Fariseus e partidários de Herodes se unem “para apanhar Jesus em alguma palavra” com uma pergunta-armadilha: “É lícito ou não pagar imposto a César?” Qualquer lado pelo qual Jesus optasse traria riscos, pois ele seria acusado de colaborador ou estaria desafiando o poder romano. Jesus não se esquiva do problema; antes, eleva-o a um nível superior, demonstrando como devem ser tratados os assuntos importantes da vida pessoal, das instituições e da sociedade. A resposta de Jesus, em forma de sentença, dá muito o que pensar: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Is 45,1.4-6; Sl 95; 1Ts 1,1-5; Mt 22,15-21).
Antes da pergunta, fazem um belíssimo elogio a Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas pelas aparências”. Esse elogio, mesmo feito com más intenções, aponta características de Jesus a serem assumidas e desenvolvidas por cada cristão. Ele é destacado como mestre que ensina com autoridade. É verdadeiro na forma de ensinar e viver, e é verdade aquilo que ensina. Também reconhecem que ele tem opinião própria e não se guia pelas aparências. Portanto, não é vulgar e sabe sustentar com maestria seus posicionamentos.
A resposta de Jesus - “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” - indica que cada pessoa tem compromissos com Deus e com o Estado. Essa relação entre a autoridade civil e Deus é sempre complexa, como atestam os fatos históricos. Mesmo que sejam autoridades distintas e independentes, estão sempre próximas e convivem. Concretamente, esse tema se materializa nas relações entre o Estado e a Igreja (ou a comunidade eclesial e a civil). A Igreja trata dessa relação na Doutrina Social da Igreja, na qual encontramos princípios de discernimento e orientação segura.
Qual relação deve haver entre a comunidade eclesial e a comunidade política? Na Constituição Apostólica Gaudium et Spes, de 07/12/1965, a Igreja afirma que “a missão própria que Cristo confiou à sua Igreja não é de ordem política, econômica ou social: o fim que Ele lhe fixou é de ordem religiosa” (nº 42). Portanto, “no domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autônomas” (nº 76). Na prática, isso significa que cada uma deve ser livre para perseguir seu próprio fim e usar os instrumentos de que dispõe. No entanto, há pontos comuns em que se compenetram. As pessoas da Igreja e do Estado são as mesmas; assuntos como família, escola, busca do bem comum e outros exigem relações necessárias e de cooperação.
Qual é o limite entre o âmbito religioso e o âmbito político que não é lícito ultrapassar nem por parte da Igreja, nem por parte do Estado? Tendo por fundamento a liberdade religiosa, o Estado não pode interferir na organização interna da Igreja, nem no seu ensinamento doutrinário, ritos e celebrações. Da mesma forma, a Igreja não pode interferir na organização e gestão do Estado.
Sobre as relações entre a hierarquia e o compromisso político dos fiéis leigos: a Igreja proíbe que bispos e padres se candidatem a cargos públicos. Porém, eles têm o dever moral de se pronunciar sobre a moralidade das leis e programas de Estado. Cabe aos fiéis leigos assumir cargos públicos e neles agir segundo o Evangelho e os princípios da Doutrina Social da Igreja.
Na história, temos muitos confrontos e dificuldades nessa relação. Agora, é preciso que a comunidade eclesial e a comunidade política estabeleçam um estilo novo de colaboração, no pleno respeito pela autonomia recíproca e na correta compreensão do Estado laico.

