O piano está silente. As notas que dele saíram, fluidas e melodiosas, dão lugar ao vazio do luto. Sem colcheias, semínimas ou semibreves, apenas uma pausa infinita. É assim que o instrumento de trabalho de Miguel Proença recebe a notícia de sua morte. O pianista gaúcho de renome internacional faleceu na sexta-feira (22), aos 86 anos. Ele estava internado desde junho no Hospital São Vicente, na Gávea, bairro do Rio de Janeiro. Proença teve falência múltipla de órgãos.
Música erudita
Nascido em Quaraí, na fronteira com o Uruguai, Miguel Proença ganhou o mundo à frente de um piano. Foi um dos grandes porta-vozes da música erudita brasileira na Europa, Ásia e América do Norte. Lecionou na Alemanha e no Rio de Janeiro e deu enorme contribuição para a música erudita brasileira. “Ele foi um pianista maravilhoso. Ele tinha uma visão da música brasileira quando não se tinha”, explica o Gerente Executivo de Rádios da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Thiago Regotto. “Como ele conviveu com parte dos grandes compositores, com Villa Lobos, com Camargo Guarnieri, com Radamés Gnattali, ele sabia na fonte qual era a importância da música brasileira de concerto. E ele gravou esses compositores e essas gravações circularam o mundo. Então, ele foi um dos pianistas responsáveis por levar a música brasileira de concerto para o exterior”, acrescenta.
Duas paixões
“O primeiro contato com a música se deu quando ouvi pela primeira vez o som de um piano, passeando com minha mãe, vindo de um casarão, na minha cidade natal. Foi paixão à primeira vista”, disse o músico, em entrevista concedida ao Instituto do Piano Brasileiro, em 2016. Começou a estudar piano aos 15 anos e, anos mais tarde, passou a dividir suas atenções entre a música e o curso de odontologia. Mas foi outra paixão que o motivou a seguir carreira no piano e largar os consultórios. Apaixonou-se pela também pianista Marly Lisboa. E incentivado por ela, aprofundou seus estudos no piano e uniu as duas grandes paixões. Tornou-se um grande pianista e casou-se com Marly. O casamento ocorreu na Alemanha, onde tinha bolsa de estudos garantida pelo governo daquele país.


