Demanda de hospitais aumenta e serviços são precarizados em Passo Fundo

Crise se agrava e dívida de hospitais filantrópicos chega a R$ 1,6 bilhão em todo o Estado. Mês de agosto é marcado por mobilizações

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Natieli Batistela/ Hospital da CidadeNatieli Batistela/ Hospital da Cidade
Natieli Batistela/ Hospital da Cidade
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Os hospitais filantrópicos e santas casas representam hoje a única opção de atendimento hospitalar em quase 200 municípios gaúchos. A crise destas instituições tem se agravado mês a mês e muitos já diminuíram ou deixaram de prestar atendimentos à população. O resultado é a migração de pacientes para outros centros, como é o caso de Passo Fundo que já sofre com o aumento da demanda, superlotação de emergências, maior demora e atendimentos acima da capacidade. Neste mês de agosto, a Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do RS realiza uma mobilização para informar à população sobre os problemas enfrentados pelo setor e pedir uma única coisa aos governos federal e estadual: misericórdia.
Atrasos de repasses, pagamentos abaixo dos gastos com procedimentos em função da defasagem das tabelas do SUS e falta de novas formas de financiamento e incentivo fizeram os hospitais contratarem empréstimos. Hoje a dívida dos hospitais gaúchos enquadrados nestas categorias é de aproximadamente R$ 1,6 bilhão. Com a crise, de acordo com pesquisa realizada pela Federação, 43% dos hospitais reduziram atendimentos. Por ser um polo regional de referência em atendimentos de saúde, Passo Fundo tem sentido os reflexos diretos desta diminuição de atendimentos em outras cidades.

Acima da capacidade
No Hospital da Cidade, por exemplo, o aumento da demanda de atendimentos é superior a 30%. Conforme o administrador do Hospital da Cidade (HC) e Hospital Bezerra de Menezes (HBM) Luciney Bohrer as tabelas de pagamentos do SUS não são atualizadas há pelo menos dez anos enquanto os custos de equipamentos, materiais e medicamentos têm subido mês a mês. “Isso inviabiliza a questão do fluxo econômico e financeiro da instituição fazendo com que se busque outras fontes de recursos para poder suprir essas despesas, dentre elas a questão do próprio endividamento dos hospitais”, reforça. O movimento estadual, de acordo com ele, busca mostrar à população que nessas condições haverá cada vez mais restrições de atendimentos. “Para piorar a situação da região, temos várias cidades que cancelaram ou reduziram atendimentos e isso está ampliando o movimento dentro das nossas emergências, criando uma superlotação e dificultando o acesso para Passo Fundo e região”, reitera.
Juntos, o Hospital da Cidade e o Hospital Bezerra de Menezes disponibilizam cerca de 400 leitos. Além disso, há uma média de 800 atendimentos, entre as diferentes áreas, realizados diariamente pelo HC. Com os atendimentos acima da capacidade, pessoas muitas vezes têm de esperar em cadeiras para conseguir um leito. “A sociedade deve ter conhecimento do que está acontecendo e se articular para que o SUS tenha mais recursos e possa continuar dando atendimento. É o futuro da saúde da população que está em jogo”, alerta.

Atrasos de repasses
A Federação aponta que atualmente há atrasos na ordem de R$ 144 milhões relativos a programas específicos aos hospitais. No Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) são realizados diariamente mais de 2,5 mil atendimentos entre internações, ambulatórios consultas, exames, diagnósticos e atendimentos de emergência. Além disso, mantém uma média de 700 pacientes internados. O administrador, Ilário De David explica que não há caixa e o hospital precisou, recentemente, buscar R$ 35 milhões no Banrisul. “Incorporamos recentemente o IOT com o objetivo de melhorar caixa e as condições financeiras e econômicas do hospital. Poderíamos entregar as chaves, mas não é o caminho”, argumenta. Hoje os hospitais filantrópicos recebem, para cada R$ 100 que gastam no atendimento, apenas R$ 60 de retorno. “Não precisa ser matemático para saber que ao longo dos meses se acumulam déficits”, observa.

