Uma das fases mais complexas de uma guerra é justamente a sua terminação e, por consequência, o período de reconstrução necessário para reabilitar o país, em termos de infraestrutura e até mesmo o reagrupamento de seu povo. Não há indicativos ainda de que a guerra russa contra a Ucrânia esteja no seu fim. Mas há o forte desejo pelos ucranianos na reconstrução de seu país, o que suscitou o encontro para discutir a temática em Lugano, na Suíça, ocasião em que os aliados de Kiev e diversas organizações internacionais se reuniram para falar sobre o futuro da Ucrânia. Para abrir as discussões sobre as reais necessidades da reconstrução, foi emitida a Declaração de Lugano. Projeta-se que sejam necessários cerca de 750 bilhões de dólares para reparar os danos cometidos pela Rússia, até o momento. Danos que potencialmente podem aumentar nas próximas semanas, na medida em que Moscou intensifica as suas ações no leste ucraniano. Um dos pleitos é que parte da quantia necessária seja retirada dos ativos russos congelados no início do conflito. Para além dos recursos financeiros para restaurar a Ucrânia, o maior desafio está no reagrupamento de seu povo, disperso em diversos países, sem contar os crimes de guerra cometidos contra civis, que não podem ser reparados.
Os princípios de Lugano
A declaração buscou concentrar quais seriam os princípios necessários para a reconstrução da Ucrânia, com a participação de mais de 40 países na conferência. Também participaram do esforço algumas instituições financeiras como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Entre os princípios estão: 1) fortalecimento das parcerias internacionais para uma efetiva coordenação do processo; 2) foco nas reformas necessárias e resiliência, tendo em vista a adesão à União Europeia; 3) transparência e esforço para erradicar a corrupção; 4) a participação democrática no processo de reconstrução; e 5) colaboração entre os stakeholders: sociedade civil, setor privado, academia e governo local. O documento ainda reconhece as perdas significativas com a guerra: catastrófica destruição da infraestrutura, escolas, hospitais, moradias, patrimônio cultural e a desestabilização completa das cadeias produtivas ucranianas e o aumento da insegurança alimentar. O primeiro-ministro ucraniano, Denys Shmyhal, estima que já são 100 bilhões de dólares em perdas, somente no aspecto da infraestrutura do país.
As dificuldades
O processo de reconstrução, como vimos em outras guerras, é amplo, complexo e demorado. As projeções trazem uma ideia vaga do que seja necessário, mas não conseguem captar o que ainda está por vir no conflito. Enquanto serão significativos os desembolsos financeiros no futuro para reconstruir o país, a economia europeia (principais aliados de Kiev) tenta se readequar no campo energético e a americana projeta até uma depressão. A reconstrução dependerá do forte engajamento dos aliados, restando incerto ainda, como Putin responderá por todos os crimes de guerra que cometeu contra a Ucrânia e como a Rússia seria forçada a reparar os danos, em todos os sentidos. No campo diplomático, as declarações são sempre mecanismos narrativos, não trazendo qualquer certeza sobre o real engajamento das potências ocidentais.

