A geopolítica da desconfiança é um tema que tem sido discutido muito ultimamente. A globalização, que foi sustentada por décadas por um elemento central chamado previsibilidade, começou a se deteriorar. Isso significa que as empresas não têm mais certeza se vale a pena investir em determinados projetos, pois, a estabilidade comercial e a segurança jurídica não são mais garantidas. O problema é que isso está acontecendo em várias dimensões ao mesmo tempo, o que cria um ambiente internacional mais instável e vulnerável a crises. A escalada entre os EUA e o Irã é um exemplo disso. Mesmo antes de qualquer coisa mais grave acontecer, os mercados já estão reagindo com preocupação sobre o petróleo, o transporte marítimo, a inflação e a segurança energética.
Dependência virou vulnerabilidade
Isso mostra como o mundo é interdependente e como as crises geopolíticas podem ter impactos econômicos globais em poucas horas. A dependência entre os países é grande, e isso pode se tornar uma vulnerabilidade. A desconfiança estratégica surge quando os países começam a ver a dependência externa como um risco para a segurança nacional. Isso está acontecendo em áreas como a energia, os semicondutores, os minerais críticos, a inteligência artificial e as cadeias logísticas globais. A disputa entre os EUA e a China é um exemplo disso. Os EUA querem reduzir a dependência tecnológica da China, enquanto a China está investindo para aumentar sua autonomia industrial e digital. Isso significa que a lógica da eficiência econômica está sendo substituída pela lógica da proteção estratégica.
O custo invisível da desconfiança
Mas existe um efeito silencioso nesse processo: o aumento estrutural dos custos globais. Produzir segurança estratégica exige estoques maiores, investimentos defensivos e menor dependência externa. A guerra na Ucrânia já mostrou como conflitos regionais podem ter impactos globais em energia, fertilizantes e alimentos. E agora, a tensão entre os EUA e o Irã está aumentando a percepção de risco sobre uma das regiões mais sensíveis do planeta para o abastecimento energético mundial. Além disso, a militarização tecnológica está crescendo. Os chips não são mais apenas componentes eletrônicos, mas também estão sendo usados em disputas geopolíticas centrais. A inteligência artificial, os satélites e os sistemas cibernéticos estão se tornando ativos estratégicos de poder.
O cone de futuros
O futuro é incerto, mas o cenário mais provável é que haja uma fragmentação moderada do sistema internacional, com cadeias mais regionalizadas, competição tecnológica permanente e maior intervenção estatal em setores estratégicos. O cenário desejável seria a construção de mecanismos mínimos de cooperação entre as grandes potências, especialmente em energia, inteligência artificial e segurança digital. Mas o cenário possível, se a desconfiança continuar a aumentar sem mecanismos de contenção, é que haja guerras híbridas mais intensas, choques energéticos recorrentes, disputas tecnológicas agressivas e crises simultâneas. E talvez o principal risco da geopolítica da desconfiança seja justamente essa contradição: o mundo nunca dependeu tanto da cooperação internacional, mas há cada vez menos confiança entre os atores responsáveis por sustentá-la.

