Reconstrução mobiliza comunidade após forte temporal em Erechim

Município enfrenta danos generalizados, intensifica atendimento à população e recebe reforço do Estado e de cidades vizinhas

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Ao menos 12 pessoas seguem desabrigadas - Foto: Luiz Carlos Schneider/ONAo menos 12 pessoas seguem desabrigadas - Foto: Luiz Carlos Schneider/ON
Ao menos 12 pessoas seguem desabrigadas - Foto: Luiz Carlos Schneider/ON
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Erechim enfrenta, desde a tarde de domingo (23), as consequências de um dos eventos climáticos mais severos dos últimos anos. O temporal de granizo atingiu praticamente todos os bairros, deixando 8.114 famílias e 32.456 pessoas afetadas, segundo dados oficiais da Defesa Civil. Ao menos 162 moradores ficaram feridos, sete permanecem internados e 12 pessoas seguem desabrigadas. Casas tiveram os telhados destruídos, estabelecimentos não abriram as portas, vias ficaram bloqueadas e serviços essenciais sofreram interrupções. O foco agora é a reconstrução, em um esforço conjunto entre a estrutura municipal, Estado, cidades vizinhas e uma ampla rede de solidariedade da comunidade.

A tempestade começou por volta das 17h e durou cerca de oito minutos, tempo suficiente para causar estragos significativos. Moradores relataram pedras de granizo de aproximadamente cinco centímetros, que perfuraram telhados, danificaram veículos e comprometeram redes elétricas.

Situação de emergência

Ainda no domingo, a Prefeitura decretou Situação de Emergência. O documento permite agilizar processos de compra, reforçar a mobilização de equipes públicas e voluntárias, autorizar uso temporário de propriedades privadas para ações emergenciais e organizar medidas de resposta, assistência humanitária e reconstrução.

O prefeito Paulo Polis instalou uma sala de situação na central do Grupo de Resposta a Atendimento de Urgência (GRAU) para coordenar as ações. Ele afirmou que o trabalho das equipes se divide entre atendimento imediato e levantamento oficial dos danos.

“Colocamos toda a estrutura do município em operação. A prioridade, neste momento, é garantir proteção provisória para as famílias. Estamos distribuindo lonas, fazendo o cadastro das residências atingidas e organizando o processo de aquisição e distribuição de telhas. O impacto foi muito amplo, atingindo praticamente toda a cidade, e isso exige agilidade e coordenação. Nossa responsabilidade é chegar a cada família, sem deixar ninguém para trás.”

Polis também detalhou o atendimento às famílias. “Nós acolhemos cerca de 20 famílias em abrigos provisórios preparados pelo município, incluindo o Abrigo Cidadão e espaços estruturados em parceria com um hotel. A maior parte das pessoas prefere permanecer em suas residências para organizar o que é possível. Cerca de cem famílias procuraram atendimento nas emergências por ferimentos causados por estilhaços ou quedas. Um jovem está na UTI após cair do telhado enquanto fazia reparos. Felizmente, não houve mortes relacionadas ao evento.”

Sobre os serviços essenciais, ele afirmou: “Recuperamos entre 70% e 80% da rede de energia e já restabelecemos quase 90% do abastecimento de água. Agora entramos na etapa mais delicada, que é a recuperação dos telhados. Garantimos a chegada de lonas — foram mais de 40 caminhões — e, a partir de quarta-feira, iniciaremos o levantamento detalhado das famílias nos bairros, diretamente nos locais afetados.”

Atendimento e centralização dos serviços

Com a alta demanda, a Prefeitura concentrou a distribuição de lonas na sede do GRAU, na Avenida Caldas Júnior. Brigada Militar, Corpo de Bombeiros e outras forças reforçaram a entrega em pontos específicos.

O coordenador municipal da Defesa Civil, Ronaldo Mânica, afirmou que toda a cidade foi impactada e que o trabalho segue sem interrupção.

Equipes de Passo Fundo, Getúlio Vargas e outros municípios se deslocaram para Erechim, auxiliando na distribuição de lonas, no atendimento às famílias e na avaliação de danos.

Saúde e serviços essenciais

A Unidade Municipal de Referência em Saúde (UMRS) reforçou o atendimento até às 23h, priorizando os ferimentos relacionados ao granizo. O Hospital Santa Terezinha suspendeu cirurgias eletivas e orientou que apenas casos de urgência sejam encaminhados, após parte da estrutura ser comprometida.

