OPINIÃO

O meu problema

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Olhando em retrospecto, fui um adolescente problemático. Reverbera daquela época a memória de uma das frases mais infames que me habituei a escutar:

— Sabe qual é o teu problema?

Embora ardilosamente proposta no singular, a pergunta era sempre retórica e prenunciava uma quantidade de falhas novas e devastadoras para qualquer autoestima atribulada pelos sintomas do niilismo e pelas inconsequências dos hormônios.

Saber qual era o meu problema era uma espécie de prefácio de meus equívocos. Eu era um sumário vivo dos piores enganos. Se havia alguma verdade em Sartre, ao escrever em Entre quatro paredes que “o inferno são os outros”, tudo me impunha crer que eu descendia direto dos fluidos do Capiroto.

Ser um pouco dramático talvez fosse o menor dos meus desatinos; a preguiça era o maior dos meus desencontros.

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Havia, à época, uma certa pedagogia aplicada na construção de traumas que era bastante popular. Era uma lógica corretiva que supunha zelar pelo futuro da espécie. A crítica preventiva serviria para antecipar alertas de índole, aspecto e intelecto. A joelhada do Analista de Bagé, personagem de Luís Fernando Verissimo, era muito mais efetiva que o self de Jung ou o id, o ego e o superego de Freud. Ser atualizado diariamente sobre quais eram os meus problemas era apenas a semântica me golpeando as virilhas.

Demorou décadas para que o meu problema de ser um problema fosse abordado na terapia. Dra. Adriana sugeriu estancar o convívio.

Disse que meu problema era me importar muito com o que os outros achavam.

Acho que ela me achou um pouco dramático.

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E, de fato, ao estancar do convívio, passei à percepção de que algumas virtudes coexistiam com os próprios defeitos, e que a autoestima resiste bem com apenas um pouco de simetria entre os polos da bem-aventurança e do estrupício.

Remonto a esta parábola de autofidelidade com notas graves de autoajuda porque acabo de ser contestado por um problema novo. Um transtorno que me calou fundo no orgulho. Meu mais recente problema decorre do tempo, e foi detectado num espermograma.

Há um ano que venho submetendo meus espermatozoides a tamanho escrutínio, que já resto apenas pela descoberta de que algum deles pegou carona no avião do Daniel Vorcaro.

A hipótese da paternidade em idade avançada impõe uma travessia que nos faz oscilar entre o apreensivo e o vexatório. O espermograma é colisão perfeita entre os dois. Se existe algum sentido digno à maturidade, é quando passamos a nos preocupar menos com a libido do que com o método; mais com a circunstância do que com o bem-estar. Às sete horas da manhã, no instante em que a enfermeira entrega um potinho de coleta e algumas revistas pornográficas, medo e vergonha invadem todos os espaços reservados às células e aos neurônios.

— Qual é o meu problema? — você passa, enfim, a se perguntar.

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O meu problema, no caso, estaria na cepa de meus descendentes; no lote de meus agregados. Alguns estariam um pouco preguiçosos; outros, muito sedentários. Depois de tanto tempo e apesar das condições insalubres, nenhum deles demonstrou interesse em sair da casa do pai.

A solução foi descartá-los todos de uma vez, o que espero que o Código Penal não configure como abandono de incapaz. Para tanto, ao longo dos próximos três meses, estou submetido a três fórmulas antibióticas e um composto vitamínico que me exige a ingestão de vinte comprimidos todos os dias. Por enquanto, os sintomas se fazem notar menos nos testículos do que no estômago. Os músculos resmungam, exaustos; os fluxos de gases irrompem numa sinfonia de espasmos sincronizados. Foram-me impedidos o consumo de álcool e a hipótese de um sono sem náuseas.

O problema dos espermatozoides é que eles dão muito trabalho.

Não vejo a hora de um deles roubar o meu carro.

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