Demanda regional
De acordo com De David, a piora na situação econômica dos hospitais é sentida mensalmente, principalmente devido ao HSVP manter contato muito próximo com hospitais de toda a região. “Os hospitais estão perdendo a sua capacidade operacional que envolve recursos humanos, enfermeiros, técnicos, médicos, outros profissionais da área da saúde, uma estrutura tecnológica e manutenção de equipamentos para que estejam em perfeitas condições de funcionamento, estoques de suprimentos de medicamentos e materiais que precisam ser adequadamente preparados e armazenados. Há um custo muito expressivo para que o hospital possa se manter em operação e notamos pelas queixas dos administradores, das direções que cada vez está ficando pior”, detalha.
Conforme os hospitais dos municípios perdem a capacidade de atender às pessoas, elas acabam sendo empurradas para outros lugares. “Alguns hospitais estão sendo demandado acima da capacidade como é o caso do nosso e de outros hospitais de grandes centros que acabam tendo uma demanda exagerada e com isso cai qualidade de atendimento, aumenta reclamação e isso é ruim para todo mundo. Nossas emergências estão superlotadas, são 40 ou 50 pacientes além da capacidade de leitos e ninguém quer trabalhar assim”, observa. Hoje, até 80% de todos os atendimentos prestados no HSVP são de pessoas da região. Apenas pelo SUS, o Hospital tem uma abrangência de cerca de 300 municípios. Em outras áreas a abrangência chega a ser superior a 400 municípios.

Alerta da Federação
A entidade representativa dos hospitais e santas casas alerta que além da falta de políticas públicas contínuas, tanto nas esferas federal quanto estadual, há defasagem na Tabela de Procedimentos do SUS, corte de verbas e atrasos nos repasses. Além disso, de uma forma ou de outra todos os cidadãos que dependem do SUS estão sendo prejudicados. Com a diminuição da assistência e enxugamento de pessoal nos hospitais não há como diminuir a fila do SUS, ela só aumenta.
Em quase 200 municípios, os hospitais filantrópicos e beneficentes e as santas casas são as únicas opções para estes tipos de atendimento. No total, o Estado conta com 245 santas casas e hospitais filantrópicos que, no ano de 2014, representaram 75,2% das internações realizadas pelo SUS, um total de 573 mil. Além disso, do total de 33.713 leitos existentes no Estado, 22.977 estão em hospitais filantrópicos (68,15% dos leitos). No Estado, há um total de 23.056 leitos destinados ao SUS, dos quais 15.590 estão localizados nos hospitais filantrópicos (67,6%).

Carta aberta
Para marcar as ações deste mês de agosto, a Federação organizou uma carta aberta encaminhada aos governos federal e estadual. O documento ressalta que as ações são impulsionadas tendo em vista que o dia 15 de agosto é instituído como o Dia das Misericórdias no Brasil. As 245 Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Rio Grande do Sul querem chamar a atenção da população e pedir misericórdia aos gestores do SUS. Enfatiza também que hoje uma Consulta Simples para um adulto custa para os hospitais R$ 42,00 e o governo federal repassa apenas R$ 13,00. O documento se encerra com um questionamento: “Até quando os olhos de nossos governantes estarão fechados para nós? Até quando?”

Dívidas dos hospitais
Salários - R$ 32 milhões (2%)
Tributos - R$ 352 milhões (22%)
Fornecedores - R$ 368 milhões (23%)
Bancos - R$ 848 milhões (53%)
Total: R$ 1,6 bilhão
*Dados da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do RS

Realidade atual
91% dos hospitais afirmam que há dívidas relativas aos programas
46% indica que houve redução de pessoal (de 2015 até junho de 2016 10% do quadro de 65 mil trabalhadores)
44% afirmam que existem outros tipos de dívida (além dos programas)
43% reduziram internações e/ou atendimentos ambulatoriais
71% atrasaram honorários médicos
44% atrasaram salários de colaboradores
*Pesquisa realizada pela Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do RS

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