Pesquisadores identificam três linhagens do coronavírus em Passo Fundo

Sequenciamento genético da Fiocruz monitora as mutações do SARS-CoV-2 no território brasileiro

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Foto: Arquivo/SES RSFoto: Arquivo/SES RS
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Os pesquisadores vinculados à Rede Genômica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ao Laboratório Nacional de Computação Científica identificaram três linhagens do coronavírus em Passo Fundo. Os detalhes do sequenciamento genético do SARS-CoV-2 foram divulgados pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS) na noite de quarta-feira (3).  

Segundo delineia o gráfico, que aponta o número e os tipos de cepas do vírus detectados em pacientes gaúchos, as mutações B1.1.33, B.1.1.28 e B.1.1.119 foram identificadas nas amostras coletadas entre 9 de março de 2020 e 7 de janeiro de 2021 em exames RTP-CR dos passo-fundenses testados para confirmar a contaminação pelo coronavírus. O Governo do Rio Grande do Sul disse, em nota, que essas linhagens são frequentes e não representam, necessariamente, uma alteração na ação do vírus. O objetivo dos cientistas é identificar os tipos em circulação para monitoramento e controle da transmissão, imunização e tratamento. “As mutações podem, por exemplo, alterar as características do vírus e impactar no quadro clínico e na resistência às vacinas”, explicou o comunicado à imprensa.  

Boletim Genômico identificou a distribuição das diferentes linhagens de SARS-CoV-2 no Rio Grande do Sul. Fonte: SES RS


Doutor em Biologia Celular e Molecular, o coordenador da Especialização em Biologia Computacional e Exploração de Dados da Universidade de Passo Fundo (UPF), José Eduardo Vargas, esclareceu que as cepas apresentam mutações em genes que produzem uma proteína da superfície do vírus chamada spikecuja função é facilitar a entrada ou o reconhecimento do coronavírus nas células. “O vírus que infecta um paciente e permanece muito tempo no corpo desta pessoa se adapta à pressão exercida pelo sistema imunológico e gera mutações que podem favorecer ou não o próprio vírus, aumentando ou diminuindo sua capacidade de infectar células”, fundamentou.  

Embora o debate público sobre as mutações do SARS-CoV-2 esteja centrado em apenas três linhagens, a britânica B.1.1.7; a africana 501Y.V2, e a P.1, que surgiu no Amazonas, Vargas mencionou que a proximidade das pessoas e o tempo de exposição são elementos-chave para condicionar a infecção por qualquer uma das variantes do coronavírus.

O professor José Eduardo Vargas coordena a Especialização em Biologia Computacional e Exploração de Dados da Universidade de Passo Fundo (UPF). Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

A falta de adesão dos cidadãos às medidas preventivas, como o uso de máscaras e distanciamento, e a ausência de lockdown em momentos estratégicos para achatar a curva de contágio provocaram um descontrole na pandemia e abriram as portas para qualquer variante que possa vir de outros lugares ou que possa surgir no Estado, avaliou o professor. “No Rio Grande do Sul, existem estes projetos que estão identificando variantes, através de técnicas de sequenciamento de DNA, para tentar rastrear estas mudanças do vírus. Identificando-as, se pode adotar medidas mais racionais no controle da pandemia, mas precisa de agilidade na tomada de medidas por parte do governo e que os cidadãos trabalhem em conjunto”, salientou Vargas.  

Como foi feita a identificação 

A diretora do CEVS, Cynthia Molina Bastos, afirmou em entrevista à Agência EstadoRS que a Vigilância Genômica em doenças virais respiratórias é um passo adiante para o reconhecimento das cepas do vírus que estão circulando. Segundo ela, existe um banco de dados internacional chamado Gisaid, com sede em Munique, na Alemanha, onde virologistas que trabalham com influenza e coronavírus, por exemplo, inserem informações sobre todas as novas linhagens descobertas.  

O centro de referência alemão serviu, portanto, como base para a formatação do boletim gaúcho. “Essa atualização tem que ser rápida e muito dinâmica, porque as mutações de um vírus são silenciosas e a mesma pode fazer um vírus ficar mais leve ou acarretar em uma doença mais grave”, frisou Cynthia. 

Para a elaboração do estudo de mapeamento, segundo a diretora, foram utilizadas informações dos testes sorológicos analisados pelo Laboratório Central do Estado (Lacen/RS) e pelo Laboratório de Microbiologia Molecular da Universidade Feevale dos moradores de 53 municípios gaúchos, enviadas posteriormente à Fiocruz. O banco de dados permitiu identificar 12 linhagens de coronavírus e sete sub-linhagens circulando no Rio Grande do Sul. A avaliação detalhada da distribuição das diferentes cepas responsáveis pelo desenvolvimento da covid-19 serve, de acordo com o governo estadual, para a elaboração de vacinas ou medicamentos, ou ainda para a identificação dos fatores de transmissibilidade ou quadro clínico da doença. “São estratégias que unem ciência e tecnologia a serviço da saúde”, destacou a nota.  

O professor da UPF pondera, no entanto, que as novas variantes do coronavírus podem diminuir a eficiência de alguns modelos de vacinas ocasionada, sobretudo, por eventuais demoras na logística de imunização populacional. “Mas elas continuam sendo efetivas no combate à doença. Todas as vacinas que estão disponíveis e serão disponibilizadas para os brasileiros são seguras”, reiterou Vargas.  


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