A pouco menos de três semanas das eleições legislativas americanas, Donald Trump encontra-se diante de um problema político que já supera a dimensão militar da guerra com o Irã. O barril do Brent voltou a superar os US$ 100, negociado acima de US$ 106 (durante a produção dessa coluna), enquanto ataques a navios no estreito de Ormuz e a instalações na Arábia Saudita mantêm o mercado atento à possibilidade de novas interrupções no abastecimento. Considero que Teerã compreendeu uma vulnerabilidade importante de Washington: o custo da guerra chega ao eleitor pela gasolina e pela inflação, mesmo quando os Estados Unidos preservam superioridade militar. Os ataques dos houthis, aliados do Irã, contra alvos sauditas ampliam a área de instabilidade e dificultam uma solução restrita à negociação bilateral. O risco para as rotas marítimas e a infraestrutura energética tornou-se parte do confronto, com efeitos fora do Golfo. Nesse ambiente, cada operação militar pode elevar o preço político de uma guerra que Trump prometeu encerrar rapidamente.
O calendário da Casa Branca
Trump anunciou que suspenderá novos ataques aéreos ao Irã até as eleições de 3 de novembro, embora o Pentágono tenha examinado alternativas de ofensiva antes da votação. Entendo essa aparente divergência como expressão das pressões que cercam a presidência: preservar capacidade de dissuasão, manter abertas as negociações e evitar que uma escalada provoque novo choque no petróleo às vésperas das urnas. A oposição democrata procura associar o conflito à alta do custo de vida, enquanto os republicanos precisam defender a política externa presidencial em distritos competitivos. Pesquisa recente do Pew Research Center mostrou que 65% dos americanos desaprovam a condução da guerra. O dado ajuda a dimensionar o desgaste, mas o comportamento do eleitor também dependerá da economia, da mobilização partidária e das disputas locais.
Três cenários depois das midterms
No cenário provável, independentemente da composição final do Congresso, a Casa Branca mantém a pressão econômica e militar sobre Teerã e busca uma negociação que permita apresentar resultados. A continuidade das hostilidades decorre da distância entre as exigências americanas e as concessões que o governo iraniano aceita discutir. No cenário possível, uma maioria republicana na Câmara e no Senado ampliaria o espaço político de Trump para endurecer a ofensiva depois das eleições, com novos ataques. Uma maioria democrata nas duas Casas fortaleceria a fiscalização, o controle orçamentário e as iniciativas para limitar a guerra; um Congresso dividido abriria disputas sobre esses instrumentos. Em qualquer configuração, o presidente conservaria competências militares e diplomáticas. No cenário desejável, o resultado das urnas favoreceria uma saída negociada, com compromissos verificáveis sobre o programa nuclear, a circulação em Ormuz e a redução gradual das sanções. A meu ver, o maior desafio de Washington será reconhecer que a capacidade de atingir alvos iranianos, por si só, dificilmente garantirá estabilidade regional. O teste político de novembro poderá alterar o ritmo da guerra, mas sua solução continuará dependendo do que americanos e iranianos aceitarem negociar.

