Rossana Stella Oliva Braghini- Psicanalista
A quinta edição do Congresso Internacional de Convergência - Movimento Lacaniano para uma Psicanálise Freudiana - foi sediado em Porto Alegre, sendo a Appoa - Associação Psicanalítica de Porto Alegre - a instituição convocante. Foram 4 dias de trabalho intenso, apresentados por 38 Instituições da Europa, Ásia, Estados Unidos e América Latina.
Nesse ano, o tema foi o Ato Psicanalítico e suas Incidências Clínicas, Políticas e Sociais. Como prévia, tivemos a oportunidade de ouvir a psicanalista Maria Rita Kehl que nos falou brevemente sobre sua ótica da Comissão da Verdade, instituída no governo da presidenta Dilma Roussef, da qual é um1a das integrantes.
Maria Rita inicialmente fez um link entre o gesto da presidenta Dilma Roussef, ao criar a comissão da verdade e o Ato (no sentido psicanalítico) de um sujeito de desejo. Isto porque talvez outros presidentes que a precederam não tiveram o desejo de rever a época da ditadura como ela que foi torturada. Este Ato terá incidências políticas e sociais. Como colocou a própria presidente Dilma, a comissão da verdade é uma comissão de Estado e não de governo, ou seja, que transcende seu governo, uma vez que é o Estado Brasileiro que vai se responsabilizar pelas investigações e possíveis verdades que dai advirão. Faz uma ressalva ainda, de que como toda verdade, esta se constitui numa narrativa e não em uma verdade cabal. De qualquer forma, essa comissão se cria por desejo de um sujeito que se representa e se responsabiliza por seu Ato (no caso a presidenta Dilma) o qual terá repercussão em todos os brasileiros.
Que consequências podemos esperar deste Ato? Sempre que um ato é realizado, ele é um salto no vazio, no sentido que não oferece garantia nenhuma. Trata-se de uma aposta. É a mesma aposta, por exemplo, de quando um sujeito inicia uma análise ou alguém declara seu amor pelo outro. Pode-se esperar algo, mas não temos como ter garantias que os efeitos serão os desejados.
Assim sendo, lembrando o conceito de Slalov Siezek de Ato e transpondo-o para a Comissão da Verdade, esta buscará restabelecer memórias. Isto é, o imaginário que está na origem da ditadura e que ficou recalcado ou mal falado ou ainda falado pelas bordas desde lá. Logo, aquelas condições simbólicas que permanecem até hoje também serão afetadas. Que condições simbólicas? Algo de como se estrutura o poder no Brasil, não de seus ocupantes. Não no sentido de atingir pessoas que estão ou estiveram no poder, mas de questionar uma forma, um estilo. Estilo este que vem desde o período militar e que gerou uma teia subterrânea de pequenos poderes, que por “razões de Estado”, de “paz”, se permitiram determinados abusos, como por exemplo, a tortura. Só que esta teia de pequenos poderes não foi desmantelada e ainda hoje se sustenta naquelas condições simbólicas. Ou seja, hoje, por razões escancaradamente financeiras se permitem o abuso e a contravenção por meio da intimidação e do medo, como por exemplo, a CPI do Cachoeira, com suas ameaças a juízes. Desmantelar isto quem sabe não pode ser uma porta aberta para poder aportar novas estruturas simbólicas que sustentem um novo estilo de exercer o poder.

