O adeus a um gentleman da meteorologia
Antônio Divino Moura, um dos mais laureados cientistas brasileiros e quiçá do mundo nas ciências atmosféricas, morreu no começo da noite do dia 16 de abril de 2026, em São José dos Campos, cidade que residia no Estado de São Paulo. Ele tinha 80 anos e não resistiu a uma grave enfermidade que o acometeu. Deixou a prantear a sua memória, além da companheira Rosa Feres e dos filhos Flávia e Alexandre, uma legião de amigos e admiradores do trabalho que ele realizou em prol do desenvolvimento da meteorologia mundial, como bem-atestam as inúmeras notas institucionais de pesar que vieram a público por ocasião do seu passamento.
Divino Moura, como era conhecido nos círculos acadêmicos, era mineiro de Ituiutaba. Formado em engenharia elétrica pela UFMG (1969), fez mestrado parcial em meteorologia no INPE e doutorado (PhD) pelo MIT (1974). Teve passagem pela NASA/GISS (1980), foi pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia do INPE (1975-1996), diretor do IRI (1996-2002), vice-presidente da OMM (2007-2011), diretor do INMET por duas ocasiões (1985-1988 e 2003-2016), presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (2013-2014) e, nos últimos anos da carreira, atuou como coordenador-geral e diretor substituto do CPTEC/INPE, de 2016 a 2019, entre outros tantos postos de destaque que ocupou. Também não faltaram distinções honorificas na sua carreira: o Prêmio Carl Gustav Rossby pela tese defendida no MIT, considerada destaque do ano na área de Meteorologia; eleito membro honorário da Royal Meteorological Society (2013) e da Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento – TWAS (1998); além de ter recebido, em 2019, o prêmio máximo da Organização Mundial de Meteorologia (WMO/IMO) pelas suas contribuições relevantes para a meteorologia e a ciência do clima. E, um dos seus orgulhos, ter ocupado a Cadeira 30 da Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba, a ALAMI.
Eu conheci Divino Moura no começo dos anos 1980, quando ainda trabalhava no Instituto de Pesquisas Agronômicas, em Porto Alegre, por intermédio do professor Moacir Berlato. Na ocasião, Berlato fazia doutorado em Meteorologia no Inpe e buscou dotar o Rio Grande do Sul do que havia de melhor nas ciências atmosféricas, no Brasil e no mundo, e isso incluía, necessariamente, Divino Moura. Indispensável dizer que a sua figura chamava atenção pelo conhecimento que denotava possuir e pelo jeito educado e diplomático, um verdadeiro gentleman, no trato com as pessoas, que o tornavam merecedor do respeito dos pares e modelo de inspiração para os iniciantes.
Divino Moura destacou-se, especialmente, pela atuação em pesquisa colaborativa com organizações internacionais. Vivenciou, ativamente, a revolução que aconteceu nas ciências atmosféricas, quando, a partir da década de 1980, começou, de fato, a ser elucidado o papel do acoplamento dinâmico oceano-atmosfera como uma das principais fontes de variabilidade climática interanual no mundo. A inclusão do ENOS, a partir de 1982, como base das previsões climáticas, para as regiões influenciadas por esse fenômeno, foi fundamental para os avanços alcançados nessa área. O Brasil, por possuir várias partes do seu território sensível às fases do ENOS, foi um dos países beneficiados pela melhoria das previsões na escala climática. Sobreveio o Programa TOGA (Tropical Oceans and Global Atmosphere Program), de 1º de janeiro 1985 a 31 dezembro 1994, que deixou como legado o sistema de monitoramento da Bacia do Pacífico na faixa equatorial. Idem o monitoramento do Oceano Atlântico, pelo Projeto PIRATA, que, entre as contribuições, pode se destacar o melhor entendimento das secas do Nordeste brasileiro, a partir do Dipolo do Atlântico, que ficou materializado no clássico artigo de Moura e Shukla, de 1981.
Nos últimos dois anos, em função do livro “El Niño Oscilação Sul - Clima, Vegetação e Agricultura”, cujo mentor foi o Professor Moacir Berlato, tive o privilégio de interagir com o Dr. Divino Moura, que assinou o prefácio da obra, por meio de trocas de mensagens sistemáticas pelo WhatsApp. E, evidentemente, conhecê-lo um pouco melhor, pelo menos o seu pensamento científico e a sua visão cultural de mundo, que só fez crescer a minha admiração e respeito por ele, via trocas de mensagens sobre livros, artigos científicos e textos de opinião tratando de assuntos variados. Educadamente, ele sempre deu retorno aos textos das colunas semanais de O NACIONAL, que eu enviava às quintas-feiras à noite, e fazia complementos relevantes. Quando escrevi sobre Edward Lorenz e o efeito borboleta, ele acrescentou que teve o privilégio de tomar quatro cursos lecionados por Lorenz no MIT e que Lorenz havia feito parte da sua banca de defesa de tese, em 1974. E, sobre o livro de Jagadish Shukla (A billion butterflies - A life in climate and chaos theory), que, inclusive, foi uma sugestão de leitura vinda dele, destacou que haviam sido colegas no MIT e que, além dos muitos trabalhos que publicaram juntos, mantinham relação de amizade até os dias atuais. Frisou o quanto ele admirava o renomado climatologista indiano, radicado nos EUA, e que, por ter gostado do que eu escrevera sobre o livro, enviaria o link da coluna para Shukla.
A última mensagem que recebi do Dr. Divino Moura, possivelmente doente e, talvez, hospitalizado, foi no dia 9 de abril, uma semana antes de sair de cena: “Muito obrigado caro Gilberto. Forte abraço”. Muito obrigado digo eu. Foi um privilégio tê-lo conhecido. Requiescat in pace, Dr. Divino Moura!
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


