É uma dor que repuxa e fisga rente ao ombro, ao mínimo manejo do braço. Quando não arde pelo reflexo do gesto, lateja na estática do corpo em repouso. A sensação é de que o mau humor do nervo é sintoma do mau jeito do tempo. Tivesse de ofendê-lo pelos termos mais chulos, bursite seria um bom xingamento.
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É uma dor que fraqueja o punho e trava a rotunda dos ossos durante as manobras mais ordinárias. Ora falha nas tarefas domésticas, noutras dedilhando os teclados. Não importa a leveza das louças ou o peso das palavras: o punho hesita, na mão, os dedos retorcidos de uma garra. A literatura médica determina como Lesão por Esforço Repetitivo — como se, para sentir-se lesado, não bastasse estar vivo.
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É injusto com os bípedes suportar as três posturas do corpo ao longo do dia. Deita-se, senta-se e levanta-se a todo tempo e por qualquer pretexto. A cama me definha o pescoço, o sofá me frangalha o ciático e a rua me fadiga as panturrilhas. Meu maior receio na vida adulta é ter de dar cambalhotas. As corujas resolvem suas pendências apenas girando a cabeça.
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Meu colesterol é ruim; meu colesterol é alto. O colesterol está presente em todo o organismo, embora eu não consiga reparar seus sintomas nem perceber seus indícios. Não trago marcas de colesterol no rosto. Não me causa náuseas, dor nem sono. É impactante que uma geringonça com tantos orifícios projetados para expelir substâncias nos três principais estados da matéria seja incapaz de despachá-lo entre outros tantos dejetos. Por muito menos, um espirro é capaz de subjugar o planeta inteiro em pandemia. Os flatos rasgam buracos na camada de ozônio.
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Em contrapartida, meu colesterol bom é muito bom. Não entendo esta dicotomia colesterol, o yin e yang colesterol, o Eros e Tânatos colesterol. Era bom quando colesterol ruim era pleonasmo. A culpa era do ovo, e era simples, porque é bom o simplismo de colocar sempre a culpa no outro. Bondade talvez seja uma faceta indiferente ao caráter de um colesterol.
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Existe um fenômeno psicológico conhecido como ilusão de frequência, também chamado de fenômeno de Baader-Meinhof. É quando alguma coisa passa a nos interessar e, de repente, passamos a percebê-la em todos os lugares. O marketing médico é muito competente no uso da ilusão de frequência. Por meio de conteúdo educativo, apresenta sintomas e doenças que talvez o paciente jamais tivesse considerado. Um dos exemplos mais geniais ouvi no rádio. Dizia o médico, com voz de autoridade serena:
— Se você foi diagnosticado recentemente com um aneurisma cerebral, fique tranquilo!
Já tenho ossos, músculos, sangue e nervos comprometidos. Mas não fui diagnosticado com aneurisma cerebral recentemente. Não tinha motivos para ficar tranquilo. Por muito pouco, a dúvida não me causou um AVC.
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Minhas dores físicas e anomalia sanguínea decorrem do tempo de vida e dos excessos de dopamina. A parte mais difícil do amadurecimento é a transição dos neurotransmissores. A dopamina é a química adolescente da expectativa. Antecede a recompensa, acende o desejo, movimenta a busca. É o neurotransmissor da querência. Seu uso prolongado, entretanto, costuma causar sedentarismo, sobrepeso e procrastinação. É quando os médicos prescrevem a endorfina como contraveneno.
A endorfina é a química da consequência. Está associada ao bem-estar produzido pelo esforço e pela superação. Se a dopamina oferece a recompensa antes do esforço, a endorfina promete um prazer que só se sente depois. Uma celebra a expectativa; a outra recompensa a resistência. A dopamina é o desejo por uma banana; a endorfina é ter de correr uma maratona em busca de potássio. A metáfora frutífera procede desde quando me determinei a correr.
São unânimes entre os corredores, profissionais ou amadores, os benefícios da corrida. Muitos destacam o bem-estar mental. O ambiente também é acolhedor. Ninguém julga o desempenho alheio. O importante é a constância e a disciplina; é preservar antes de desistir. A recompensa vale mesmo a pena. Acabo de consumar minha primeira grande conquista.
Comprei um tênis.
Dopamina em dia; a endorfina é apenas questão de tempo.

