OPINIÃO

O homem que “escuta” o trigo

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Paulo Bonato, gaúcho de Tapera, radicado, desde 1977, em Cristalina, no Estado de Goiás, é detentor de uma marca de produtividade de lavoura em trigo, obtida em 2021, na Fazenda São Nicolau, que, tudo indica, ainda, poderá levar certo tempo para ser superada no Brasil, inclusive por ele próprio. O acontecido, não poderia ser diferente, repercutiu no País e no mundo, via agências nacionais e internacionais de notícias, dando destaque ao potencial do ambiente do Cerrado do Brasil Central para a produção desse cereal. Foram, na ocasião, colhidas, com a cultivar BRS 264, 160,5 sacas por hectare de grãos de trigo (9630 kg/ha, limpos e depositados na moega da cooperativa COOPA-DF), em 119 dias de ciclo, entre a semeadura e a colheita, em lavoura irrigada de 90 ha.

Ainda que não tenha sido objeto de nenhuma certificação de algum serviço de auditoria, ao estilo Guinness World Records, esse resultado, pelo que se conhece, no Brasil, é um recorde de produtividade de trigo, em escala de lavoura; uma vez que, em parcelas experimentais, há maiores. E, se preferirmos, quando se contabiliza produção de grãos de trigo por hectares e por dia, foram 80,9 kg/ha/dia, que faz o feito se destacar ainda mais no mundo, pois, mesmo que sejam conhecidos rendimentos mais elevados, oficialmente reconhecidos pelo Guinness, como os obtidos, em 2020, de 17400 kg/ha de trigo, pelo produtor Eric Watson, na Nova Zelândia; e 17960 kg/ha, em 2022, pelo produtor Tim Lamyman, no Reino Unido, não se pode ignorar que esses recordes são com cultivares de trigo de inverno, que passam ao redor de 11 meses no campo (plantado em abril de 2019 e colhido em 17 de fevereiro de 2020, no caso da Nova Zelândia). Ou seja, a produção do Guinness World Records pra trigo não tem ultrapassado 53 kg/ha/dia (65% do que foi obtido por Paulo Bonato).

Afinal, que faz Paulo Bonato diferente para ter alcançado essa produtividade de trigo tão elevada? O segredo, que ele não esconde, não é “falar com o trigo”, como muitos insinuam, pois isso ele não faz, mas, metaforicamente, “escutar o trigo”, como ele costuma dizer, pela presença permanente na lavoura, dando aquilo que a planta precisar, no momento que necessitar. Bonato segue a orientação da pesquisa e da assistência técnica, com ênfase especial na construção de um perfil de solo, que, de preferência, chegue a um metro de profundidade, sem impedimentos físicos e/ou químicos. Busca manejar proteção de plantas da melhor maneira possível, dando atenção à compatibilidade entre os produtos usados. Não prescinde de usar, adequadamente, redutores de crescimento e seguir um programa de nutrição de plantas que privilegie altas produtividades, com macros e micro nutrientes, além de produtos biológicos. E, indiscutivelmente, não descuida do manejo da irrigação para que o acamamento de plantas, em alta população e com espigas pesadas, em época de ventos no Cerrado, seja evitado.

O ambiente do Cerrado do Brasil Central é propício à obtenção de rendimentos elevados em trigo, quando semeado em maio e no sistema irrigado. Todavia essa potencialidade, uma das melhores do mundo, tanto para produtividade quando para qualidade tecnológica dos grãos colhidos, para se auferida, precisa ser explorada com genética de qualidade e práticas de manejo de cultivos. Não foi outra coisa que fez o produtor Paulo Bonato, quando, sob uma condição ambiental diferenciada, em 2021, inclusive para a própria região, uniu a genética do trigo BRS 264 com um sistema esmerado de manejo de lavoura.

O trigo BRS 264, lançamento da Embrapa, de 2005, para o sistema irrigado, no Cerrado do Brasil Central, ainda é um marco que aguarda ser superado, seja em precocidade, potencial de rendimento e, cima de tudo, em qualidade tecnológica dos seus grãos, cuja farinha produzida nada fica a dever para as derivadas dos melhores trigos do mundo. Foi a base do trigo BRS 264, que a farinha Buriti, produzida pelo moinho da COOPA-DF, foi catapultada à fama de uma das melhores do Brasil, tendo se destacado como a preferida pelas padarias no Distrito Federal.

Nossos respeitos ao pesquisador Júlio César Albrecht, da Embrapa Cerrados, e a toda a equipe do programa de melhoramento genético de trigo da Embrapa, pela criação do trigo BRS 264, que, indubitavelmente, é um marco na triticultura brasileira.

Que venham novos trigos BRS 264 e mais triticultores como Paulo Bonato!

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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