O abastecimento de água também foi afetado. Danos elétricos interromperam a captação e o tratamento, e bairros como Jaboticabal, Paiol Grande, Três Vendas e Cristo Rei registraram baixa vazão. Três caminhões-pipa da Corsan foram mobilizados para abastecer hospitais e serviços essenciais. A empresa informou que equipes de cidades vizinhas trabalham na manutenção para normalizar o sistema.

As aulas nas redes municipal, estadual e em escolas privadas com vagas compradas pelo município seguem suspensas devido aos danos estruturais.

Estado reforça ações e anuncia recursos

O governador Eduardo Leite determinou o envio imediato de equipes da Defesa Civil Estadual. Ele visitou o município e autorizou o repasse emergencial de R$ 1,5 milhão ao Fundo da Defesa Civil de Erechim para a compra de telhas destinadas às famílias mais vulneráveis. “As primeiras ações foram voltadas ao atendimento emergencial, distribuição de telhas, apoio às famílias mais afetadas e reorganização dos serviços essenciais. Fizemos um repasse emergencial para auxiliar na recuperação das coberturas das casas. Este é apenas o primeiro aporte; outros serão feitos conforme o levantamento das necessidades. Já temos mais de sete mil famílias cadastradas, além daquelas que ainda não procuraram o poder público, e estaremos ao lado de todas elas”, ressaltou o governador.

O coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil, coronel Luciano Chaves Boeira, está no município desde as primeiras horas após o evento, articulando ações de suporte e monitoramento.

Dimensão do impacto

O jornalista de O Nacional, Luiz Carlos Schneider, esteve em Erechim na tarde de segunda-feira e relatou o cenário ao chegar: “Na entrada da cidade, dos dois lados da rodovia, entre 20% e 30% das casas estão cobertas com lonas. A cidade está silenciosa. Quatro restaurantes fechados, apenas um abriu e estava lotado. Um garçom me disse que precisava estar em casa terminando de cobrir o telhado.”

Comerciantes e moradores também descreveram os desafios

Cristian Tacca, sócio de uma churrascaria no Centro, falou da situação em Erechim. “O centro amanheceu complicado. Todo mundo tentando achar lona ou manta asfáltica. Perdemos todo o telhado. Conseguimos comprar material, mas não sabemos quando chega.”

Olanda Ribeiro, 77 anos, lembra do drama vivido durante o temporal. “Perdi todo o telhado. O forro caiu, as roupas molharam, a comida também. Me protegi debaixo da mesa.”

Estruturas públicas e serviços atingidos

O levantamento preliminar da Prefeitura aponta que diversos prédios públicos também foram afetados pelo temporal. Ao todo, 15 escolas municipais e 20 escolas estaduais registraram danos estruturais. Na área da saúde, 12 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 3 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) sofreram impacto direto, além da própria Secretaria Municipal de Saúde. Os serviços de assistência social também foram atingidos, com três CRAS danificados.

No sistema elétrico, a RGE informou que 326 clientes permaneciam sem energia até o fim da tarde de segunda-feira. Para reforçar o trabalho de reparo, 25 equipes externas foram deslocadas de Nova Prata, Lagoa Vermelha, Palmeira das Missões e Passo Fundo para atuar em Erechim.

Reconstrução

O comandante dos Bombeiros, Alessandro Bauer, reforçou que os moradores evitem subir em telhados sem equipamentos adequados. “Esse é um momento muito crítico. Temos visto pessoas sem condição física ou equipamentos apropriados tentando fazer reparos, o que tem resultado em quedas e casos graves. A reconstrução precisa ser feita com segurança”, alertou.

A próxima etapa envolve o cadastramento detalhado dos danos, a aquisição de telhas para reposição emergencial e a reorganização dos serviços públicos. A normalização do abastecimento de água, o restabelecimento da energia elétrica e a reabertura de escolas e comércios dependem de reparos estruturais.

A expectativa é que os trabalhos avancem nos próximos dias, conforme as condições climáticas se estabilizem e os materiais cheguem aos pontos de distribuição. A orientação geral à população é para manter a calma, seguir as instruções da Defesa Civil e evitar riscos.

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