No período em que me concedi umas férias, republiquei algumas colunas sobre os Estados Unidos da América. A extraordinária repercussão das políticas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump me faz voltar a escrever sobre aquele país.
Kishore Mahabubani
Mahabubani, numa palestra recente, usou a expressão “democracia falida” ao se referir aos EUA. Kishore é um dos pensadores mais influentes da Ásia contemporânea. É mundialmente conhecido por suas análises sobre geopolítica, relações internacionais e o papel do Ocidente e da Ásia no século XXI. Sua carreira combina diplomacia de alto nível com produção intelectual de impacto global. Nasceu em Singapura (1948). Foi embaixador daquele país na ONU durante muitos anos, onde presidiu o Conselho de Segurança de 2001 a 2002 que, como todos sabemos, é o organismo político e diplomático mais importante do mundo. É membro da Academia Americana de Artes e Ciência desde 2019.
A China Venceu?
O leitor que tiver interesse em conhecer o pensamento de Mahabubani pode assistir inúmeros vídeos de palestras e entrevistas no Youtube, ou perguntar para os aplicativos de Inteligência Artificial (IA) quem é e como pensa o cientista de Singapura. Um de seus livros de grande repercussão mundial, “A China Venceu?”, está publicado no Brasil. É leitura obrigatória para quem quer compreender melhor o cenário político mundial em que vivemos.
Tempos felizes nos EUA
Os Estados Unidos da América são um grande país, diz Mahabubani. Ele lembra que, há mais de cinco décadas, os americanos mandaram um homem à lua - proeza que nenhum outro país realizou. Ganharam mais Prêmios Nobel, em todas as áreas, do que qualquer outro país. Houve um tempo em que o mundo inteiro invejou o histórico de desenvolvimento social, econômico e cultural dos Estados Unidos. Desde o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) até mais ou menos 1980, a maioria do povo americano, incluindo a metade mais pobre, teve significativa melhoria em seu padrão de vida. Foram tempos felizes, mas esse período parece ter acabado.
Os pobres estão mais pobres; os ricos, mais ricos
Algo está dando errado na sociedade americana. Indicadores fundamentais estão se tornando negativos. De uma forma um tanto chocante, os Estados Unidos são a única grande sociedade desenvolvida em que a renda média da metade mais pobre da população estagnou. Ao contrário dos Estados Unidos, a renda média das parcelas mais pobres da população da União Europeia, da China e de toda a Ásia - exceto Oriente Médio - cresceu. Ela também está crescendo no Brasil. A estagnação da renda dos 50% americanos mais pobres contrasta fortemente com a renda do 1% mais rico. Os americanos de renda média, a maioria da população, detinham 62% da renda em 1970; caiu para 42% em 2020, enquanto a renda dos mais ricos subiu de 29% para 50%. Assim, os pobres estão mais pobres, enquanto os ricos estão cada vez mais ricos.
Mar de desespero
As classes trabalhadoras brancas dos Estados Unidos costumavam acalentar, no coração e na alma, o sonho americano de ter uma vida melhor. Hoje existe a sensação de que os filhos não terão um futuro melhor do que o dos pais. É grande a insegurança econômica. Os salários não permitem viver com dignidade. Ter acesso à habitação, à saúde, à assistência médica e à educação é cada vez mais difícil. Essa grave deterioração social produziu o que Mahabubani chamou de “um mar de desespero”, acompanhado de todas as patologias que essa condição produz.
Pobreza e “mortes por desespero”
Numa próxima coluna pretendo tratar da pobreza nos EUA e nas chamadas “deaths of despair” (mortes por desespero).

