A felicidade é o nosso maior desejo
No livro “O mal-estar na cultura”, Sigmund Freud (1856-1939) pergunta o que o nosso comportamento revela sobre a finalidade e o propósito da vida humana. A resposta, afirma ele, é evidente e “não nos deixa errar”: buscamos a felicidade, desejamos ser felizes e manter essa condição. Séculos antes, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) sustentou que os seres humanos anseiam por viver da melhor maneira possível e que o objetivo último da vida é a felicidade. Contudo, ela só pode ser plenamente alcançada na vida em comunidade. Quem não necessita da sociedade por bastar-se a si mesmo não é um cidadão, mas “uma fera ou um deus”, escreveu o sábio grego.
Nossa felicidade depende da vida em sociedade
Como não somos bestas nem deuses, nossa felicidade depende da vida em comunidade. Diferentemente das espécies animais gregárias, como abelhas e formigas, que já nascem “programadas” para adotar o comportamento mais adequado ao funcionamento da ordem social em que vivem, nós precisamos de esforço moral e racional para alcançar o mesmo fim. Não nascemos prontos para a cidadania. No livro “Política” Aristóteles afirma que a virtude de uma sociedade não é fruto do acaso, mas da ciência e da vontade. E adverte: “uma república só pode ser virtuosa quando os próprios que tomam parte no governo são virtuosos: ora, em nosso sistema, todos os cidadãos tomam parte no governo.”
A ordem social exige moralidade e racionalidade
Para que a ordem social não se degrade em arbítrio e violência, precisamos de um duplo esforço: moral e racional. O esforço moral consiste em conter nossa natureza insociável, como observou Freud. Entregues à espontaneidade de nossas paixões e instintos, não conseguiremos obter a ordem social, e nossa vida será solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta, escreveu Thomas Hobbes (1588-1679) no Leviatã. A psicologia evolucionista, assim como todas as grandes religiões, observa que a vida é uma luta entre desejo e consciência. Steven Pinker, no livro “Como a mente funciona” escreveu: “Assinamos contratos, nos submetemos às leis e empenhamos nossa reputação com declarações públicas de lealdade a amigos e cônjuges. Essas não são táticas para derrotar outra pessoa, mas táticas para derrotar as partes mais perversas de nós mesmos.”
Racionalidade
Além da moralidade, a ordem social exige esforço racional. Precisamos mobilizar a inteligência: a capacidade de atingir objetivos diante de obstáculos por meio de decisões baseadas em regras racionais, isto é, regras que obedecem à verdade e ao estado real das coisas. O maior obstáculo para uma boa sociedade somos nós mesmos, porque são nossas paixões e instintos que precisamos superar ou reprimir. Por isso criamos instituições, procedimentos e normas capazes de sustentar a vida coletiva; nada disso está inscrito em nosso código genético, ao contrário do “Estado monárquico” das abelhas e cupins. Os animais contam apenas com o código genético. Nós, além dele, precisamos de códigos criados pela razão – penal, civil, de trânsito e tantos outros – para organizar a convivência e conter aquilo que a natureza não regula por si mesma.
E o Brasil?
Se, como vimos, uma sociedade boa, saudável e funcional exige de seus cidadãos não apenas racionalidade, mas também compromisso moral, não deveríamos, você e eu, caro leitor, olhar com profunda preocupação para o estado atual da sociedade brasileira?

