OPINIÃO

Eu falei com Malba Tahan

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Em outubro de 1948, Julio Cesar de Mello e Souza (1895 - 1974), professor e escritor que se consagraria no Brasil sob o pseudônimo de Malba Tahan, esteve em Passo Fundo. Veio a convite do Grêmio Passo-Fundense de Letras (atual Academia Passo-Fundense de Letras). Durante três noites as dependências do Clube Caixeiral, na Rua Bento Gonçalves, lotaram para assistir as falas do renomado conferencista.

Julio Cesar de Mello e Souza era engenheiro civil. Filho de um casal de professores do Rio de Janeiro. Tinha, desde estudante, vocação para o ensino. Criou o heterônimo Malba Tahan em 1925, quando publicou o livro “Contos de Malba Tahan”. Construiu o personagem Malba Tahan, sem nunca ter estado no Oriente. Foi autor da biografia fictícia de Malba Tahan, julgada verdadeira por muitos, e inventou um tradutor, o professor Breno Alencar Bianco, heterônimo que assinava as apresentações e as notas de rodapé.

Malba Tahan era um “homem show”. Suas aulas e palestras eram repletas de tiradas bem-humoradas e atraiam público. Seus livros eram sucesso de vendas. Escreveu e publicou muito: mais de 100 livros (crônicas, contos e ensino da Matemática). O meu preferido é “O homem que calculava”. O livro que, hoje, com mais de 80 edições pelo Grupo Editorial Record e traduções para vários idiomas, confirmaria o vaticínio de Monteiro Lobato: "obra que ficará a salvo das vassouradas do tempo como a melhor expressão do binômio ciência-imaginação.

Quem leu “O homem que calculava” não tem como se esquecer do algebrista persa Beremiz Samir e sua jornada rumo a Bagdá. Entre tantas histórias, a singular repartição de 35 camelos entre três irmãos. O dilema, em apertada síntese, era cumprir o testamento cuja partilha, por vontade do falecido pai, deveria ser feita da seguinte forma: metade para o filho mais velho, uma terça parte para o do meio e a nona parte para o mais novo. A metade de 35 é 17,5. A terça e a nona partes de 35 também não são números inteiros. Repartir em pedaços um camelo para cumprir o testamento não parecia sensato. Beremiz se propõe a ajudar. E, para resolver o dilema, ofereceu juntar o seu camelo no lote de animais e assim facilitar a divisão da herança. Agora, com 36 camelos, a partilha pode ser realizada. Ao que coube a metade, são dados 18 camelos. Ao que receberia a terça parte, 12 camelos. E ao da nona parte, 4 camelos. Somados 18 + 12 + 4 resultam 34 camelos. Assim, sobraram 2 camelos. Beremiz, com essa estratégia, recebeu o seu camelo de volta e ficou com o lucro de um camelo. E todos saíram felizes!

A visita do escritor Malba Tahan a Passo Fundo incluiu o Hospital da Caridade (HC - atual Hospital das Clínicas) no roteiro. Foi no dia 20 de outubro de 1948. Durante passagem pela maternidade comandada pelo Dr. Admar Petracco, ocorria o nascimento de um menino. Filho de um casal de Cruzaltinha. O escritor que tinha um lado místico apurado (dedicava-se à numerologia, faceta menos conhecida) sugeriu ao pai que batizasse a criança com o nome de Malba Tahan. E assim se fez. Um ano depois, houve, no HC, uma cerimonia alusiva ao acontecimento. O casal Bernardo e Julia Boeira e o pequeno Malba Tahan Boeira, na ocasião, receberam do HC uma caderneta com valor em dinheiro depositado na Caixa Econômica (para alguns, doação do escritor) e do Instituto Educacional (IE) a concessão de matricula gratuita até o ensino secundário.

O casal Boeira deixou Cruzaltinha e veio para Passo Fundo. Malba Tahan foi estudar no IE. Cumpriu o primário. E com a morte do pai foi trabalhar na construção civil para ajudar a família. Nesse ramo, se destacaria como mestre de obras. Hoje, aos 72 anos, vive em Passo Fundo.

A coluna de hoje seria sobre o escritor Malba Tahan. Mas, no início da noite da última quarta-feira (3), durante conversa com o historiador Fernando Miranda, quando eu soube dessa passagem, o enredo tomou outro rumo. Mandei uma mensagem WhatsApp para o Malba Tahan passo-fundense. Minutos depois eu receberia uma amável ligação telefônica do Sr. Malba Tahan Boeira. Foi assim que, Macktub, eu tive o privilégio de conversar com Malba Tahan.

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