo grupo carioca Cia. dos Comuns, “Traga-me a cabeça de Lima Barreto”, toma como livre inspiração a obra do escritor que dá nome à montagem.

Rosa dos Rumos

Os elementos acrobáticos, musicais e de palhaçaria que marcam a peça “Rosa dos Rumos”, do grupo passo-fundense Ritornelo, tomam conta de um palco de teatro tradicional, neste sábado (28), pela primeira vez. Apresentada inicialmente como um espetáculo de rua, a peça é uma deliciosa farsa que trata da cultura e identidade do povo gaúcho a partir da obra de João Simões Lopes Neto. Conforme o grupo descreve, ao trazer para o centro da narrativa diversas situações peculiares ao povo rio-grandense, o espetáculo visa contribuir para o fortalecimento da identidade cultural regional. A apresentação acontece a partir das 20h. Os ingressos custam entre R$ 12 e R$ 30 e podem ser adquiridos no local.

Considerando o propósito da peça, certamente, a escolha da bibliografia na qual a montagem se baseia não se dá ao acaso. Nascido em Pelotas em 1865, o escritor e empresário João Simões Lopes Neto carregava a valorização da história e tradição gaúcha como um dos principais pilares em sua produção literária, motivo pelo qual o pelotense é, até hoje, considerado por diversos estudiosos e críticos da literatura como o maior autor regionalista do Rio Grande do Sul.  Em “Rosa dos Rumos”, o grupo mescla a adaptação de três contos de Simões. O “Trezentas onças”, narrativa na qual Blau Nunes descreve o momento em que perde o dinheiro do patrão e divaga sobre sua relação com o trabalho, a vida e o Rio Grande; “O Boi Velho”, sobre a história de dois bois carreteiros, Dourado e Cabíuna, que sempre trabalharam juntos e tentam reivindicar mais direitos; e “Jogo do Osso”, que narra uma disputa entre Osoro e Chico Ruivo durante uma partida do jogo do osso e reflete acerca das consequências de se apostar tudo. É dentro destas fábulas, inseridos na cultura popular gauchesca, que os personagens resgatam temas ligados à identidade e memória do povo rio-grandense.

Criada em 2017, a montagem permanece tendo em cena seu elenco original: os atores Carlinhos Tabajara, Miraldi Junior, Guto Pasini, Jandara Rebelatto e Ricardo Pacheco. A peça conta também com figurinos de Betinha Mânica e dramaturgia de Miraldi Junior. O curioso é que, embora tenha estreado há mais de dois anos, “Rosa dos Rumos” nunca havia ganhado uma segunda apresentação – até agora. “Nós apresentamos a peça somente uma vez, na estreia dela lá em 2017, e não conseguimos dar sequência. Estamos retomando agora e quisemos levar para o palco do Sesc porque tínhamos o desejo de poder experimentar alguns recursos de iluminação que, na rua, não temos disponível. Essa é a única adaptação que foi feita em relação à montagem apresentada na estreia”, explica o ator Miraldi Junior.

Apesar da pequena modificação, Miraldi garante que a essência de rua – uma característica bastante latente no trabalho do Grupo Ritornelo de Teatro – permanece, assim como o espírito de teatro popular. “E, na verdade, é uma peça pronta para todos os espaços. Vamos rodar tanto nos palcos quanto nas ruas, porque desde que criamos ela nós já tínhamos a ideia de levar para várias comunidades, como fazemos com Faixa de Graça. Por isso, para o ano que vem, quando comemoramos dez anos de Ritornelo, já temos apresentações programadas em dois bairros e ainda pretendemos ampliar este número”, esclarece.

Traga-me a cabeça de Lima Barreto

Inspirada livremente na obra de Lima Barreto, especialmente em “Diário Íntimo” e “Cemitério dos vivos” (ambos publicados postumamente), “Traga-me a cabeça...” é um monólogo teatral que reúne trechos de memórias impressas em suas obras, entrecruzadas com livre imaginação. A apresentação, que ganha o palco do Sesc neste domingo (29), às 20h, por meio do projeto Palco Giratório Sesc, é uma criação da Cia. dos Comuns. Os ingressos custam entre R$ 12 e R$ 30 e podem ser adquiridos diretamente no Sesc.

Nesta montagem, o texto fictício tem início logo após a morte de Lima Barreto, quando eugenistas exigem a exumação do seu cadáver para uma autópsia a fim de esclarecer “como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias - romances, crônicas, contos, ensaios e outros alfarrábios - se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores?”. A partir desse embate com os eugenistas, a peça mostra as várias facetas da personalidade e da genialidade de Lima Barreto – desde a vida, a família, a loucura, o alcoolismo, a convivência com a pobreza, a obra não reconhecida, o racismo, até as lembranças e tristezas do escritor carioca.

Nascido em 1881, Barreto foi um dos principais escritores do pré-mordenismo brasileiro. Como cronista, romancista e jornalista, aprofundou-se principalmente em temáticas anarquistas e sociais. Entre elas, a discussão acerca de preconceitos enraizados na sociedade fez-se muito presente, assim como no trabalho da Cia. dos Comuns, responsável pela montagem. Fundada em 2001 pelo ator Hilton Cobra, o grupo é por atrizes e atores negros, que carregam a missão artística e política de desenvolver uma pesquisa teatral negra que possibilite maior conhecimento da cultura brasileira, além de estimular o apuro técnico e ampliação do espaço de atuação profissional de artistas e técnicos negros no mundo das artes cênicas.

 

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