Consta como uma das aberturas de livro mais antológicas da história: “Certa manhã, Gregor Samsa despertou de sonhos intranquilos...”
Gregor Samsa é o protagonista de “A Metamorfose”, do escritor tcheco Franz Kafka, e o fato de o autor não se deter em pormenores sobre o que sonhara seu personagem explica-se pela realidade insólita de ele ter despertado na asquerosa forma de uma barata.
“Escreva sobre um sonho e perca um leitor.” O aforismo, atribuído ao escritor Henry James, é premissa de uma profunda reflexão do escritor britânico Martin Amis, em seu livro de memórias “Os Bastidores: Como Escrever”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
No livro, Amis extrapola em ressalvas a outros dois temas bastante caros à literatura universal: sexo e religião.
Em sua análise, a fé mística e o prazer carnal são experiências que resistem à disciplina da linguagem. Em ambos, o fato de a literatura precisar organizá-los em palavras, gestos e frases inevitavelmente reduz a experiência à sua representação literária. A religião literária costuma soar pernóstica; a literatura sexual, vulgar.
Quanto aos sonhos, a ressalva é que seriam inviáveis de se narrar porque precisam se submeter à lógica da consciência que despertou. O que era absurdo em um sonho torna-se apenas estranho quando contado sem os sensores da subconsciência.
Tenho sonhos estranhos e recorrentes com praticamente toda a discografia do Djavan.
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Minha saudosa psicanalista, Dra. Adriana, era freudiana. Um dos tantos motivos que me levaram a despencar sobre seu divã foi tratar a relação extremamente atribulada que mantinha contra meu sono. Por um período, fui usuário contumaz de todo tipo de medicamento que acionasse os botões químicos desliga-desperta-desliga. A praticidade em apenas derrubar os disjuntores cerebrais por via oral era tentadora demais para que se desperdiçasse tempo pastoreando carneiros imaginários no breu aflitivo do quarto. Por alguma razão, a cama me era um lugar tão difícil de se ficar quanto de se sair. Ao assimilar que havia chegado ao extremo de ter de abdicar das soluções prescritas, as noites desde então se tornaram um ambiente bem mais animado e conturbado de se coexistir: é como se houvesse um despejo compulsivo de todos os sonhos represados durante o período em que o inconsciente esteve em anestesia.
Em esforço complementar à terapia, aderi com disciplina a todas as mandingas relacionadas à higiene do sono possíveis: atividade física, beber muita água, alimentação saudável e maneirar o consumo de estimulantes como cafeína.
Na teoria, tudo aquilo que servisse à garantia de pernoites de subconsciente calmo, lúdico e contínuo.
Na prática, tem sido um sono fracionado por três a quatro despertares. Quando não aos resmungos da próstata hiper hidratada, por sustos de pesadelos, clamores de algum açúcar no sangue ou porque apenas desenvolvi um senso de responsabilidade tão reto e convicto, que faltar ao chamado da vigília das três da manhã em ponto seria, de certa forma, recair em antigos hábitos de meu período ansiolítico.
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A ciência não trata como anômalos os sonhos que costumam ser sublinhados por alguma trilha sonora aleatória. Seria, inclusive, um mecanismo bastante óbvio e razoável de se ressaltar o gênero das emoções. A intercorrência contínua de um mesmo artista, no caso, diria apenas sobre algum sintoma de predileção íntima.
O curioso é que não escuto Djavan em modo consciente há anos. Sequer o mantenho em alguma playlist.
Talvez a explicação esteja em sua prosódia lírica e melódica, tão fragmentada e inventiva, bem ao jeito que os sonhos costumam ser construídos.
Freud explica os sonhos como manifestações disfarçadas de desejos, conflitos e pensamentos que a consciência mantém reprimidos.
Dra. Adriana, ao constatar a estranha recorrência das músicas do Djavan nos meus sonhos, soou menos freudiana do que lacônica:
— Ele realmente canta tão bem sobre todos os sentimentos...
Esta noite sonhei que estava me afogando.
Lembrei da Dra. Adriana.
Quanto melhor que tenha sido ao refrão de Oceano.

